Surto de covid ameaça acabar com o conto de fadas das Comores na CAN

Tinham feito história com o apuramento e voltaram a fazer ao atingirem os oitavos de final da competição. Mas vários jogadores infetados deixam muito difícil a missão frente aos Camarões do português António Conceição.

Os oitavos de final da Taça das Nações Africanas (CAN) arrancam este domingo e a grande surpresa da prova é a seleção da União das Comores, que depois de ter feito história ao apurar-se pela primeira vez para a competição, está agora entre os 16 finalistas - foi um dos melhores terceiros classificados da fase de grupos. Mas a tarefa não será fácil no jogo de segunda-feira frente aos Camarões, devido a um surto de covid-19 que afetou 12 elementos da comitiva, entre os quais o selecionador e os dois guarda-redes, sendo que o terceiro está lesionado. E que em último caso, até poderá levar ao cancelamento do jogo, caso a seleção africana não tenha pelo menos 11 atletas disponíveis.

"É um momento difícil, estamos a tentar fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para tentar encontrar soluções, mas sem o treinador e principalmente sem os guarda-redes é bastante complicado. Mas não perdemos a esperança, vamos tentar encontrar soluções", disse o diretor El-Hadad Himidi. O protocolo da CAN diz que para uma equipa ir a jogo, preciso de ter pelo menos 11 jogadores disponíveis. Até segunda-feira logo se verá como evoluiu a situação.

Mas a fé é a última a morrer nesta seleção que está a viver um conto de fadas. Depois de derrotas com o Gabão e com Marrocos no Grupo C, a seleção orientada pelo francês Amir Abdou venceu o Gana na última jornada, por 3-2, e carimbou o passaporte para mais um feito histórico como um dos melhores terceiros classificados.

Um selecionador com visão

O grande protagonista da evolução desta seleção é o treinador Amir Abdou, que está há oito anos (desde 2014) à frente das Comores. Antigo treinador de um clube amador da VI divisão francesa, e que tem como referências Diego Simeone e Carlo Ancelotti, pôs mãos à obra para desenvoler o futebol do país. Deu início a um processo de recrutamento de jogadores nascidos em França, mas com descendência. E assim montou uma seleção que está a dar que falar.

O guarda-redes Salim Ben Boina joga na V Divisão francesa e chegou a representar a seleção gaulesa de... futebol de praia (no jogo contra Marrocos defendeu um penálti). Outro que se destaca é o extremo Said Bakari, que atua no Waalwijk, do escalão maior do futebol holandês. Faiz Selemani, do Kortrijk, da Bélgica, joga como lateral direito.

Os centrais Zahary e M"Dahoma, e o lateral direito Youssouf, representam todos equipas da II Divisão francesa. Já o médio Rafidine Abdullah, que fez a formação no Marselha, tem experiência do futebol espanhol, onde atuou duas temporadas no Cadiz na II Divisão do país vizinho.

Mas a maior referência está no ataque e chama-se El Fardou Ben Nabouhane, que representa o Estrela Vermelha, da Sérvia, e marcou um dos golos decisivos na vitória sobre o Gana - foi também o primeiro comorense a marcar um golo na Liga dos Campeões em 2019.

De 198.º para 132.º do ranking

Desde 2014, o nível da equipa tem vindo a subir. Prova disso foi o salto que deram desde então no ranking da FIFA - de 198.º para o 132.º lugar. "Já não nos podemos esconder", avisou o selecionador antes do início da fase de qualificação da CAN, quando a União Comores se apurou deixando para trás o Quénia e o Togo, e após um empate histórico com a seleção do Egito de Mohamed Salah.

"Foi um longo processo, mas com muita perserverança e determinação conseguimos construir uma equipa competitiva. Foi preciso esperar seis, sete anos, para termos bases sólidas, que era o mais importante. Depois fomos ganhando confiança e com muito trabalho conseguimos chegar a este patamar", referiu há uns dias o selecionador Amir Abdou.

"Se acreditava conseguir chegar aos oitavos de final? Sabíamos que estávamos num grupo difícil. Mas no futebol temos de acreditar sempre. Somos uma seleção competitiva, mesmo perante adversários muito mais fortes do que nós. Tínhamos uma palavra a dizer e acho que não fizemos nenhum papel ridículo na prova", acrescentou.

Agora, o sonho é o limite para esta seleção de um país situado no leste de África e com uma situação política e social complicada, com mais de 20 golpes de estado em 50 anos, que foi formado depois da independência, em 1979, e que só em 2003 se filiou na Confederação Africana de Futebol e em 2005 reconhecida pela FIFA.

Na segunda-feira a seleção disputa o maior jogo da sua história, frente aos poderosos Camarões, anfitriões da prova que são treinados pelo português António Conceição. Só que a missão será ainda mais complicada devido ao surto de covid que rebentou no plantel e que infetou 12 elementos da comitiva, entre eles vários jogadores e o selecionador, e que até poderá colocar em risco o jogo caso não haja 11 jogadores disponíveis.

nuno.fernandes@dn.pt

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