A vida continua em Alverca. Até para o tratador de relva que ganhou 200 euros numa aposta

Nem parecia que o clube da terra, do Campeonato de Portugal, tinha eliminado o Sporting da Taça de Portugal. Os heróis da noite de quinta-feira voltaram ao anonimato na manhã desta sexta-feira.

Em Alverca não havia canas para apanhar porque na noite de quinta-feira não se lançou qualquer foguete pelo facto de o clube da terra, do terceiro escalão do futebol português, ter eliminado o Sporting da Taça de Portugal com uma vitória por 2-0.

A vida voltou à normalidade na manhã desta sexta-feira, nem parecia que horas antes tinha sido alcançada uma proeza na cidade, que pertence ao concelho de Vila Franca de Xira. Junto ao estádio, as conversas de café quase nem tocavam no assunto. E os jogadores do Alverca, entre eles os autores dos golos Alex Apolinário e Luan, o intransponível guarda-redes João Victor e o habilidoso avançado Erik Mendes, despiram a pele de heróis para voltar ao anonimato numa manhã em que voltaram aos treinos antes de um fim de semana de folga que já estava previsto.

Durante o treino matinal, o silêncio reinava nas imediações do centro de treinos do clube, com o administrador Artur Moraes e o treinador Vasco Matos serenos e sem qualquer curioso a espreitar os trabalhos. E depois da sessão, os protagonistas da véspera fizeram o habitual trajeto a pé do centro de treinos ao estádio sem receber qualquer saudação dos habitantes locais, como se nada tivesse acontecido.

As 100 pessoas do costume

Singularidades de um clube que mora às portas de Lisboa e que, apesar de já ter estado entre os grandes do futebol português, não tem adeptos fervorosos. Mesmo na noite do jogo, a festa não foi brava, como se gosta dela no Ribatejo. "Não notei mais gente do Alverca, mas estava bom. Os adeptos do Alverca não são muito aficionados. As 100 pessoas que costumam vir ao estádio ao fim de semana foram as que estiveram ontem [quinta-feira]. Não houve grande festa. E hoje também não se sente nada: está tudo morto", comentou ao DN o tratador de relva do Complexo Municipal de Alverca, Paulo Duarte.

A mesma opinião tem Zé das Tostas, gerente de um café a meio caminho entre o estádio e o centro de treinos que prefere ser tratado pela alcunha. Antigo funcionário e sócio do Alverca, mas sportinguista de coração, conta que não ouviu muito barulho nem foi alvo de brincadeiras por parte dos amigos. "Nada. O pessoal de Alverca é muito tranquilo. O entusiasmo que sinto é o mesmo de sempre: as pessoas virem ao café tomar um copo ou um café."

Sentado à mesma mesa, António Farinha, confesso adepto benfiquista, mostrava-se muito atento às páginas alusivas ao jogo de um jornal desportivo: "Estou a ver as notas dos jogadores do Sporting: 2, 1, 1, 1, 1, 1, 1, 2, 2, 2, 2, 1, 2." "Devia ser tudo nota zero", diz Zé das Tostas, habituado aos dissabores que o clube do coração lhe dá: "Não fui ao estádio. Já não me chateio com isso. Aquilo não presta para nada, o Sporting não joga nada." A leitura prossegue: "O guarda-redes do Alverca [João Victor] teve nota 4." "Para mim o melhor jogador foi o guarda-redes do Alverca, mas o do Sporting também esteve bem", acrescenta o dono do estabelecimento, que não planeia voltar às bancadas do estádio dos ribatejanos, nem mesmo em caso de regresso à I Liga: "Já perdi a vontade. Se o Alverca voltar à I Liga é a mesma coisa. Não entro no Alverca há mais de dez anos, chateei-me com a direção da altura. Esta direção? Não os conheço."

Mais entusiasta é António Farinha, que tem "ido ver quase todos os jogos" do Alverca esta época e planeia voltar a ser sócio. "Acho que estão a fazer um trabalho bem feito", sublinha. Ainda assim, não foi ao estádio na quinta-feira à noite. "Como é que assisti ao jogo? Uma metade sentado à mesa, outra metade deitado. Vi na televisão. O Alverca quando teve bola jogou melhor do que o Sporting, e o Sporting quando a teve não soube jogar", considerou o cliente, que pisca o olho a uma receção ao seu Benfica: "Já vi cá o Benfica para a Taça. O Benfica ganhou 2-0 [em novembro de 1985]. O Nené marcou um golo e o outro já não me lembro quem foi" [ndr: foi Oliveira]. Eu era seccionista do clube, não pagava nada."

Ainda assim, António Farinha faz um aviso: "Vamos lá a ver se o Cova da Piedade mais logo também não faz uma gracinha, até porque o campo não é fácil. Ninguém está livre disso."

