A equipa de brasileiros de Serpa em que joga um primo do Fenómeno

O clube só foi fundado no ano passado e joga na II Divisão Distrital de Beja, onde é líder. Em janeiro realizou uns jogos no Dubai e alguns jogadores ficaram referenciados. O objetivo do projeto é valorizar e dar visibilidade aos jovens.

Na pacata vila de Serpa, no Baixo Alentejo, há um caso muito peculiar de uma equipa de futebol. O clube da II Divisão Distrital da Associação de Beja é composto unicamente por jovens jogadores brasileiros, quase todos formados em grandes emblemas canarinhos - um deles é primo de Ronaldo "Fenómeno" Nazário. O treinador orientou em crianças alguns craques que estão hoje em grandes clubes europeus e na seleção brasileira e vários dos integrantes do projeto foram colegas de jovens já referências do futebol mundial. O presidente, português, nunca jogou. Mas foi segurança do estádio do Borussia Dortmund, na Alemanha.

São 19 jogadores entre os 18 e os 23 anos, muitos com formação no Flamengo, no Palmeiras e no Fluminense. Por falta de oportunidades, vieram para Portugal para integrar o projeto do CF União Serpense, equipa fundada no ano passado e que tem como mentor Ademilson Brito, também brasileiro, que faz de treinador, roupeiro, motorista, secretário... de tudo. Ademilson treinou-os no União, do Brasil, sendo esta equipa uma extensão deste projeto. O objetivo é valorizar e dar visibilidade a estes jovens para que consigam chegar a clubes de maior dimensão.

O Alentejo não tem uma única equipa no principal escalão do futebol português há quase 20 anos - o último representante foi o Campomaiorense. Mas nem isso demoveu o técnico brasileiro de se fixar em Serpa e apostar no crescimento deste projeto. Depois de ter visto a ideia falhar no Algarve, conheceu Alfredo Mestre, 49 anos, proprietário de um restaurante em Serpa, que gostou do que ouviu e resolveu dar uma ajuda, tornando-se presidente e abrindo algumas portas para que se fixassem na vila alentejana.

O treinador e o presidente garantem que têm ali muitos craques. "Diria que três ou quatro dos meus jogadores podiam jogar tranquilamente em equipas de grande dimensão", realça . "Há aqui muita qualidade. Acredito sinceramente que este projeto tem potencial e que podemos fornecer jogadores a grandes clubes. Se não acreditasse, mais valia fecharmos as portas", acrescenta o presidente, que morou vários anos na Alemanha e foi segurança no estádio do Borussia Dortmund.

Mais do que a (pouca) visibilidade nos jogos na II Divisão Distrital, a ideia passa por realizar desafios particulares para os jogadores se mostrarem. Foi assim recentemente na Academia de Alcochete, frente aos sub-23 do Sporting (empate), e também frente à formação B do Dortmund (novo empate), que estagiou na cidade aproveitando a pausa de inverno.

Em janeiro, através de um conhecimento do treinador, conseguiram uma viagem patrocinada até ao Dubai, onde realizaram alguns jogos particulares. "Alguns ficaram referenciados e na próxima época acredito que dois ou três possam ir jogar para lá. Eles andam a apostar muitos em jovens brasileiros, com a perspetiva de os naturalizarem para jogar na seleção", diz-nos Ademilson.

O Benfica, garante, chegou a pedir referências sobre João Wanderley, 22 anos, que joga a trinco, para fazer uma avaliação. E o Sporting também ficou impressionado, através de um olheiro, mas até agora não surgiram contactos.

João é um dos craques da equipa - passou por clubes como o Fluminense, o Flamengo, o Palmeiras e o Avaí. E orgulha-se de ser um grande amigo de Gabriel Jesus, avançado do Manchester City, de Inglaterra, e já uma das estrelas da seleção brasileira, com quem fala semanalmente.

Tornaram-se muito próximos, sobretudo nos tempos em que jogaram no Palmeiras. "Ainda fiz muitas assistências para ele marcar golos", diz João, lembrando que no ano passado, quando a seleção brasileira jogou um particular com o Panamá no Estádio do Dragão, foi convidado pelo amigo para assistir ao jogo.

João chegou a Portugal em 2018 para representar o Limianos, do Campeonato de Portugal. E no verão do ano passado mudou-se para Serpa, agradado com o projeto. "O meu sonho é conseguir chegar a uma liga de referência e não encaro esta experiência como um passo atrás. Na vida temos de tomar decisões para almejar conquistas", diz, sem ponta de inveja do que outros amigos conseguiram alcançar.

