"Há 40 anos já via ali um rapazinho que podia dar um bom treinador"

Ferreirinha treinou Jesus no Riopele na época 1977-78 e ainda hoje o agora rei do Brasil copia exercícios daquela altura. Com 83 anos, o ex-técnico recorda como já lhe antecipava um futuro nos bancos.

Naquela época de 1977-78, o Riopele tinha acabado de subir à I Divisão e construiu a equipa à custa de futebolistas cedidos pelos três grandes. Foi assim que Jorge Jesus foi parar ao clube do concelho de Vila Nova de Famalicão, propriedade da famosa empresa de têxteis que entretanto foi extinta em 1985. Depois do acordo com o Sporting para o empréstimo de uma temporada (na anterior tinha estado cedido ao Belenenses), uma reunião em Lisboa no Hotel Mundial serviu para convencer Jesus a mudar-se para o norte do país, na época de estreia (e única) do clube no escalão maior do futebol português.

O treinador do Riopele na altura era o mestre Ferreirinha, hoje com 83 anos e já reformado. Mesmo à distância de quatro décadas, Fernando Ferreira, o seu verdadeiro nome, lembra-se muito bem do jovem aplicado que lhe foi parar às mãos naquela temporada de 1977-78. Um ano em que apesar do bom futebol mostrado no escalão maior do futebol português o Riopele não conseguiu assegurar a manutenção - foi penúltimo classificado e voltou ao segundo escalão (somou seis vitórias, nove empates e 15 derrotas, numa temporada em que o FC Porto de José Maria Pedroto se sagrou campeão nacional.

"Não digo isto por causa do contexto atual nem do estado de graça que ele agora está a viver com os títulos conquistados no Flamengo. Mas já naquele tempo, tinha o Jesus uns vinte e tal anos, já via ali um rapazinho que podia dar bom treinador", conta Ferreirinha ao DN, explicando melhor esta sua premonição com 40 anos.

"Nós treinadores percebemos essas coisas na convivência com os jogadores. O Jesus estava sempre muito atento a todos os pormenores, era um dos mais interessados nas minhas palestras. Sabe, às vezes há futebolistas que nós topamos logo que estão ali meio distraídos, que as coisas entram por um ouvido e saem por outro. Mas com o Jesus era diferente, era interessado, estava sempre focado", recorda o treinador.

Havia também outros indicadores. Não sendo um líder dentro do campo, "ele mesmo sendo muito novo já dava indicações aos colegas, mas sempre com o maior respeito, nunca o vi zangar-se com ninguém". E este foi também um dos motivos que levaram Ferreirinha a aperceber-se de que aquele rapaz com 23 anos tinha características diferentes: "Ele procurava fazer dentro do campo aquilo que eu lhe pedia. Mas às vezes improvisava. Aparecia noutras posições no campo, porque às vezes as estratégias que montamos não se adequam ao jogo, e eu lembro-me de que às vezes dizia "puxa, o Jesus hoje está de todo"."

Cumprir o sonho da Champions

Ferreirinha lembra-se perfeitamente do "jovem dedicado que só vivia para o futebol": "Ele vivia na Pousada de Saramagos, e ali praticamente não havia nada. A vida dele era treino/casa, casa/treino. Depois lia muito. Não só os jornais desportivos, mas também livros sobre futebol. Agora, a esta distância, pode parecer que o digo apenas porque ele se tornou o que é hoje, mas a verdade é que há 40 anos pensava que devido à sua dedicação podia vir a dar um bom treinador."

