Aos 37 anos, Edinho está de regresso ao concelho de Almada, onde iniciou a carreira de futebolista.

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"O futebol e o desporto não estão preparados para lidar com a homossexualidade"

Edinho nasceu há 37 anos em Aveiro, mas foi em Almada que começou a jogar futebol e iniciou um percurso desde os distritais à seleção nacional, pela qual jogou ao lado de Cristiano Ronaldo. Agora está de regresso ao concelho onde tudo começou para vestir as cores do Cova da Piedade. Este texto foi publicado a 15 de agosto de 2019 e faz parte de uma seleção de entrevistas, realizadas pelo DN durante o último ano, para voltar a ler neste verão.

Aos 37 anos, Edinho regressa a um clube de Almada, o concelho onde se iniciou no futebol sénior. O Cova da Piedade foi um clube que o seu pai representou, tal como o Vitória de Setúbal e o Marítimo. Foi propositado ou uma feliz coincidência?
Foi uma feliz coincidência. Só quando assinei pelo Cova da Piedade é que tive a perceção de que o meu pai já tinha passado pelo clube, mas é sempre gratificante representar um clube que ele representou e também uma responsabilidade acrescida.

Já poderá dizer-se que começa e termina a carreira em Almada ou ainda é precipitado?
Não sei. O futuro a Deus pertence. Não penso em acabar já, mas se isso acontecer obviamente que ficaria extremamente feliz, porque foi onde tudo começou. Seria fantástico.

Ainda assim, nasce em Aveiro. Com que idade se mudou para a margem sul e para que zona foi viver?
Se me lembro bem foi com 4 ou 5 anos. O meu pai na altura em que eu nasci jogava no Beira-Mar, depois acabou por ir para o Seixal e nós mudámo-nos para a Quinta do Conde e ficámos por lá.

Como foi a sua infância?
Foi uma infância normal, igual à de muitos jovens, em busca do meu sonho. Sempre fui ligado ao futebol, por causa do meu pai. Considero que a minha infância foi feliz, com maior ou menor dificuldade.

Cantor ou piloto da Força Aérea

Quando é que a bola entrou para a sua vida?
Sempre tive gosto pelo futebol, devido ao meu pai, e a partir dos 9 anos comecei a ir aos treinos dele, porque ele era treinador. Despertou aí o bichinho e daí em diante começou esta paixão.

Quem eram os seus ídolos?
Primeiro foi o George Weah e mais tarde o Didier Drogba. Mas os nossos principais ídolos são sempre os nossos pais, é quem temos como exemplo, e o meu pai tinha sido jogador e toda a gente falava muito dele.

Sempre foi avançado?
Sim, sempre joguei a ponta-de-lança. Houve um treinador na formação do Almada que tentou pôr-me como número 10, porque via em mim qualidades para jogar a 10, mas sempre joguei na frente.

Se não fosse futebolista, o que teria sido?
Não sei... Gosto de fazer tantas coisas. Gosto de cantar, gosto de aviões... Quando era mais novo tinha o sonho de ser piloto da Força Aérea. Talvez fosse isso, teria sido cantor ou piloto da Força Aérea.

O Edinho começou nos campeonatos distritais, no Almada, e atingiu a seleção nacional. É algo que lhe dá especial orgulho?
É gratificante todo o caminho que percorri, os sacrifícios que fiz e chegar onde cheguei. Hoje posso dizer que tenho uma carreira repleta de sucesso. Não foi fácil mas dá-me orgulho. Custou-me, saiu-me do pelo. O que costumo passar para os mais jovens é que nem tudo é fácil nesta vida, mas com querer e dedicação tudo é alcançável. Penso que o facto de eu ter começado nos distritais deu-me mais força para atingir o que queria, que era o topo.

Quando um futebolista está a jogar em pelados, nos distritais, acredita que pode chegar lá acima?
Sim, o sonho é sempre esse. Obviamente que na minha altura não havia as oportunidades que há agora e não havia tantos relvados, mas queríamos era uma bola para jogar, disputar os campeonatos e dar nas vistas.

Entretanto, em 2003, salta do Barreirense, na antiga II Divisão B, para o Sp. Braga. Como se deu esse salto?
O treinador José Rachão leva-me do Almada para o Barreirense e entretanto surge uma oportunidade para ir para Braga. Ainda estive no FC Porto, a treinar no Olival, mas o professor Jesualdo Ferreira, que tinha sido treinador do meu pai [no Torreense, em 1983-84] e me conhecia, pediu-me para que fosse para Braga.