"Com o Sporting há sempre uma esperançazinha"

Voltando ao jogo desta quinta-feira, António Farinha tinha um otimismo moderado. Num prato da balança pesava a grandeza dos leões, mas no outro a crise de resultados da equipa e as memórias de maus resultados dos verde e brancos no Ribatejo. "Com o Sporting nunca se está livre de uma surpresa... O Sporting ganhava pouco aqui, havia sempre uma esperançazinha. Os golos foram bem feitos. O Sporting merecia marcar um golo ou dois mas o Alverca também merecia ter marcado mais", comentou, sem conseguir explicar porque é que o emblema de Alvalade se dá tão mal em Alverca. "Um dos primeiros clubes a ajudar o Alverca foi o Sporting, quando estava lá o Sousa Cintra", recordou este benfiquista de Alverca, seguro de que os ribatejanos vão voltar à I Liga e bastante elogioso para com o estado do relvado.

Bastante mais otimista estava precisamente quem trata da relva do Complexo Desportivo FC Alverca, Paulo Duarte. Questionado sobre se estava crente num triunfo, remeteu a resposta para a aposta que fez. "Apostei no Placard que o Alverca ia ganhar 2-0. Ainda tenho de ir ver quanto dinheiro ganhei, mas deve ser cerca de 200 euros. Já tinha dito ao nosso diretor desportivo, o Vinícius [Trinca], que ia ser 2-0. Hoje ele já me disse para ir levantar o prémio", contou, muito bem-disposto e com razões para isso. O treinador Vasco Matos não sabia, mas ficou satisfeito: "É sinal que acreditam no nosso trabalho e nas nossas ideias."

A lamentar pelo tratador da relva, só mesmo as cadeiras partidas e atiradas para o relvado pelos adeptos do Sporting no final do encontro: "Se os gajos do Sporting tivessem enchido as bancadas, já não havia cadeiras nenhumas. Os do topo sul portaram-se mal, quando os jogadores foram lá agradecer o apoio."

O funcionário do Alverca deixa rasgados elogios à formação ribatejana, mostrando-se convicto que "sobe já este ano à II Liga" e que se pode "bater com qualquer equipa da I Liga" na Taça de Portugal. "Recentemente fez um jogo-treino com o Benfica e foi ela por ela", atirou.

Um duelo a sério com o Benfica era visto com bons olhos por Paulo Duarte, benfiquista confesso, mas aí já não se atreveria a apostar. "O Benfica é o maior clube do mundo, mas logo a seguir vem o Alverca. Se o Benfica vier cá vai ser mais renhido, aí já não me atrevo a apostar. Se o Benfica entrar adormecido como entrou o Sporting... o Alverca ganha também", avisou, sorridente e ansioso por levantar o prémio que o resultado desta quinta-feira lhe rendeu.

Treinador Vasco Matos saudado... na Brandoa

Já ao final do dia, o treinador alverquense Vasco Matos deu conta de "um dia um bocadinho diferente". O técnico de 39 anos adormeceu tarde, mas conseguiu dormir após eliminar o clube que o formou enquanto jogador. "Acordámos depois de uma vitória sobre o Sporting, que é detentor do troféu. Uma equipa da III Divisão eliminar o detentor do troféu é um feito histórico e obviamente que estamos muito feliz", disse ao DN.

Após o treino da manhã desta sexta-feira, houve um almoço "não comemorativo", mas de família, da equipa. "Fazemo-lo algumas vezes, mas obviamente que esta é uma situação um bocadinho diferente. Não é todos os dias que fazemos estas proezas. É um marco para as nossas carreiras. É um dia especial", disse o técnico dos ribatejanos, que recebeu "muitas mensagens", entre as quais de "algumas pessoas mais conhecidas", que prefere não revelar o nome. Ainda assim, mantém a lucidez: "Este também é o momento mais fácil de receber mensagens. Sabemos que, quando se ganha, é sempre assim."

As maiores saudações que recebeu, porém, foram a cerca de 30 quilómetros de distância. "A minha vida em Alverca limita-se muito ao treino, não vivo em Alverca. Fomos saudados por pessoas que lidam connosco diariamente, mas recebi muitas mais manifestações na zona onde fui criado e onde vivo, na Brandoa, na Amadora", contou. Ainda assim, faz questão de salientar que o público alverquense foi incansável durante o encontro desta quinta-feira: "Durante o jogo recebemos um carinho grande, o nosso público deu-nos um forte apoio e isso para nós é que era importante. No pós-jogo, não é importante."

Agora que o Sporting foi ultrapassado... "venha quem vier". Vasco Matos confessa que os clubes que representou lhe dizem muito, e ainda em prova há Vitória de Setúbal, Beira-Mar, Portimonense, Desp. Aves, Benfica Castelo Branco e Vilafranquense, mas prefere muito não pensar em que poderá ser o adversário da quarta eliminatória. "Não sou pessoa desse tipo de coisas. As coisas acontecem naturalmente. Vamos resolver as questões a seu tempo, com calma", rematou.

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