Porque a seleção inglesa não acompanha o sucesso dos clubes?

Pela primeira vez na história, quatro clubes ingleses estão nas finais da Champions e da Liga Europa, um sinal claro do poderio das equipas britânicas que contrasta com o insucesso da seleção, cujo único título foi o Mundial de 1966.

Pela primeira vez na história das competições europeias, os quatro finalistas das duas competições são todos do mesmo país, neste caso de Inglaterra. Mas curiosamente sem treinadores desde país. Liverpool e Tottenham vão jogar a final da Liga dos Campeões e Chelsea e Arsenal medem forças no jogo decisivo da Liga Europa. Uma demonstração de força do futebol inglês que confirma ao mesmo tempo a quebra do domínio espanhol que nas últimas dez finais (cinco da Liga Europa e cinco da Champions) apenas não venceu uma, em 2016/17 quando o Manchester United de José Mourinho conquistou a Liga Europa diante do Ajax.

As boas campanhas dos clubes ingleses nas provas europeias, contudo, não têm tido expressão na seleção inglesa nas grandes competições internacionais. Excetuando o último Mundial da Rússia, no qual a Inglaterra atingiu as meias-finais (foi eliminada pela campeã Croácia), a seleção inglesa tem sido quase sempre uma desilusão. Vejamos os exemplos mais recentes: no Mundial 2010 caíram com a Alemanha nos oitavos-de-final; no Euro2012 não foram além dos quartos, no Mundial 2014 não passaram sequer da fase de grupos e no Euro2016 só atingiram os oitavos de final da prova. Ou seja, depois de se ter sagrado campeã do Mundo, em 1966, o único título que ostenta, a Inglaterra pouco ou nada fez de significativo. Nem sequer se apurou, por exemplo, para o Mundial1994.

Há vários fatores que podem servir como justificação para esta falta de sucesso da seleção em comparação com o êxito dos clubes. Logo à partida a quantidade de jogadores estrangeiros de qualidade que alinham nas principais equipas inglesas. Vejamos o exemplo do Liverpool esta temporada: Allison (Brasil), Van Dijk (Holanda), Naby Keita (Guiné), Firmino (Brasil), Sadio Mané (Senegal), Salah (Egito) e Xherdan Shaqiri (Suíça). Nenhum é de nacionalidade inglesa.

Já o Tottenham, o outro finalista da Champions, tem como principal figura da equipa um inglês, o avançado Harry Kane. Mas depois a maior parte das estrelas são jogadores estrangeiros, casos de Lucas Moura (o brasileiro que foi o herói da meia-final com o Ajax, ao marcar os três golos), o sul-coreano Son Heung-min, o belga Vertonghen, o guarda-redes francês Lloris, o dinamarquês Eriksen e o médio francês Moussa Sissoko.

O poder económico dos clubes ingleses não tem neste momento paralelo na Europa, muito à custa dos acordos de transmissão televisivos milionários, que permitem até aos clubes do meio tabela investimentos consideráveis em jogadores vindos do exterior. Ou seja, os estrangeiros de qualidade (e na Liga inglesa só podem atuar futebolistas fora do país mediante certos requisitos, como por exemplo terem um certo número de internacionalizações) roubam de certa forma espaço e protagonismo aos ingleses.

Há uns anos, aliás, ficaram célebres as críticas de Rio Ferdinand, internacional inglês que na altura jogava no Manchester United. "Ter tão poucos jogadores ingleses na Premier League fragiliza a seleção, claro que sim. Vejam o recente jogo entre o Manchester City e o Newcastle. Havia poucos jogadores ingleses em campo - três entre 22. É uma desgraça. Se olharmos para a situação e perguntarmos que deve estipular-se um mínimo de jogadores de Inglaterra por equipa, penso que isso deve acontecer", atirou.

Isto não explica tudo, obviamente, até porque a seleção inglesa tem tido ao longo dos anos grandes nomes do futebol mundial, casos de Gary Lineker, Kevin Keegan, Glenn Hoddle, Michael Owen, Steven Gerrard, Frank Lampard, Rio Ferdinand David Beckham, Paul Scholes, Alan Shearer, John Terry, Wayne Rooney, só para citar alguns. E atualmente na equipa liderada por Gareth Southgate estão Marcus Rashford, Dele Alli, Harry Kane ou Raheem Sterling. Mas se perguntarmos a um jovem inglês para eleger os seus cinco ídolos do futebol atual, muito provavelmente não estará nenhum futebolista inglês.

Outra das razões apontadas para o insucesso da seleção inglesa tem sido a aposta em treinadores medianos, normalmente antigos jogadores de prestígio, mas sem grandes resultados desportivos e provas dadas como técnicos. Embora neste século tenham existido algumas exceções, casos de Sven-Goran Erikkson e Fabio Capello. Depois do italiano, que saiu em 2012, a Inglaterra foi treinada por Stuart Pearce, Roy Hodgson, Sam Allardyce e desde outubro de 2016 por Gareth Southgate que, diga-se, tem apresentado bons resultados relativamente aos seus antecessores, ele que transitou dos sub-21. Além das meias-finais no Mundial2018, a equipa está apurada para a final four da Liga das Nações, que se realiza em junho, em Portugal.