Foi treinar no FC Porto à experiência?
Não. O meu empresário era o José Caldeira, irmão do Adelino Caldeira, e levou-me para treinar no FC Porto, e era para ficar lá, mas entretanto falaram e decidiu-se por Braga, porque ia jogar na equipa B do Sp. Braga e treinar com a equipa principal, uma vez que o Jesualdo me conhecia e me queria lá. Nesse sentido, optámos por ir para lá.

O Edinho já tinha 25 anos quando verdadeiramente deu nas vistas na I Liga, no Vitória de Setúbal, ajudando a equipa a ganhar a Taça da Liga e a qualificar-se para as competições europeias, embora tivesse saído em janeiro. Como foi possível ter feito aquela campanha com os problemas que o clube atravessava? Era uma comissão de gestão que dirigia o Vitória...
O treinador Carlos Carvalhal montou uma equipa muito sólida, com bons jogadores e um misto de experiência e juventude. Éramos uma equipa muito unida, queríamos muito fazer história, sabíamos das dificuldades que o clube atravessava mas não nos deixavam faltar nada, e nós estávamos mais focados em transformar aquela dificuldade em força. E aconteceu, através de um espírito muito forte do mister Carvalhal e de todo o plantel. Fizemos uma época espetacular.

Em janeiro de 2008 transfere-se para o AEK e estreia-se a marcar um penálti que dá a vitória sobre o rival Panathinaikos. Como recorda esses tempos na Grécia?
Com muita saudade. Era a primeira vez que estava a sair do país, embora sempre tivesse tido um espírito aventureiro e uma mente muito aberta. Tive a felicidade de marcar e esse jogo marcou a minha adaptação e o meu trajeto no AEK.

Como era a vida na Grécia?
Era uma vida pacata. Tive a felicidade de ter lá alguns portugueses e brasileiros. Formámos um grupo forte e estávamos sempre juntos. Alguns eu já conhecia de Portugal. O Geraldo e o Manú foram os que me deram a mão e me apresentaram ao Rivaldo, ao Moretto e ao Júlio César, conseguindo que a adaptação fosse mais facilitada. Foi uma experiência fantástica, à base de convívio com colegas gregos e de outras culturas. Estávamos juntos depois dos treinos, íamos juntos para os treinos e tudo isso foi determinante para a minha adaptação e a minha performance lá.

Os adeptos gregos são bastante fervorosos...
Lembro-me de um jogo com o Olympiacos, em que tive a possibilidade de fazer golo. Os adeptos chamavam-me nomes e eu festejei o golo mais efusivamente, em direção a eles e a mandá-los calar. Colegas meus disseram-me logo: "Tu não sabes o que fizeste, vivemos na mesma cidade, não podes fazer isto!" A verdade é que, passados uns tempos, estava a descansar em Glifada e alguns adeptos vieram ter comigo e disseram-me que foi uma falta de respeito, mas que percebiam porque eu não era de lá e não estava habituado àquele clima. Foi engraçado... mas é complicado [risos].

O nervosismo de estar perante Ronaldo

É durante a etapa na Grécia que se estreia pela seleção nacional. Como foi representar o país e logo ao lado de Cristiano Ronaldo?
É um momento único, o culminar de toda uma carreira. Estava com o melhor do mundo e jogadores que jogavam nas melhores equipas do mundo, como Pepe, Bruno Alves, Paulo Ferreira ou Ricardo Carvalho. É um motivo de orgulho, é um sentimento de que valeu a pena todo o sacrifício. Foi um momento fantástico e para contar aos meus filhos, embora o mais velho já tenha essa noção. É indescritível.

O Ronaldo desde muito jovem que foi jogar para o estrangeiro, mas praticamente em todas as convocatórias recebia novos companheiros de seleção, alguns mais desconhecidos. Alguma vez ele revelou desconhecimento em relação a algum jogador?
Não. E esse foi um dos fatores que me levaram a ser um fã confesso do Cristiano. O Cristiano foi das primeiras pessoas que me deram a mão. Deu-me as boas-vindas e pôs-me completamente à vontade, tal como o Bruno Alves, até porque é irmão do Geraldo. Quando assim é, torna-se tudo mais fácil. Ia com aquele nervosismo de estar perante ele e de outros, que são jogadores de classe mundial, mas o facto de ele se aproximar e de se mostrar mais um amigo para ajudar foi marcante.

Marcou três golos em seis jogos pela seleção nacional. Se a média é de meio golo por jogo, o Edinho não merecia ter tido mais continuidade nas convocatórias?
Sou suspeito para falar, mas tenho o sentimento de que poderia ter tido mais oportunidades. Na altura do Mundial do Brasil [2014] preparei-me bem e penso que poderia ter sido chamado. Fui em janeiro para a Turquia e em 15 jogos fiz 11 golos [pelo Kayseri Erciyesspor]. Estava muito bem.

