"É Serena quem deve um pedido de desculpas"

Antigo árbitro australiano, que esteve envolvido num célebre castigo a John McEnroe, defende o juiz português Carlos Ramos no caso do incidente com Serena Williams

Em 1987, o US Open também viveu uma acesa polémica de arbitragem como aquela que no último sábado envolveu o árbitro português Carlos Ramos e a tenista norte-americana Serena Williams.

Aquela era uma época marcada pelo comportamento irascível do enfantterrible John McEnroe, cujos ataques verbais a tudo o que mexia faziam dividir os adeptos, entre os fãs indefetíveis do rebelde esquerdino e os conservadores que não lhe suportavam a insolência.

Na terceira ronda desse US Open, em 1987, John McEnroe defrontava Slobodan Zivojinovic e resolveu disparar contra os juízes de linha, um repórter da CBS e, por fim, contra o árbitro australiano Richard Ings, que lhe aplicou um aviso inicial, retirando-lhe depois um ponto e até um jogo.

À beira da desqualificação, McEnroe acalmou, mas isso não o impediu de ser multado em 7500 dólares (maior multa na altura) e suspenso durante dois meses. "Não posso crer num ataque mais vil e desonesto a um árbitro do que este", justificou então o supervisor chefe da Federação Internacional de Ténis (ITF).

Agora, 31 anos depois, Richard Ings, o árbitro que castigou McEnroe, saiu em defesa do juiz português Carlos Ramos, pelo incidente na final feminina do US Open a envolver Serena Williams, que acusou Ramos de sexismo e o chamou de mentiroso e ladrão, depois de o árbitro a ter sancionado por "coaching" - receber instruções por parte do treinador.

Sexismo vs. código de conduta

"Mesmo quatro dezenas de anos de experiência na arbitragem não seriam suficientes para preparar alguém para aquilo que viveu Carlos Ramos no sábado", escreveu Ings num artigo publicado no jornal Sidney Morning Herald. "No nosso jargão, chamamos este tipo de partidas como os jogos de "bem-vindo ao emprego". Posso imaginar aquilo que ele sentiu, porque eu também infligi uma penalização a John McEnroe, num court central cheio, e que lhe custou um set", lembrou o antigo juiz.

Para Ings, "as sanções aplicadas por Ramos forma inteiramente justificadas". E acrescenta: "Williams é a melhor de todos os tempos. Não poderei nunca imaginar o sexismo e racismo que ela teve de enfrentar e superar ao longo da vida e da carreira. É um ícone e uma verdadeira inspiração. Mas não podemos deixar que o seu palmarés, por muito brilhante que seja, faça esquecer que, neste caso, Williams errou. Estas decisões de arbitragem não têm nada a ver com sexismo ou racismo. Carlos apenas detetou claras quebras do código de conduta e teve a coragem de as punir, sem receio ou favores".

Por isso, finaliza, "quem deve um pedido de desculpas é Williams a Ramos, não o contrário".

Serena foi multada em 14700 euros, nem um por cento dos 1,6 milhões de euros em prémios que recebeu por ter sido finalista do torneio, ganho pela japonesa Naomi Osaka. Carlos Ramos, esse, ganhou cerca de 550 euros por arbitrar a final que o deixou sob fogo cruzado de Serena e da sua legião de apoiantes.

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