Uruguai. A fábrica dos talentos onde "os bebés nascem a gritar golo"

De José Andrade a Darwin Núñez, passando por Schiaffino, Francescoli, Luis Suárez ou Cavani, o próximo adversário de Portugal tem uma bonita história no futebol para um país só com 3,5 milhões de habitantes.

Um território com pouco mais de 180 mil quilómetros quadrados de área (mais ou menos o dobro de Portugal) e cerca de três milhões e meio de habitantes (um terço dos do nosso país) é uma das maiores "fábricas" de grandes jogadores de futebol do planeta. A seleção que esta segunda-feira defronta Portugal (19.00 horas) na 2.ª jornada do Grupo H do Mundial é herdeira de uma história excecional, mesmo que os momentos de maior glória já estejam presos na cápsula do tempo. Ainda assim, o Uruguai continua a ser uma das grandes potências sul-americanas, partilhando com a vizinha Argentina o recorde de triunfos na Copa América, competição de seleções mais antiga do mundo, com 15 vitórias - a última delas em 2011, o único troféu conquistado no século XXI.

"Os bebés nascem a gritar golo, por isso é que as nossas maternidades são tão barulhentas. O futebol é a única religião nacional que não tem ateus. É um país minúsculo mas somos todos futebolizados. Temos um dever de gratidão para com o futebol: o Uruguai foi colocado no mapa mundial a partir do bicampeonato olímpico de 1924 e 1928." As palavras são do escritor Eduardo Galeano - também ele uma estrela (faleceu em 2015), mas na arte da escrita -, ao jornal gaúcho "Zero Hora" por alturas do Mundial 2010. O autor, que tem um dos mais apaixonantes livros sobre a modalidade ("Futebol ao Sol e à Sombra", editado em Portugal pela Antígona), também um dia quis, "como todos os uruguaios", ser futebolista. "E jogava muito bem, era uma maravilha, mas só à noite, enquanto dormia: durante o dia era o pior perna de pau que se tinha visto nos campos do meu país", escreveu na "confissão do autor" que abre a referida obra, onde passeia, em textos curtos, pela história do futebol mundial e uruguaio, pelos seus momentos bonitos, feios e cruéis. Felizmente para ele e para quem gosta de ler, não fez falta nos terrenos de jogo, que a produção de estrelas nunca parou durante o século. Foi, isso sim, interrompida durante um "período longo e triste, no qual o futebol uruguaio misturou coragem e violência": "A garra charrua foi reduzida a pancadas. Foi depois da final de 1950 que nos começámos a sujar, entrando na história de que ser valente é ser bruto. Por isso, a importância desta seleção [de 2010, cujo espírito ainda se mantém apesar de Óscar Tabárez ter sido substituído por Diego Alonso no ano passado]: ela promove o nosso reencontro com o bom futebol, sem violência e com humildade de espírito".

De potência ao Maracanazo

Recuemos então no tempo. Como em praticamente todo o mundo, o futebol chegou ao Uruguai através dos marinheiros ingleses. Em 1900 começou a disputar-se a Liga, com apenas quatro clubes e a influência britânica (mas não só) a fazer-se sentir: o primeiro campeão foi o Central Uruguay Railway Cricket Club (em 1914 mudaria o nome para Peñarol, uma das grandes formações sul-americanas, a par do Nacional, que só entraria na segunda edição - juntos conquistaram uma centena de títulos nacionais), que superou Albion, Uruguay Athletic e Deutscher Fussball Klub.

Foi assim nas margens do Rio da Prata que se forjaram as primeiras potências fora da Grã-Bretanha. De um lado Buenos Aires, do outro Montevideu. E seria o Uruguai a dominar as grandes competições internacionais pós-I Guerra Mundial, ao vencer os Jogos Olímpicos de 1924 (Paris) e de 1928 (Amesterdão), que valeram ao país a escolha como sede do primeiro Mundial (1930), onde também triunfaram (4-2 na final à Argentina). Como estrela da companhia, José Andrade, considerado o primeiro futebolista negro a representar uma seleção. Na Cidade Luz, o extremo que tinha sido músico, engraxador e ardina, ganhou a alcunha de "Maravilha Negra" e foi um dos protagonistas dessas provas (além de ter vencido por três vezes a Copa América) graças aos dribles inovadores. Mas não o único: os goleadores Pedro Cea e Pedro Petrone (conhecido por "El Artillero" e que passaria depois pela Fiorentina) também se destacaram, tal como Héctor Castro, autor do primeiro golo charrua em Mundiais, que tinha perdido um braço aos 13 anos num acidente com uma motosserra.

Declinando participar nos Mundiais de 1934 e 1938, o Uruguai voltaria a sagrar-se campeão na segunda participação, em 1950, no Brasil. Foi o famoso Maracanazo: com o icónico estádio a rebentar pelas costuras, os charruas (nome que homenageava a garra do povo nativo americano que vivia entre os rios Paraná e Uruguai), venceram a seleção local, por 2-1, conquistando o troféu Jules Rimet. Desse onze faziam parte o lendário capitão Obdulio Varela ("El Negro Jefe"), que em vez de celebrar o extraordinário triunfo acabou o dia nos botecos do Rio a consolar os adeptos brasileiros, o criativo Schiaffino, autor do golo do empate e que se tornaria figura do AC Milan, e o extremo-direito Alcides Ghiggia, que marcou o golo da vitória e rumaria a Itália, onde brilhou na AS Roma.

O Príncipe, uma geração brilhante e os "portugueses"

Depois disso, o futebol uruguaio entrou, como já referido, num período mais decadente mas continuou a gerar grandes jogadores. Pedro Rocha, "El Verdugo", que seria mais tarde treinador do Sporting na era Jorge Gonçalves, foi um deles, tendo vestido a camisola da "Celeste" em quatro Mundiais, sendo ainda hoje o terceiro melhor marcador da história dos Libertadores. Ou Enzo Francescoli, o futebolista elegante, um "Príncipe" sem corte à sua altura: brilhou no River Plate e em Marselha, onde impressionou de tal forma o jovem Zinédine Zidane, que este batizou o filho com o seu nome.

Foi então preciso esperar pelo século XXI para uma nova "fornada" voltar a impressionar (apesar do triunfo no Mundialito de 1981, novamente sobre o Brasil no jogo decisivo) o mundo e até Galeano, um crítico do materialismo que entretanto tomara conta do futebol. O Mundial 2010 juntou nomes como Diego Godín, Cavani, Luis Suárez, Cáceres (que estão no Qatar), Diego Lugano, Diego Forlán ou "El Loco" Abreu e outros bem conhecidos dos portugueses, como Maxi Pereira, Jorge Fucile ou Álvaro Pereira, numa equipa que encantou e terminou a prova em quarto lugar. E o futuro também promete: Coates, atual capitão do Sporting, já dificilmente fará parte dele, mas o talento emergente de Manuel Ugarte e, sobretudo, Darwin Núñez, que trocou o Benfica pelo Liverpool, mostra que o Uruguai estará aí para na curvas nos próximos anos. Mesmo que a estreia frente à Coreia do Sul não tenha sido brilhante.

dnot@dn.pt

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