Tragédia no Girabola. "Quem estava no estádio não imaginava o que se passava lá fora"

Sérgio Traguíl, treinador português do Santa Rita de Cássia, chocado com incidentes. 17 pessoas morreram e dezenas foram pisadas e asfixiadas.

Pelo menos 17 pessoas morreram no Uíge, norte de Angola, alegadamente ao forçarem a entrada no Estádio Municipal 4 de Janeiro, para assistirem ao jogo inaugural do campeonato, que opôs o recém-promovido Santa Rita de Cássia ao Recreativo de Libolo.

"Estamos todos em choque com o que aconteceu, estou a viver uma situação que nunca pensei viver, pois cresci a ver na televisão tragédias destas em Inglaterra, no Brasil ou na Argentina, mas nunca pensei que um dia iria passar por isto. Estamos devastados." Foi assim que o treinador português do Santa Rita de Cássia, Sérgio Traguil, falou ao DN sobre a tragédia, que marcou a estreia da sua equipa no Girabola.

Os relatos locais apontam para um incidente logo aos sete minutos de jogo, quando centenas de pessoas invadiram um dos portões do estádio, fazendo com que dezenas de adeptos fossem pisados. "Aqui os adeptos são muito fervorosos. O futebol deve ser festa e não tragédia. Isto é uma tragédia enorme que vai deixar marcas em todos", confessou o técnico natural de Portagelegre.

Traguil não percebeu logo a dimensão do caos. "Quem estava dentro do estádio não imaginava o que se passava lá fora. Só meia hora depois do jogo terminar é que tive conhecimento da tragédia. Segundo os relatos das pessoas, o cordão de segurança foi mal feito pela polícia e registou-se um grande aglomerado. Depois a polícia terá lançado gás lacrimogéneo e gerou-se a confusão. Houve pessoas asfixiadas."

O presidente do Santa Rita, revelou que, na altura em que falou ao DN, havia 17 mortos confirmados, 59 feridos dos quais cinco em estado grave. "As pessoas de Uíge adoram futebol e hoje (ontem) muita gente queria assistir ao primeiro jogo do Girabola, a polícia não alargou o perímetro de segurança em volta do acesso ao estádio e as pessoas foram empurradas... uma tragédia", contou Domingos Nzolani, abalado com os acontecimentos.

Já o treinador da outra equipa, o também português, Vaz Pinto, que viu o Recreativo do Libolo vencer o jogo (1-0), só soube da tragédia quando chegou a Luanda. "Quando o jogo estava a começar, eu estava no banco e apercebi-me que do outro lado do campo estava uma grande confusão no portão de acesso à zona dos peões, que tem lugares em pé, mas nunca pensei que tinha esta dimensão. Eu só tive conhecimento da tragédia quando cheguei a Luanda, pois tivemos de sair do estádio rapidamente para apanhar o avião", explicou, incrédulo.

O Ministério da Juventude e Desportos de Angola já solicitou às direções da Federação Angolana e da associação de futebol local, bem como às autoridades da província de Uíge, "que averiguem as causas do acontecimento e tomem as medidas que se impõem".

O jogo, esse, nunca chegou a ser interrompido. O Recreativo do Libolo de Vaz Pinto entrou a vencer no campeonato, com uma vitória no terreno do Santa Rita (1-0). Viet, ao minuto sete (o da tragédia), assinou o primeiro golo da edição de 2017 do Girabola, dando o triunfo ao vice-campeão, num jogo que fica para a história pelos piores motivos, juntando-se à lista de tragédias em estádios de futebol.

Como a de Burnden Park (Inglaterra, 1946), que fez 33 mortos; Ibrox Stadium (Escócia, 1971): 25 mortos; Estádio Nacional de Lima (Peru, 1964): 350 mortos; Valley Parade, (Inglaterra, 1985): 56 mortos; Heysel Stadium, (Bélgica, 1985): 39 mortos; Hillsborough Stadium, (Inglaterra, 1989): 96 mortos; Estádio Mateo Flores, (Guatemala, 1996): 80 mortos; ou Ellis Park(África do Sul, 2001): 43 mortos.

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