Celta 7-0 Benfica foi há 20 anos. Da volta triunfal à goleada sem volta

Há 20 anos o Benfica foi cilindrado em Vigo na derrota mais terrível da história do clube em provas da UEFA. "Andar na rua foi muito complicado", conta Paulo Madeira, um dos capitães de equipa na altura.

"Cada tiro, cada melro". Dia 25 de novembro de 1999. Em 42 minutos (dos 19' aos 61'), entrecortados pelo intervalo, de cada vez que o Real Club Celta chegava à baliza do malogrado Robert Enke a jogada acabava em golo. O Benfica entrou de forma triunfal nos Balaídos, com o então presidente Vale e Azevedo a fazer a volta triunfal ao relvado para gáudio de mais de 10000 benfiquistas (em 30000 espectadores), que ainda aqueceram as mãos com os (possíveis) 15 minutos iniciais à Benfica. Depois, Andrade ceifou Gustavo López e Karpin fez o 1-0 (de penálti). "Foi o descalabro", recorda um dos capitães daquela famigerada equipa, Paulo Madeira. 1-0, 2-0, 3-0, 4-0. Ufa, intervalo. 5-0, 6-0 e 7-0. 61 minutos. Ainda falta meia hora?

Na verdade, não. Faltava bem mais de meia hora para acabar aquela humilhação. Nos dias, meses e anos seguintes o Benfica nem precisava dos mimos dos rivais ("Quem é amigo? É o Celta de Vigo") para evitar cair uma e outra vez aos pés de Makelélé, Giovanella, Karpin, Mostovoi e um suplente de nome Benni McCarthy (depois, campeão europeu pelo FC Porto de José Mourinho em maio de 2004).

Uma trupe de elite que recambiaria a Juventus para Turim (4-0, com bis de McCarthy, após o 0-1 em Itália) numa caminhada na Taça UEFA que só terminaria nos quartos-de-final (Lens: 0-0 e 1-2). Essa edição da UEFA foi ganha pelo Galatasaray, que na época seguinte conquistaria a Supertaça europeia ao Real Madrid de Luís Figo. Num jogo em que sobressaiu o funcionário do golo, Mário Jardel (bis e 2-1 após prolongamento).

Vias de facto

Mesmo que o comentador da televisão galega (ver vídeo) tivesse razão, e aos 61 minutos "uns quatro mil portugueses já estivessem no carro a caminho de Lisboa", sobrava muita gente vermelha de raiva nas imediações do Estádio dos Balaídos. Horas depois do final do jogo (começou às 21.30 locais, menos uma em Lisboa), choviam garrafas, isqueiros, pedras e impropérios de fazer corar o menos pudico dos adeptos ou jogadores. Tudo na direção da porta de saída do balneário, por onde assomava João Vieira Pinto (JVP) a tentar, em vão, acalmar as hostes para que a comitiva liderada pelo treinador recentemente sagrado campeão europeu Jupp Heynckes (Real Madrid, 1998) fizesse os 100 metros até ao autocarro.

"Nas semanas e meses seguintes, aconteceram momentos complicados. Porque a massa associativa não aceitou o que se passou. Sou daqueles que acha que se deve criticar. Mas deve haver um limite de respeito. Deve-se criticar, comentar, dizer o que está mal. Mas ofender, chegar a vias de facto... Andar na rua foi muito complicado", tenta recuperar de um espaço auto-censurado da memória Paulo Madeira, o agora empresário e então central e um dos capitães de equipa, com JVP.

Os dois, nos dias de chumbo pós-Vigo, leram um comunicado pouco convincente a pedir desculpa aos adeptos do Benfica. Pouco convincente por parecer forçado para quem ouvia de fora. "Talvez tenha sido um bocado imposição do presidente, um bocado unanimidade da equipa", confunde-se Paulo Madeira, ele que avisou logo que era muito difícil mexer - ainda hoje, 20 anos passados - em "memórias tão delicadas". "Nem todos estavam de acordo" com o comunicado, resolve-se a esclarecer o antigo central do Benfica.

"Como aquilo estava, não ficámos com uma ideia clara de quem determinou a forma de enfrentar as pessoas", explica. Isto porque o primeiro treino depois do regresso a Lisboa foi um suplício para o plantel. O treino no Estádio da Luz foi aberto aos sócios alegadamente por ordem de Heynckes, os jogadores foram insultados, vaiados e houve tentativas de agressão.

"Ao Benfica, como instituição, e à sua massa associativa, pela grandeza reconhecida, nacional e internacionalmente, conscientes da anormalidade do resultado do jogo em Vigo, vêm por isso os jogadores, nas pessoas do capitão e sub-capitão, publicamente reconhecer que não estiveram à altura dos pergaminhos do clube. Creiam que nós e as nossas famílias sofremos duramente com esta derrota. E prometemos redobrar o nosso empenhamento, na dignificação do clube. Temos também a consciência do esforço financeiro feito pela direção e mais de 100 mil sócios que apoiam o Benfica. A eles e aos milhões de simpatizantes do Benfica vimos formalmente pedir desculpas." Era este o teor do comunicado lido por João Vieira Pinto.

Triunfal, até à derrota

O Benfica recebia o maior corretivo em campo nas provas da UEFA, onde se tinha estreado na segunda época da Taça dos Clubes Campeões Europeus (venceria uma braçada em 1961 e 1962). Em 1955, o Sporting era campeão e foi o primeiro representante português. O Benfica chegaria à Europa um ano depois.

Em quatro dias, passava da vergonha para um lugar-comum, a liderança do campeonato. Embora não tanto naquele período da história: tinha sido campeão em 1994, só o voltaria a ser já com Luís Filipe Vieira a presidente - eleito a 3 de novembro de 2003, estancou a maior seca de campeonatos do Benfica em 2005.