No verão de 2009 vai do AEK para o Málaga e estreia-se na I liga espanhola. Foi o auge da carreira?
Sem dúvida. Ter a oportunidade de jogar na liga espanhola foi o auge.

O picante que valia cinco mil euros

Depois da Grécia e de Espanha, emigra pela terceira vez em janeiro de 2014 quando vai para a Turquia. Como foi a passagem por esse país não só do ponto de vista desportivo mas também a nível social e cultural?
Fui muito bem recebido, as pessoas já me conheciam. E o facto de estarem lá outros portugueses como Manuel Fernandes, Hugo Almeida e Simão foi importante, porque eles transmitiram a minha qualidade e o que poderia oferecer. O certo é que correu bem.

Sei que teve uma experiência engraçada com a comida...
É verdade! Eu gosto muito de picante e fomos a um restaurante muito típico lá onde diziam que me davam cinco mil euros se eu provasse uma colher do picante que eles tinham. Disse que era logo, que não havia problema, mas eu não sabia no que me ia meter. Quando meti aquilo à boca... Jesus! Acho que passei a noite inteira a beber água e mesmo assim fiquei à rasca. Nunca provei picante tão forte como aquele. Meu Deus do céu! O certo é que aquele desafio estava aberto há já algum tempo e nunca alguém o conseguiu engolir. Foi uma história engraçada.

Entre estas experiências, regressou a Portugal em 2012 e ganha a Taça de Portugal pela Académica. Dessa vez, ganha o troféu em campo. O que significou esse momento?
Ganhar a Taça pela Académica, frente a uma equipa grande [Sporting], não vou dizer que foi o culminar de um percurso porque houve outros momentos como a chegada à seleção e à liga espanhola, mas foi brutal. São sentimentos que qualquer jogador deseja ter.

Desde que regressou a Portugal no verão de 2016 que tem sido sempre o melhor marcador da sua equipa, primeiro no Vitória de Setúbal e depois no Feirense, mas acaba por assinar por um clube da II Liga. Foi fácil tomar a decisão de jogar numa divisão inferior?
Como é óbvio, tenho consciência do meu valor. Não foi uma decisão fácil, mas não era algo que me assustasse. Acho que a II Liga tem muita competitividade e o projeto do Cova da Piedade é bom. É um clube que se quer afirmar na II Liga, que quer crescer e que confiou em mim. Obviamente que contava que houvesse melhores propostas da I Liga, porque tenho sido o melhor marcador das equipas por onde tenho passado e as coisas têm-me corrido bem, mas notei uma preocupação enorme com a idade e com o que eu poderia dar ou não. Se eu não tivesse números, até era capaz de compreender, mas não. Tenho feito golos. Fiquei um bocado desiludido.

Uma questão de preconceito e não desempenho...
Sim, senti por parte de clubes de I Liga que havia uma espera para depois eu aceitar os termos que eles queriam, mas o meu intuito é sempre ir para onde me querem e onde realmente confiam no meu trabalho e no meu valor. E foi o que aconteceu: o Cova da Piedade chamou-me, reuni-me com as pessoas e mostraram enorme interesse em mim.

Recentemente chegou a dizer que ia assumir o objetivo de ser o melhor marcador da I Liga. Imagino que a meta se mantenha para a II Liga, até porque nunca foi o melhor marcador de um campeonato...
Exatamente. É um objetivo que tenho e vou dar tudo para atingi-lo. Acho que posso conseguir e prova disso é o Pires, que tem 38 anos e foi o melhor marcador da II Liga na época passada e é o melhor marcador de sempre da II Liga. Não é uma questão de idade, mas sim de trabalho e de dedicação. Obviamente que é uma realidade diferente e um estilo de jogo diferente, mas vou adaptar-me rapidamente, quero cumprir esse objetivo. Ser melhor marcador do campeonato é algo que todos os avançados querem.

"Tive oportunidade de ir para o Sporting e para o Benfica"

Nunca representou um dos chamados três grandes. É uma mágoa?
Não, mágoa não tenho. É como disse anteriormente: quando as pessoas querem, as coisas realizam-se. Tive oportunidade de ir para o Sporting e para o Benfica, mas na altura surgiram propostas melhores para fora e fui. A última foi do Sporting, mas não soube bem o que se passou. Não guardo mágoa alguma, tenho consciência de que tenho feito uma carreira linda, a pulso, sem empurrões, e isso dá-me orgulho.