Rodrigo da Silva, 23 anos, que joga a médio, é outro dos integrantes da equipa. E tem uma grande referência na família - é primo de Ronaldo "Fenómeno", um dos maiores avançados da história do futebol brasileiro, duas vezes campeão do mundo: "As maiores recordações são da época em que ele estava no Real Madrid e jogava ao lado do Figo e do Roberto Carlos. Eu pequenino a ver os jogos da Champions."

"Vamos falando com alguma frequência. Às vezes posto coisas no Instagram e ele pergunta por mim, incentiva-me. Somos primos, mas ele chama-me de sobrinho", diz orgulhoso, puxando ao seu lado humilde: "Ele é uma referência. Mas não quero pedir-lhe ajuda. Quero fazer o meu caminho e acredito que posso chegar mais longe. O Ronaldo construiu a história dele, se eu conseguisse 5% já era bom pra caramba."

No União Serpense ninguém recebe ordenado. O clube tem uma ajuda da câmara da cidade - "sem isto o projeto não teria ido para a frente" -, mas o presidente e o treinador vão investindo algum do seu. "É preciso pagar arbitragens, a GNR, o gasóleo... um jogo fica à volta de 200 e pouco euros. Quando é fora, às vezes mais, por causa das deslocações", lembra o presidente.

"Estão todos alojados numa residência em Serpa. Não lhes falta nada! Têm uma cozinheira que lhes faz o almoço e o jantar, e eu, a minha mulher e o presidente vamos lá muitas vezes. Nós ajudamos como podemos e em alguns casos têm a família, que também os auxilia", relata Ademilson.

"Não tenho preparador físico, adjunto, não tenho ninguém. Um miúdo destes numa equipa com pessoal qualificado, com preparadores físicos, nutricionistas e fisiologistas, podia desenvolver-se muito mais", atira o treinador, queixando-se de que o maior problema é a recuperação depois dos jogos. Ademilson acredita muito neste projeto, ele que no União do Brasil esteve no início da formação de craques como Vinícius Júnior (Real Madrid), Gabriel Jesus (Man. City), Paquetá (AC Milan), Gerson (Flamengo), entre outros.

O boato com Júlio César

Em Serpa chegou a correr o boato de que o União tinha como investidor Júlio César, antigo guarda-redes brasileiro do Benfica e da seleção canarinha, que entretanto virou empresário de jogadores. Treinador e presidente negam e contam como o rumor surgiu. "O Júlio ficou a saber do projeto e foi assistir a um jogo que fizemos na Academia Sporting, com os sub-23. Gostou do que viu e veio até cá para conhecer-nos. Cheguei a treinar um sobrinho dele. Podemos dizer que temos o apoio moral do Júlio, pode abrir-nos portas e pôs-se à disposição para nos ajudar. É apenas isso", indica o técnico.

Gabriel Branco, 21 anos, é, de acordo com o treinador, um lateral esquerdo "que é um monstro". "Não há no mercado como ele", diz Ademilson. "O lema é trabalhar. Nunca sabemos quando vai chegar a oportunidade. Mas claro que acredito que vou conseguir dar o salto", diz, não dando importância ao facto de o clube estar sediado no Baixo Alentejo e de isso ser sinónimo de pouca visibilidade: "Este projeto vai começar a ser falado e quando isso acontecer vamos ter mais projeção", diz Gabriel, que tem como ídolo Marcelo, do Real Madrid.

O União Serpense é o atual primeiro classificado da II Divisão Distrital da Associação de Futebol de Beja, com 13 vitórias em 14 jogos (apenas um empate). E por isso tem ambições em subir à I Distrital, onde joga o outro clube da terra, o Serpa. Partilham as mesmas instalações, mas não existe "rivalidade", assegura o presidente.

O médio João Wanderley garante que na equipa todos são profissionais e que não há relaxamentos consoante o nome do adversário. Mas admite que em alguns jogos particulares os jogadores superam-se. Afinal, é nestas partidas que podem chamar mais a atenção de olheiros e responsáveis de clubes e abrir uma janela para um futuro melhor. "Se virem os nossos jogos contra equipas com menos expressão, veem que jogamos bem. Mas crescemos de forma impressionante contra clubes com mais peso. Contra os sub-23 do Sporting e do Dortmund, que acabaram em empate, fomos melhores."

Uma opinião partilhada pelo treinador, que deixa um aviso aos clubes de maior dimensão: "Só peço que tenham um pouco mais de atenção, deixem a vaidade e os preconceitos de lado. Não pensem neste projeto como um clube pequeno de Serpa que tem para aqui uns jogadores brasileiros. Venham vê-los jogar porque se calhar estão a desperdiçar muito talento que pode render um bom dinheiro no futuro."

Publicado originalmente a 7 de março

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