Cruzeiro. A última oportunidade para escapar à descida de divisão

No meio de polémicas, escândalos de fraude e maus resultados, o clube de Belo Horizonte tem este domingo o dia mais importante da sua história. Está obrigado a vencer o Palmeiras e esperar que o Botafogo ganhe ao Ceará. Só assim continuará a ser um dos quatro emblemas brasileiros que nunca foi despromovido.

Já imaginou o escândalo que seria se Benfica, FC Porto ou Sporting descessem à II Liga? Pois bem, no Brasil, uma das quatro equipas que nunca foram despromovidas está a um curto passo de cair para a Série B, trata-se do Cruzeiro, o último clube a conseguir dois títulos de campeão brasileiro consecutivos, em 2013 e 2014.

Este ano tem sido dececionante para o histórico emblema de Belo Horizonte, que pode deixar o grupo composto por Flamengo, Santos e São Paulo, os únicos totalistas de participações do Brasileirão. Para evitar essa "tragédia", é preciso inverter a série de oito jogos sem vencer, sendo que os últimos quatro foram derrotas. Só que uma vitória este domingo, em casa, perante o Palmeiras, na última jornada do campeonato, pode não chegar. Isto porque é preciso que o Ceará, que tem dois pontos a mais na classificação, perca a partida que vai disputar no Rio de Janeiro com o Botafogo.

Os adeptos da Raposa, alcunha pela qual é conhecido o Cruzeiro, já dizem que só um milagre poderá fazer o clube escapar da descida à Série B. Um milagre muito maior do que aquele que aconteceu em 2011 quando, à entrada para a última jornada lutava pela salvação com Ceará, Atlético Paranaense e América Mineiro, mas era o primeiro clube acima da linha de água. Na altura, o Cruzeiro recebeu o eterno rival Atlético Mineiro e estava obrigado a vencer... não só ganhou, como goleou por 6-1, naquela que foi a maior goleada na história do dérbi de Belo Horizonte.

Direção acusada de fraude

Mas como o Cruzeiro chegou a este ponto? A verdade é que até abril nada fazia prever este descalabro. A equipa tinha sido campeã estadual de Minas Gerais e estava sem derrotas, inclusive na fase de grupos da Taça Libertadores, onde acabou por apurar-se em primeiro lugar. Só que o início do Campeonato Brasileiro, a 28 de abril, tudo mudou, pois logo na primeira jornada a equipa então treinada por Mano Menezes perdeu (1-3) no Estádio Maracanã com o Flamengo, ainda sem Jorge Jesus no comando.

Nos dias seguintes, iniciou-se uma grave crise diretiva, com a demissão de três elementos do Conselho Fiscal, que acusaram a direção de práticas menos claras relacionadas com a fuga aos impostos e partilha dos direitos económicos de jogadores menores de idade. Era o início do descalabro, que as duas vitórias com o Ceará e Goiás no início de maio ainda disfarçaram.

Seguiram-se onze jogos seguidos sem ganhar (seis derrotas e cinco empates) e no final da primeira volta, em meados de setembro, o Cruzeiro já se encontrava no lugar em que se encontra hoje (17.º), na zona de despromoção e já estava fora da Copa do Brasil (eliminado pelo Internacional) e da Taça dos Libertadores (afastado pelo River Plate nos penáltis).

A polícia civil de Minas Gerais abriu uma investigação tendo por base as acusações de falsificação de documentos e lavagem de dinheiro, tendo como alvo o presidente Wagner Pires de Sá, o vice-presidente para o futebol Itair Machado, o diretor-geral Sérgio Nonato e o empresário Richard dos Santos. A investigação apurou que o Cruzeiro tinha dívidas de 112 milhões de euros e a situação só não era mais grave porque os 13 milhões de euros da venda do uruguaio De Arrascaeta ao Flamengo tinham sido mal contabilizados no relatório e contas.

Quatro treinadores e o polémico Thiago Neves

Apesar do escândalo, a direção não caiu - só o vice-presidente para o futebol foi afastado - e esta crise chegou obviamente aos jogadores, que já sofriam na pele o drama dos salários em atraso. Daí que os maus resultados não surpreendam e com eles as várias mudanças de treinador: Mano Menezes foi o primeiro a cair, seguiram-se Rogério Ceni e Abel Braga, caindo nos braços de Adilson Batista tentar evitar a descida de divisão nesta reta final de campeonato.

No meio de toda a instabilidade, o balneário foi palco de polémicas internas. O veterano Thiago Neves, o mais bem pago do plantel, acabou mesmo por ser afastado pela direção por problemas disciplinares. O médio de 34 anos começou por dedicar o seu 200 da sua carreira, num jogo com o São Paulo, a Itair Machado quando este estava a ser investigado pela polícia. Uma atitude que não caiu bem entre os adeptos.

Mais tarde criticou publicamente o treinador Rogério Ceni após a derrota com o Internacional, que ditou o afastamento na Copa do Brasil, sendo por isso um dos culpados do afastamento do técnico. Thiago Neves foi ainda mais longe. Numa entrevista à estação de televisão Fox Sports expressou a sua vontade em jogar no Corinthians, que irritou a direção.

Mas a gota de água que fez transbordar o copo foi a 29 de novembro num jogo em casa com o CSA, quando desperdiçou um penálti, rematando ao lado, num jogo em que o Cruzeiro acabou por perder por 1-0.

Nas horas seguintes foi divulgada na internet uma gravação áudio onde o jogador pede ao agora diretor do futebol Zezé Perrela para pagar 60% dos salários que estavam em atraso, porque assim evitava que os jogadores aceitassem prémios externos ao clube... Ora, a polémica foi gigante no Brasil, uma vez que Thiago Neves tinha acabado de falhar um penálti importantíssimo para a equipa, lançando a suspeição.

E como se não bastasse na véspera do jogo seguinte com o Vasco da Gama, Thiago Neves foi apanhado numa noitada num espetáculo de pagode. Perrela afastou então o jogador do plantel, garantindo que nunca mais vestirá a camisola da Raposa.

No meio de tanta turbulência, a equipa vai arrastando-se em campo, mostrando estar cansada física e psicologicamente, sem capacidade de reagir ao momento delicado que está a levar os adeptos ao desespero. Este domingo, às 19.00 horas, o histórico clube de Belo Horizonte tem a última oportunidade para evitar a descida ao inferno que seria a queda na Série B do Brasileirão.

Só que neste momento o principal adversário não será o Palmeiras ou as quatro ausências de jogadores titulares para essa partida. O grande adversário é o próprio Cruzeiro. Será a equipa capaz de 90 minutos de superação para sair do buraco negro em que se encontra?

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