Anthony Lopes, o guarda-redes detestado em França tenta redimir-se com o Benfica

Um erro do guarda-redes do Lyon permitiu aos encarnados vencer o primeiro jogo na Champions há duas semanas. Filho de um emigrante português de Miranda do Douro, foi ao longo da sua carreira ligado a vários casos polémicos que lhe valeram castigos e má fama.

O guarda-redes Anthony Lopes volta esta terça-feira a última barreira do Benfica para chegar ao sucesso em Lyon, em jogo da 4.ª jornada da Liga dos Campeões. Há duas semanas, no Estádio da Luz, o internacional português campeão da Europa cometeu um erro grave que ofereceu o segundo golo dos encarnados a Pizzi, que assim consumaram o primeiro triunfo na prova.

Agora, o dono da baliza dos franceses vai querer, por certo, redimir-se, embora no último jogo, no sábado, com o Toulouse tenha protagonizado outro lance infeliz ao sair mal a um cruzamento, acabando por introduzir a bola na própria baliza. Ainda assim, Anthony Lopes é um ídolo dos adeptos do Lyon, que apesar do erro com o Benfica brindaram o seu guarda-redes com cânticos de apoio.

Anthony Lopes nasceu há 29 anos em Givors, nos arredores de Lyon, sendo filho de um emigrante, natural de Miranda do Douro. O seu jeito para defender fez com que o pai o levasse ao Olympique Lyonnais para fazer uns testes, onde revelou tanta qualidade que nunca mais de lá saiu. Fez toda a sua formação no clube, até que em 2011 chegou à equipa principal para ser o terceiro guarda-redes atrás do titular Hugo Lloris e de Rémy Vercoutre.

A estreia como titular foi a 31 de outubro de 2012, num jogo para a Taça da Liga com o Nice. Era o início de uma carreira brilhante ao serviço do seu clube de sempre, marcada no entanto por alguns episódios controversos devido ao seu temperamento turbulento, que o tornaram num dos futebolistas mais detestados de França, sobretudo por ser um atleta considerado agressivo e provocador.

Episódios que marcam uma carreira

Em 2017, antes do início de um jogo entre Bastia e Lyon, Lopes e os outros dois guarda-redes foram agredidos por adeptos da equipa da casa que entraram no relvado. E ao intervalo, quando as equipas recolhiam ao balneário, eis que o internacional português se envolveu numa luta com um elemento da segurança do estádio, dando origem a outros tumultos. Resultado? A partida acabou por ser cancelada e o clube da casa castigado com a interdição do seu estádio.

O caso mais badalado acabou por ser em março de 2018, quando após uma vitória do Lyon em casa do Marselha por 3-2, gerou-se uma enorme confusão entre jogadores e staff das duas equipas, onde estava Anthony Lopes. As imagens captaram uma chapada do guarda-redes português num elemento da equipa técnica adversária, tendo por consequência sido castigado com três jogos de suspensão. Isto quando os marselheses evocavam os regulamentos que determinavam uma suspensão entre seis meses e sete anos por atos de violência.

"Anthony Lopes tem frequentemente problemas disciplinares, embora nunca seja castigado porque aparentemente a culpa nunca é dele", defendiam então os dirigentes do Marselha, que acabaram por conseguir o agravamento da pena do guarda-redes para cinco jogos de suspensão.

Dois anos antes desse episódio, em dezembro 2016, num jogo em Metz, quando estava a ser assistido pela equipa médica, Anthony Lopes foi atingido por um petardo pelos adeptos, tendo estado inclusive internado durante três dias, um caso que deu brado em França e que obrigou mesmo ao adiamento do jogo. Dois adeptos da equipa da casa foram condenados a penas de prisão.

Anthony Lopes viu-se envolvido ainda num episódio bastante insólito quando num jogo da Liga Europa, em Goodison Park, com o Everton, sofreu uma entrada dura de Ashley Williams junto à linha de fundo, um lance que originou um tumulto entre alguns jogadores... No meio da confusão, um adepto que se encontrava na bancada, com uma criança ao colo, agrediu o guarda-redes português. No final do jogo, Lopes acabou por desvalorizar o caso num tom um pouco irónico: "Não se passou nada de especial. Foi uma situação que acordou o público, que estava adormecido, mas não penso que seja habitual em Inglaterra um adepto agredir um jogador adversário."

Menos problemático, mas igualmente polémico, foi o caso que protagonizou em janeiro de 2017, quando resolveu riscar o nome do rival Saint-Étienne da sua camisola. A federação francesa quis assinalar o centenário da Taça de França com a inscrição de todos os vencedores da prova nas camisolas dos clubes que entravam em campo, mas Anthony Lopes é que não achou piada a essa medida...

O seu ato teve como consequência a suspensão por um jogo, tendo depois acabado por pedir desculpa ao Saint-Étienne. "Nunca pensei que isto fosse atingir estas proporções. Só os adeptos de ambos os clubes conseguem perceber o tipo de rivalidade que existe, mas se insultei os diretores, jogadores e adeptos do Saint-Étienne, peço imensa desculpa e não era a minha intenção", justificou.

Na seleção por causa de telefonema do pai

Confusões à parte, Anthony Lopes tornou-se internacional português por influência direta do pai, que um dia telefonou para a Federação Portuguesa de Futebol para dizer que o seu filho jogava em França e queria representar a seleção nacional. Uma decisão audaz que deu frutos. O guarda-redes acabou por ser chamado a um estágio dos sub-17 para ser avaliado e de imediato convenceu os treinadores nacionais, que nunca mais prescindiram dos seus serviços.

"A minha escolha está feita desde que era pequeno e não mudará. Tenho essa vantagem de ter chegado muito jovem às seleções de Portugal e, para a minha família, o que contou sempre foi Portugal. E para mim, também. Faz parte da minha história, não é uma reflexão da idade adulta", afirmou numa das suas chamadas à equipa das quinas.

Aliás, nas primeiras vezes que foi convocado chegou mesmo a pedir para que não o colocassem em conferências de imprensa porque não queria passar vergonha, porque não falava bem português. Com sete jogos pela equipa das quinas - todos de caráter particular - Anthony Lopes fez parte da seleção campeã da Europa em 2016, frente à França, país onde nasceu.

Curiosamente, depois do Euro 2016 nunca mais voltou a ser chamado pelo selecionador nacional Fernando Santos, o que nunca foi verdadeiramente explicado, apesar de se tratar de um dos melhores guarda-redes da exigente Liga francesa. "Tive uma longa conversa com o selecionador e sei para onde quero ir. Quero estar um pouco mais concentrado no Lyon e na minha família", limitou-se a dizer o jogador.

É um Anthony Lopes diferente, mais calmo, que reencontra esta terça-feira o Benfica, sobretudo depois do episódio que protagonizou em Marselha. "Coloquei a minha família e o clube em perigo. Tive um momento muito complicado e desapontei as pessoas e a mim mesmo. Após o jogo de Marselha na temporada passada, estava na seleção e foi complicado. Disse a mim mesmo que tinha que assentar e ser o homem que sou fora do campo. Estou muito calmo. Tive uma grande falha, mas agora sou eu quem acalma os outros", afirmou em novembro de 2018 numa entrevista ao site do Lyon.

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