A 29 de novembro desse ano de 1999, Paulo Madeira contribuiu para acalmar os ânimos na Luz. Foi com um golo do número 5 aos oito minutos que o Benfica garantiu a continuidade no 1.º lugar do campeonato (o 2-0 final sobre o Campomaiorense foi assinado aos 70' por Maniche, que também seria campeão europeu em 2004 pelo FC Porto). As águias mantinham uma ténue margem de um ponto sobre o FC Porto e dois sobre o Sporting à 12.ª jornada.

No final, festejou o Sporting, recuperando os galões 18 anos depois - antes, tinha sido campeão em 1982 e, desde então, só voltaria a sê-lo mais uma vez, em 2002 (curiosamente, contribuindo em 2002, com o Boavista em 2001, para um inédito período de três anos sem campeonato para o FC Porto na era Pinto da Costa - posteriormente, ficaria quatro anos no inédito tetra do Benfica entre 2013/14 e 2016/17).

E o projeto europeu

O 7-0 de Vigo foi "uma página um bocado negra" na história do Benfica, como a classifica Paulo Madeira compreensivelmente. Foi a maior goleada sofrida pelo Benfica em mais de 60 anos quase ininterruptos de competições europeias (uma "página negra", lá está, normalmente é um sintoma: na época seguinte, em 2000/2001, a equipa da Luz registou a pior classificação no campeonato - 6.º lugar - e falhou as competições europeias pela segunda vez - a primeira, já referida, foi a do arranque em 1955/56).

Em 61 épocas, o Benfica só foi batido por mais de três golos em seis jogos. Há o inaudito 7-0 da Taça UEFA 1999/2000 (na mesma edição em que o V. Setúbal levou 7-1 da Roma na capital italiana...) e apenas dois 0-5. Um foi no longínquo 1963/64, duas épocas depois de se sagrar bicampeão europeu e com uma equipa em que ainda figuravam Costa Pereira, Germano, Cavém, Coluna, Simões, José Augusto, Torres ou Eusébio - e aconteceu no antigo estádio do Borussia de Dortmund, o Rote Erde.

O outro "chapa cinco" escreveu parte de outra página desastrosa do Benfica europeu: Basileia 5 - 0 Benfica. Foi há pouco tempo (2017/2018) e aconteceu na única vez em que uma equipa portuguesa concluiu uma fase de grupos da Liga dos Campeões com zero pontos. Seis jogos, seis derrotas, sobressaindo essa na Suíça que é a segunda mais castigadora do registo europeu. O Benfica entrou para o top 10 das piores equipas da história da Champions com zero pontos, um golo marcado e 14 sofridos.

Goleadas por quatro golos de diferença só aconteceram ao Benfica três vezes, e tal como nas outras abundam alemães: 1-5 em Munique (1975/76); 1-5 em Atenas (Olympiakos, 2008/2009, única na Taça UEFA/Liga Europa); e 0-4 em Dortmund (2016/2017). Dos sete castigos por quatro ou mais golos na UEFA, dois foram aplicados pelo Bayern e dois pelo Dortmund (o Basileia é suíço, mas do cantão alemão...).

Já agora, nas últimas cinco épocas, o Benfica foi eliminado sempre por equipas alemãs (descontando o desastre dos zero pontos na fase de grupos em 2017/2018). A época passada, depois do 3.º lugar na fase de grupos da Champions, transitou para a Liga Europa para ser eliminado nos quartos-de-final pelo Eintracht de Frankfurt (após um prometedor 2-0 na Luz, um 2-4 que apurou a equipa alemã pela diferença de golos marcados fora); em 2016/2017, tombou nos "quartos" da Champions perante o Dortmund (até ganhou em casa, mas os já mencionados 0-4 na Alemanha foram inalcançáveis); em 2015/2016, deu luta ao Bayern, mas foi eliminado ao empatar na Luz (2-2) e não contrariar a derrota pela margem mínima em Munique (0-1).

Com promessas de levantar um projeto europeu à imagem e semelhança da grandeza passada do Benfica, o presidente Luís Filipe Vieira está a perder munições na reabilitação internacional da equipa. Depois de ter ficado muito perto de ganhar a Liga Europa em 2013 e 2014 (derrotas nas finais, respetivamente, frente a Chelsea, com golo de Ivanovic ao minuto 93, e Sevilha, nos penáltis), as últimas cinco épocas têm feito entrar muito dinheiro de receitas de participação na Champions e vendas de jogadores, mas pouca (uns quartos-de-final na Champions) ou nenhuma glória desportiva.

Diz Paulo Madeira, ainda sobre Vigo: "Apagar essa imagem foi muito complicado". E fala no delicado que é ainda hoje mencionar a humilhação. Já sobre o presente, defende-se, mas constata o óbvio. "Não estou por dentro, o que se nota de fora é que parece que é política do clube. O Benfica nas últimas épocas não tem estado muito famoso nas competições europeias".

Quando faltam dois jogos para terminar a fase de grupos, e com o Benfica em sérias dificuldades para segurar sequer o 3.º lugar (que daria direito a seguir para a Liga Europa), nas últimas cinco temporadas o clube da Luz realizou 40 jogos europeus. O balanço é francamente "pouco famoso": 14 vitórias, seis empates e 20 derrotas (50% dos jogos), com 47 golos marcados e 66 sofridos.

E na quarta-feira, o jogo do quase tudo ou quase nada é também na Alemanha. O Benfica visita o Leipzig na quinta jornada da fase de grupos da Liga dos Campeões.

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