Há também uma razão inerente à própria cultura inglesa, à cultura dos adeptos, o chamado 'club over country' (o clube acima do país). É certo que este tipo de 'fanatismo' existe em quase todos os países, mas na Inglaterra está mais enraizado. O pouco sucesso da seleção inglesa nos grandes torneios também serve de explicação para este afastamento.

Em 2014, depois de vários fracassos, a federação inglesa de futebol (FA), fez uma profunda reestruturação. A análise feita na altura mostrava que a percentagem de jogadores no principal escalão inglês com possibilidades de representar a seleção do país era de 69%. Vinte anos depois, na época de 2012-13, essa percentagem baixou para 35%. E começaram a surgir então uma série de reformas, como aumentar o número de jogadores formados no país em cada equipa, criação de campeonatos de sub-23 e outro tipo de medidas do género. O objetivo proposto na altura era que Inglaterra surgisse no Mundial do Qatar (2020) como uma das favoritas.

Fruto ou não deste trabalho, a Inglaterra sagrou-se no verão de 2017 campeã da Europa de sub-19, batendo Portugal na final. No mesmo ano, a seleção britânica conquistou o Mundial de sub-20, vencendo a Venezuela na final por 1-0. E perdeu o título europeu de sub-17 nos penáltis, contra a Espanha. Também a nível de clubes, nas camadas de formação, o Chelsea tem dado cartas nos últimos anos: venceu duas das quatro finais da UEFA Youth League, a Liga dos Campeões de sub-19. Um claro sinal de de que as reformas da federação inglesa começaram a dar frutos.

Veremos então se daqui para a frente, a começar já no Mundial do Qatar, a seleção dos three lions orientada por Southgate pode voltar a ser uma potência e estar à altura do sucesso dos clubes ingleses.

Finais Taça/Liga dos Campeões com clubes ingleses

2018/19 Tottenham-Liverpool (?)
2017/18 Real Madrid-Liverpool 3-1
2011/12 B. Munique-Chelsea 1-1 (4-5 gp)
2010/11 Barcelona-Man. United 3-1
2008/09 Barcelona-Ma. United 2-0
2007/08 Man. United-Chelsea 1-1 (65 gp)
2006/07 Liverpool-AC Milan 1-2
2005/06 Barcelona-Arsenal 2-1
2004/05 AC Milan-Liverpool 3-3 (5-6 gp)
1998/99 Man. United-B. Munique 2-1
1984/85 Juventus-Liverpool 1-0
1983/84 Liverpool-Roma 1-1 (5-3 gp)
1981/82 Aston Villa-B. Munique 1-0
1980/81 Liverpool-Real Madrid 1-0
1979/80 Nottingham Forest-Hamburgo 1-0
1978/79 Nottingham Forest-Malmoe 1-0
1977/78 Liverpool-Brugge 1-0
1976/77 Liverpool-B. M'Gladbach 3-1
1974/75 B. Munique-Leeds 2-0
1967/68 Man. United-Benfica 4-1 (ap)

Finais Taça UEFA/Liga Europa com clubes ingleses

2018/19 Chelsea-Arsenal (?)
2016/17 Man. United-Ajax 2-0
2015/16 Sevilha-Liverpool 3-1
2012/13 Chelsea-Benfica 2-1
2009/10 At. Madrid-Fulham 2-1 (ap)
2005/06 Sevilha-Middlesbrough 4-0
2000/01 Liverpool-Alavés 5-4 (ap)
1999/00 Galatsaray-Arsenal 0-0/4-1 (gp)
183/84 Tottenham-Anderlecht 1-1/1-1/4-3 (gp)
1980/81 Ipswich-AZ Alkmaar 3-0/2-4
1975/76 Liverpool-Club Brugge 3-2/1-1
1973/74 Feyenoord-Tottenham 2-2/2-0
1972/73 Liverpool-B. G'ladbach 3-0/0-2
1971/72 Tottenham-Wolverhampton 2-1/1-1

Seleção inglesa em fases finais de grandes provas desde 1966

Mundial 1966 - Campeão
Europeu 1968 - 3.º lugar
Mundial 1970 - Quartos-de-final
Europeu 1972 - Ausente da fase final
Mundial 1974 - Ausente
Europeu 1976 - Ausente da fase final
Mundial 1978 - Ausente
Europeu 1980 - Fase de grupos
Mundial 1982 - 2.ª fase de grupos
Europeu 1984 - Ausente
Mundial 1986 - Quartos-de-final
Europeu 1988 - Fase de grupos
Mundial 1990 - 4.º lugar
Europeu 1992 - Fase de grupos
Mundial 1994 - Ausente
Europeu 1996 - Meias-finais
Mundial 1998 - Oitavos-de-final
Euro 2000 - Fase de grupos
Mundial 2002 - Quartos-de-final
Euro 2004 - Quartos-de-final
Mundial 2006 - Quartos de final
Euro 2008 - Ausente
Mundial 2010 - Oitavos-de-final
Euro 2012 - Quartos-de-final
Mundial 2014 - Fase de grupos
Euro 2016 - Oitavos-de-final
Mundial 2018 - 4.º lugar

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