Quando é que esteve perto do Sporting e do Benfica?
Para o Sporting foi quando terminei contrato com o Málaga, depois de ter estado emprestado à Académica. O Sá Pinto queria-me, mas depois ele saiu e aquilo não andou para a frente. Para o Benfica foi na altura do [José Antonio] Camacho, mas ele acabou por sair e a transferência não se realizou.

Os adeptos do Sporting não gostam lá muito de si. Porquê?
Alguns deles enviam-me mensagens nas redes sociais, a julgar que eu sou benfiquista, devido ao meu número [36, o número de títulos nacionais do Benfica até maio deste ano] e o facto de nos últimos anos ter feito golos ao Sporting talvez tenha criado esse "ódio" da parte deles. Mas é algo que me passa ao lado. Cada vez que entro em campo é para defender o clube que represento e como é óbvio tenho de tentar marcar, seja Benfica, Sporting ou FC Porto. Tenho de fazer o meu melhor e defender a instituição e as cores que represento, mas infelizmente há pessoas que não compreendem isso.

Já teve alguma lesão grave?
No início da carreira fui operado ao menisco. Mas desde então que só tenho tido pequenas entorses, nada de mais grave.

Teve algum treinador que considere mais marcante?
Pedro Emanuel. Foi sem dúvida o treinador com quem tive mais rendimento. O Sérgio [Conceição] também, mas eu vinha de uma fase em que não estava a jogar no Málaga e ele recuperou-me e deu-me força para voltar a ser o que era.

Já sabe o que vai fazer quando pendurar as botas?
Tenho pensado nisso. Não sei se vou seguir a carreira de treinador ou a de agente, é algo em que tenho pensado mas que ainda não decidi. Depende de como estiver.

Arrepende-se de alguma decisão que tenha tomado ao longo da carreira?
Não. Não sou pessoa de me arrepender das decisões que tomo. Às vezes fico desiludido com algumas decisões, mas não posso dizer que me arrependa porque as minhas decisões são sempre tomadas com calma, ponderação e vontade. Apesar de a última época não ter corrido bem no Feirense, conheci gente espetacular no clube. No final tive alguns atritos com a claque, mas é o normal, porque alguns vão para lá só para a confusão e nem quando a equipa ganha ficam contentes. Ganhei amizades para a vida, embora também tenha saído magoado com algumas pessoas.

"Racismo? Não me posso queixar"

Alguma vez se sentiu vítima de racismo?
Não... Racismo, racismo não. Há é aqueles comentários de alguns adeptos, mas nunca levei para esse lado. Sinto que sou um jogador acarinhado pela maioria dos adeptos. Não me posso queixar nesse capítulo.

Mas é algo que existe no futebol...
Existir existe, mas não em Portugal, onde existe respeito. Mas sei que existe na Rússia e em Itália. Em Espanha não senti, embora para os espanhóis seja impensável que os portugueses sejam melhores, mas mais devido ao Cristiano [Ronaldo], que foi bater todos os recordes lá e criou-nos uma pressão acrescida. Na Turquia também não senti - eles adoram os negros - e na Grécia não me lembro de nenhum incidente.

Acha que o futebol está preparado para receber futebolistas que se assumam como homossexuais?
É uma situação cultural. Cada um toma as decisões que acha melhor para si, nós temos é de respeitar e saber viver em conformidade com todas as realidades. Acho que o futebol e o desporto não estão preparados. Vai haver sempre pessoas a julgar, mas é preciso começar por algum lado. É preciso que as pessoas em questão tenham coragem de se assumir. Se eles são felizes assim, têm de se assumir e não têm de se esquecer, mas não é uma situação fácil.

Tem um filho que também joga futebol e é ponta-de-lança. Pode seguir as pisadas do pai?
Tem tudo para seguir. Gosta do que faz, é dedicado e sabe que tem o apoio do pai. Não quero impingir-lhe, mas noto que ele tem uma vontade muito grande em aprender e em querer ser feliz. É novo, vamos ver no que vai dar. Pode até depois não querer ou não dar, mas acho que tem tudo para seguir a carreira de futebolista como o pai.

O Edinho já se assumiu como adepto do Sp. Braga. Acredita que o clube vai conquistar o título nos próximos anos?
Espero bem que sim, porque o Sp. Braga neste momento é um clube grande, com uma estrutura forte. O título é a única coisa que falta ao Sp. Braga. É óbvio que Benfica e FC Porto têm um poderio diferente, o Sporting já nem digo tanto... o Sporting e o Sp. Braga estão ao mesmo nível. O Sporting não deixa de ser um clube grande e histórico, mas penso que o Sp. Braga nos últimos anos tem galgado terreno na consolidação como clube grande, e com mérito, basta ver as infraestruturas e olhar para as camadas jovens. Está para breve, espero eu, porque é o meu clube do coração, um clube que adoro. Tenho outros clubes que também adoro, como o Vitória de Setúbal, mas é diferente, porque tem que ver com o meu pai ter jogado lá e ter sido um clube importante para a minha carreira. Desde que fui para Braga que adoro o clube, mas também gosto da Académica, onde passei anos fantásticos, e do Paços de Ferreira e do Gil Vicente.

