Kolisi, o primeiro capitão negro da África Sul e um discurso de união

A áfrica do Sul sagrou-se campeão do mundo e pela primeira vez com um jogador negro como capitão de equipa. "Temos tantos problemas no nosso país... mas juntos conseguimos tudo", disse no final do jogo.

Siya Kolisi, de 28 anos, tornou-se neste sábado no primeiro capitão de equipa de raça negra a sagrar-se campeão mundial pela África do Sul, depois da vitória dos springboks sobre a Inglaterra por 32-12 na final realizada no Japão.

O capitão Siya Kolisi nasceu na cidade de Zwide, a cerca de 700 quilómetros da Cidade do Cabo. O flanker foi criado pela avó, que era empregada de limpeza, e devido às dificuldades financeiras treinava râguebi de boxers, pois não tinha condições para adquirir um equipamento.

Kolisi treinava-se em campos pelados de terra, onde foi descoberto por um olheiro de uma escola, que lhe arranjou uma bolsa de estudos. O jogador foi evoluindo e chegou à seleção da África do Sul, onde na final com a Inglaterra disputou o seu 50.º jogo pelos springboks e o 20.º como capitão.

"Ultrapassamos muito desafios, mas as pessoas na África do Sul estavam connosco e estamos muito agradecidos por isso. Temos tantos problemas no nosso país... Esta equipa tem diferentes passados, raças diferentes, mas chegámos cá com apenas um objetivo e espero que tenhamos demonstrado à África do Sul que quando estamos juntos conseguimos tudo", referiu no final da partida.

"Desde que nasci que nunca vi a África do Sul assim. No último jogo o nosso treinador disse-nos 'já não estamos a jogar para nós, estamos a jogar para quem está lá em casa'. Agradecemos o apoio de todos, nos bares, nas quintas, aos sem-abrigo que nos puderam acompanhar nos ecrãs gigantes e às pessoas nas áreas rurais. Nós amamos a África do Sul e podemos fazer o que quisermos se estivermos juntos como um só", acrescentou.

O râguebi foi durante muitos anos um dos principais símbolos do racismo na África do Sul, mas acabou por ter um papel importante no fim do regime de segregação racial em vigor no país durante quase meio século (de 1948 a 1994). Até ao final do apartheid, apenas os jogadores brancos podiam representar a seleção. Um cenário que se alterou a partir de 1995, coincidindo com a chegada ao poder do Presidente Nelson Mandela, precisamente no mesmo ano que os springboks se sagraram campeões do mundo pela primeira vez.

Mesmo com o fim do apartheid, porém, as oportunidades aos jogadores negros na seleção sul-africana eram escassas. Em 2007, por exemplo, no segundo título Mundial dos springboks, a seleção tinha apenas um jogador negro, Chester Williams, que morreu há um mês. Neste Mundial do Japão, seis negros representaram o país, incluindo o capitão Kolisi, que teve a honra de levantar o troféu de campeão do mundo, naquele que foi o terceiro título mundial dos springboks.

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