O antigo treinador do Riopele garante que a sua admiração por Jorge Jesus já vem de longe. Mas admite que seguiu as últimas semanas de glória com uma enorme atenção. "Acompanhei tudo pela televisão. Foi um feito maravilhoso e ele merecia por tudo aquilo que já fez. É um grande treinador, dedicado. Sempre foi assim. Tem uma grande ambição e quer sempre mais. Desde os tempos de jogador. Sabe, nós somos amigos, e vê-lo em menos de seis meses ganhar a Taça Libertadores e sagrar-se campeão brasileiro encheu-me de orgulho. É uma maravilha ver aquele Flamengo jogar. Ele hoje está no lote dos treinadores mais cotados do mundo. Não é qualquer um que faz o que o Jesus fez no Brasil. E isso pode e deve ser valorizado por todos, sobretudo pelos portugueses, e ele aqui em Portugal nem sempre viu o seu valor devidamente reconhecido. Fez um grande trabalho no Benfica e no Sporting, se não fosse aquele triste episódio da academia, também ia ter sucesso."

Para Ferreirinha, Jorge Jesus não vai ficar por aqui, pois acredita que o seu ex-jogador ainda vai a tempo de poder assumir um grande clube europeu e poder lutar pelo seu sonho, apesar de já estar com 65 anos. "Acredito que o Jorge Jesus ainda vai conseguir chegar a um grande da Europa para tentar perseguir o seu grande sonho de toda a vida, que é ganhar a Liga dos Campeões. Acho que o trabalho extraordinário que ele fez no Flamengo não passou despercebido a ninguém. No Brasil quiseram retirar-lhe algum mérito, dizendo que os êxitos se deviam à grande equipa do Flamengo. Mas o que eu vi foi muito trabalho de um grande treinador", diz, concordando que a alcunha de mestre da tática assenta muito bem a Jorge Jesus: "Não é só bom treinador durante a semana, nos treinos. Sabe ler o jogo como ninguém, é capaz de antecipar cenários e tomar decisões que depois mudam o sentido do jogo. E tem olho para as substituições."

O ténis-balão que Jesus copiou

Há dois anos e meio, Ferreirinha e Jorge Jesus reencontraram-se durante um fórum de treinadores, no qual o antigo técnico do Riopele foi homenageado e recebeu uma distinção das mãos do próprio Jesus. Na ocasião, o agora rei do Brasil confessou que ainda recorria a um exercício que aprendeu precisamente com Ferreirinha: "Tinha um exercício que fazíamos todos os dias: ténis-balão. Era um jogo com balizas pequenas em que éramos obrigados a fazer 5x5. Atualmente, sou treinador e analisando aquele exercício... era bom para dar qualidade à equipa, mas não sei se o senhor Ferreirinha tinha noção do rendimento e da objetividade. Ainda faço o ténis-balão, pois obriga os atletas a pensar rapidamente."

Ferreirinha recorda-se bem desse e de outros exercícios que marcavam os treinos do Riopele. "O Vital, na altura nosso jogador, acabou por ir para o FC Porto. E disse-me que lá eles não sabiam o que isso era e que passaram a fazer o mesmo exercício", confessa o antigo técnico, que recorda que naqueles tempos, mesmo depois do treino acabar, os jogadores ficavam no pelado a fazer horas extra: "Às vezes, ao sábado, na véspera dos jogos, o entusiasmo era tanto que eu até pedia calma, não fosse algum deles lesionar-se e ter de ficar de fora."

Ferreirinha está reformado. O último clube que treinou foi o Tirsense, na época 2001-02. Hoje vive em Santo Tirso e continua a seguir com a toda a atenção o futebol. "Hoje é completamente diferente. Não quer dizer que naquela altura não se jogasse bem, só que não havia as condições que há hoje. Nós, por exemplo, no Riopele tínhamos um campo pelado, mas era um pelado maravilhoso. Parecia um relvado dos bons, sempre bem tratado e arranjado. E eles adaptavam-se bem. Foi um grande orgulho treinar aquela equipa, onde além do Jesus havia o Padrão, o Piruta, o Fonseca e o Garcês. Foi pena não termos conseguido a manutenção da I Divisão. Era um clube que não pagava muito, mas pagavam certinho. E tínhamos jogadores que eram empregados da fábrica, que conciliavam os treinos com o futebol. Enfim, eram outros tempos, dos quais guardo grande saudade."

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