"Compreendo o desespero de quem tem família"

Como lida com o clima de suspeição no futebol português? É tudo para tentar condicionar quem toma decisões ou acontecem mesmo coisas estranhas?
Acredito que muitas das vezes é para condicionar. Em Setúbal já sofremos com isso. Quando ganhámos ao Sporting para a Taça da Liga havia gente a dizer que estávamos comprados e que havia isto e aquilo. É verdade que têm existido casos como o Jogo Duplo, mas entendo as pessoas em questão, porque são de clubes pequenos, estão sem receber e aparecem pessoas a aliciá-los e a oferecer-lhes mais do que eles ganham num ano. Consigo compreender o desespero deles, não vou julgá-los. Na situação deles não sei como reagiria, porque estamos a falar de pessoas com família e que estão há vários meses sem receber. Isso parte um bocado dos clubes. Se houvesse uma repartição mais equilibrada dos valores, talvez isso não acontecesse. A discrepância dos valores é tão elevada que causa um desnível enorme nos orçamentos das equipas e também há equipas que têm orçamentos absurdos, que não podem pagar. Creio que a culpa não é só dos jogadores que se metem a jeito mas também dos clubes.

Falou na questão da repartição de valores, creio que em alusão à distribuição dos direitos televisivos. Que efeitos é que a centralização dos direitos televisivos poderia ter no futebol português?
Sem dúvida de que mais equipas a lutar pelo título, como V. Guimarães, Rio Ave, Boavista ou Sp. Braga. Uma equipa como o Rio Ave, se recebesse 30 ou 40 milhões de euros de direitos televisivos, teria mais poder para contratar melhor... seria completamente diferente. Em Inglaterra descem equipas com orçamentos de mais de cem milhões de euros e com capacidade para ganhar às melhores equipas. Isso é que é bonito, uma disputa em igualdade de condições. Com orçamentos maiores, as equipas têm outro tipo de estrutura, podem preparar-se melhor em termos de formação e se calhar até teríamos mais jogadores portugueses, porque isso iria aliciar os jovens. E não seria só Benfica, FC Porto e Sporting, haveria mais equipas com formações de qualidade. É o que acontece na Turquia, onde joguei numa equipa da II Liga com um centro de estágios que custou milhões de euros e que tinha todas as condições e um orçamento de 20 milhões de euros. A diferença é brutal, mas aos grandes não interessa a centralização dos direitos televisivos. Dou-lhe o exemplo do Vitória de Setúbal: apareceu um jovem a despontar, o Cádiz, e o Benfica não o aproveita, empresta-o. Isto é retirar peso de equipas que precisem desses jogadores. O Vitória atravessa um momento em que tem de fazer dinheiro, mas imaginem o Vitória com um orçamento de 30 milhões de euros: nem por dez milhões vendia o Cádiz. Isso iria valorizar o nosso futebol, os nossos jogadores, e iria ajudar os clubes. É algo que tem de ser mudado, mas não é fácil porque não interessa a quem está lá em cima e tem poder.

O Edinho já todos conhecemos dos relvados. E quem é o Arnaldo Edi Lopes da Silva?
É uma pessoa pacata, que gosta de estar em casa com a família e rodeado de amigos. É amigo do seu amigo e gosta de convívio, de cantar, de palhaçada e de ajudar o próximo.

O que mais o preocupa no mundo?
O pensar no próprio umbigo. Vivemos numa sociedade em que quase tudo é possível para passar à frente dos outros. As pessoas não olham a meios para atingir alguns fins e acho que a vida é muito mais do que isso: é apoiar, ajudar e fazer o bem. Se todos fizermos um pouquinho, já faz a diferença. Preocupo-me em viver a vida dessa maneira, porque a ajudar o próximo estarei a ajudar-me a mim próprio também.

Se pudesse escolher uma personalidade para jantar, quem escolheria?
Marcelo Rebelo de Sousa. É bracarense como eu e é uma pessoa por quem tenho muita admiração. Gosto de o ouvir falar e de ver a alegria e a espontaneidade dele. Se pudesse, era a pessoa que eu convidava.

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