Farense. O gigante algarvio voltou a acordar com a I Liga na mira

Os leões de Faro mudaram de paradigma e a aposta de André Geraldes no treinador Sérgio Vieira está a dar os seus frutos: a liderança da II Liga, com cinco pontos de avanço sobre o segundo classificado.

Jogadores, técnicos e dirigentes não embandeiram em arco e tentam, até, travar a euforia dos adeptos. Mas a liderança do Farense na II Liga, com 27 pontos em 11 jogos e uma vantagem de cinco pontos sobre o segundo classificado, leva muito boa gente a sonhar com o regresso ao convívio dos grandes. Será, por assim dizer, mais um "renascimento" do histórico clube de Faro, que, aos 109 anos, quer reviver os tempos áureos da década de 1990, na qual, com Paco Fortes ao comando, chegou a uma final da Taça de Portugal, a um 5.º lugar no campeonato e, por tabela, marcou presença na então Taça UEFA.

O percalço na Taça de Portugal, com a equipa ser eliminada em casa pelo Sertanense, faz o sonho da subida de divisão ganhar ainda mais peso, agora que o clube é treinado por Sérgio Vieira e tem como diretor para o futebol André Geraldes. E este sábado de manhã o Farense tem mais um teste às suas capacidades: recebe o Desportivo de Chaves no São Luís às 11.00.

"Espero que tudo isso seja de novo possível. A força que tínhamos no passado era incrível e as equipas que jogavam no São Luís sabiam o que os esperava. Desejo sinceramente que esses tempos voltem, porque Faro é uma cidade do futebol e todas os farenses merecem ter o clube na I Liga", comenta ao DN o catalão Paco Fortes, hoje e sempre uma referência incontornável do emblema algarvio. "Felizmente, mudou muita coisa. Tudo é mais profissionalizado e a equipa mostra que tem personalidade e está muito bem trabalhada", acrescenta Paco, que passou cerca de 20 anos ao serviço do Farense, primeiro como jogador e depois como treinador. Aos 64 anos continua a acompanhar de perto tudo o que se passa em Faro e é com a voz embargada que, desde Barcelona, termina o depoimento: "Força, Farense!".

O que mudou então nos leões algarvios, que durante uma década estiveram ausentes das competições profissionais? Aliás, essa imensa travessia do deserto teve como ponto mais nefasto o recomeço na segunda divisão distrital, após uma desclassificação com faltas de comparência à mistura. A força farense, capaz de mover montanhas, revelou-se, contudo, insuficiente para dar o salto pretendido. Agora, foi obrigatório identificar as carências das estruturas, nomeadamente no futebol, reorganizar as finanças, pagar as dívidas e apostar também no scouting, no marketing, na área comercial, no recrutamento e na formação.

"Demorámos um ano a fazer tudo isso, se calhar em tempo recorde", reconhece André Geraldes, o CEO da SAD e homem forte do futebol, o braço direito do presidente e investidor João Rodrigues. Através da sua capacidade de trabalho e dos ensinamentos recolhidos durante cinco anos numa estrutura profissional como é a do Sporting, André Geraldes adquiriu o conhecimento profundo do clube e teve tempo para trabalhar em diversas áreas. Aliás, conviver de perto com Jorge Jesus, que "é muito mais do que um treinador", também lhe deu tarimba e bagagem suficientes para "planear devidamente esta época e escolher bem a equipa técnica".

A escolha, de facto, não podia ter sido mais acertada. Sérgio Vieira, o treinador, perdeu três jogos, num total de 15, incluindo as taças. O plantel foi igualmente alvo de uma aposta cirúrgica, com as contratações do goleador Fabrício Simões, do "Messi escocês" Ryan Gauld e dos experientes Filipe Melo e Luís Rocha, sem esquecer, claro, André Vieira, Fábio Nunes, Fabrício Isidoro, Cássio e Mayambela, que já estavam no clube.

"A nossa máxima é trabalhar semana a semana, sempre com o foco no jogo seguinte. Queremos ganhar e fazer as contas no fim, mas não assumimos candidatura alguma. Somos candidatos, isso sim, a vencer o próximo jogo", sublinha André Geraldes, no tal registo que mistura a ambição com um travão à euforia, sobretudo dos adeptos, ávidos em confirmar este despertar do gigante (por vezes) adormecido.

E não são só os adeptos que sonham com o regresso. Os antigos jogadores dão as mãos aos atuais e até dizem que a permanência de Manuel Balela (coordenador-geral e figura mítica do clube) é meio caminho andado para o sucesso.

"Vejo o Farense a atravessar uma situação estável, com bons profissionais ao leme e uma imensa alegria no dia-a-dia. Esta estrutura conseguiu encontrar um grupo forte e coeso e os resultados estão à vista, porque, para além da classificação, a equipa joga bom futebol", atira Pitico, outro nome lendário dos anos de ouro dos algarvios. O brasileiro, hoje com 56 anos e a treinar o Almodôvar, leva 32 anos de Portugal e só vai à terra natal para rever alguma família.

"Faro é uma cidade fantástica e os adeptos são qualquer coisa de outro mundo. Acho que a torcida do Farense só é batida pelas dos três grandes, de resto não há igual", enfatiza o antigo extremo, que realizou 168 jogos e marcou 23 golos de alvinegro vestido.

"Ainda não ganhámos nada", diz, assumindo-se como adepto incondicional. "Torço muito para que o Farense volte à I Liga e acredito que pode ser desta, até porque o Sérgio Vieira montou um onze que joga para ganhar e que em casa é imbatível. E eu lembro-me bem dos velhos tempos, em que raramente perdíamos no São Luís. Receber de novo no nosso estádio o Benfica, Sporting e FC Porto deixará todos felizes. Estamos no bom caminho e acredito", remata Pitico, também ele "convertido" à causa de uma cidade inteira. Como diz o hino: "E para as gerações do futuro/à vitória Farense, à vitória/nunca mais murchará a semente/do arrojo, da fama e da glória".

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