Sporting. Manter o estilo dos últimos anos à espera de novidades no mercado

Os leões começarem hoje os trabalhos de pré-temporada, numa altura em que o treinador Rúben Amorim ainda não sabe se vai ter de modificar a sua "sala das máquinas". Com Palhinha e Matheus Nunes em risco de deixar Alvalade, a única contratação até ao momento é o defesa-central St. Juste. Augusto Inácio não acredita em grandes mudanças em relação à forma da equipa jogar.

E se corre bem?" A pergunta lançada por Rúben Amorim no dia da sua apresentação como treinador do Sporting, em Março de 2020, foi respondida de forma positiva, superando todas as expectativas, apesar do final de temporada que nem acabou propriamente da melhor forma, com a equipa a deixar escapar a qualificação direta para a fase de grupos da Liga Europa no último minuto da última jornada. Esta segunda-feira, o técnico que Frederico Varandas resgatou ao Sp. Braga começa a terceira temporada de início no clube e o balanço é francamente positivo: uma Liga, duas Taças da Liga, uma Supertaça, duas qualificações para a fase de grupos da Liga dos Campeões e valorização de vários jogadores, um sucesso construído graças a uma equipa extremamente competitiva, mistura de experiência e juventude.

Para além dos exames e dos primeiros treinos na Academia (ainda sem os internacionais, que têm mais uns dias de férias), o Sporting vai efetuar depois um estágio no Algarve entre 10 e 20 de Julho . Estão já agendados cinco jogos de preparação com Casa Pia (4 de junho), St. Gilloise (13), Villarreal (14), AS Roma (19), Portimonense (em princípio dia 20), Sevilha (24 para o Troféu Cinco Violinos) e Wolverhampton (30), mas a ação a sério só mesmo na primeira ronda da Liga, prevista para o fim de semana de 6 e 7 de agosto.

E essa prova é, para Augusto Inácio, antigo jogador e treinador campeão pelo Sporting, o principal alvo da equipa para a nova temporada: "Reconquistar o título é sempre o objetivo dos grandes, partem sempre com isso em mente, é o principal. Depois há as outras competições internas, que também se pensa sempre em ganhar. Já na Liga dos Campeões, aí sim, é que é mesmo jogo a jogo, para ver até onde se pode ir. Creio que a perspetiva será sempre tentar passar a fase de grupos, independentemente de ficar no pote 3 do sorteio, algo que reduz um bocado as hipóteses, pois apanham-se quase de certeza dois colossos europeus."

De resto, não se esperam grandes mudanças na filosofia para 2022/23: Rúben Amorim deve continuar a apostar no 3x4x3 que tanto aprecia e, até agora, não se verificaram grandes mudanças no plantel. Feddal saiu, Pablo Sarabia e João Virgínia terminaram os respetivos empréstimos e o clube apenas confirmou oficialmente a chegada do defesa-central neerlandês Jeremiah St. Juste. Os leões exerceram também as opções de compra de Pedro Porro e Rúben Vinagre, mesmo que o lateral espanhol seja alvo de cobiça. Já a contratação do médio japonês Hidemasa Morita (Santa Clara) ainda carece de oficialização (o jogador até já tem trabalhado em Alcochete e só deve ser apresentado em julho), enquanto a do guarda-redes uruguaio Franco Israel (Sub-23 da Juventus) parece ter-se complicado.

Não faz sentido mudar

"Rúben Amorim não vai mudar, nem a forma de jogar nem o discurso. O Sporting está há dois anos com este tipo de jogo, nos treinos trabalham assim, os jogos são sempre assim, não faz sentido agora mudar o sistema, até porque as aquisições que o clube tem feito são mesmo para isso, para jogar no 3x4x3. O discurso também vai continuar a ser o do jogo a jogo, porque é mais fácil lidar com isso do que dizer "nós estamos aqui para ser campeões"", assinala o antigo internacional, acrescentando que o treinador leonino podia alterar algo nesse capítulo: "Toda a gente já percebeu que o Sporting vai lutar pelo título e isto não é uma crítica ao discurso do Amorim, pois se alguém sabe discursar é ele. Mas é evidente que se um discurso é repetitivo, as pessoas podem começar a ficar cansadas."

No entanto, a grande dúvida reside mesmo no meio-campo, onde moram os dois jogadores com mais mercado do plantel: João Palhinha e Matheus Nunes. A saída do primeiro para os ingleses do Fulham é praticamente um dado adquirido - com o uruguaio Ugarte a alinhar-se como a primeira opção, depois de ter conseguido, em vários momentos da última época, ganhar a titularidade ao português - mas uma dupla partida pode obrigar Rúben Amorim a reformular muito as coisas, pois ambos têm constituído a "sala das máquinas" que faz mexer a equipa.

Uma ideia partilhada por Augusto Inácio. "O Sporting ficando sem Palhinha - merecia um clube muito melhor para a carreira dele, mas aqui o que manda é o cifrão - tem o Ugarte, que também é um excelente jogador e não é por aí que fica descalço. Com o Matheus Nunes não é tão fácil. O Morita é um bom jogador mas como o Matheus, com aquela idade, aquela vontade e fome, não há no futebol português. O Bragança tem outras virtudes, é mais um organizador. O clube tem de arranjar um jogador com aquelas características, o jogo do Rúben Amorim passa muito por aí, ter um médio que faça o box-to-box e o outro mais fixo nas tarefas de resguardar as costas dos extremos e do colega que sobe. Para conjugar tudo isso é preciso "aquele" jogador", sublinha Inácio.

O antigo defesa considera que o reforço japonês até o pode fazer mas não sabe "se conseguirá jogar sem bola nos espaços como o Rúben quer", afinal, "no Santa Clara era um jogador que enchia o meio-campo, o jogo passava todo por ele mas no Sporting a bola tem de passar por todos, não é só por um. Quando se quer comparar não há ninguém igual ao Matheus". Além disso, também não acredita que Pedro Gonçalves possa desempenhar esse papel. "É um finalizador exímio mas não me parece que seja muito participativo nas tarefas defensivas e isso pode ser mau ou bom. Mau porque o Sporting pode precisar de mais uma unidade para defender o meio-campo e fazer recuperação de bola. Bom porque fica mais fresco mentalmente e na hora da finalização consegue ser mais eficaz. Não creio que faça esse lugar", assinala.

Estrutura mental

De qualquer forma o "mercado está em evolução e até ao fecho vai haver notícias todos os dias e falatório em relação aos três grandes". "Ainda há uma grande indefinição em todos, estão longe de terem o plantel completo - e a qualquer momento pode haver interesse de fora nos seus jogadores, o que pode atrapalhar. Por isso, os clubes têm de ter um leque de hipóteses para quando sair um, haver outro já previsto e não estar à espera que venha o empresário dizer que tem ali este ou aquele jogador. Quem não tem dinheiro precisa de esgravatar para encontrar o melhor negócio ao melhor preço", refere.

Mas no que ao Sporting diz respeito, o técnico acredita que houve uma "evolução na estrutura mental do clube". "O Sporting não foi campeão mas gostei da consistência da equipa. Falhou naqueles momentos que não o podia e também teve azar, porque apanhou com um super FC Porto. Quando um adversário faz 91 pontos está tudo dito, só não era campeão com algum milagre. Claro que o Sporting podia ter dado mais luta até ao fim, porque acabou por motivar o adversário quando perdeu esses pontos. Ainda assim, se me dessem a escolher agora, antes de começar a Liga, eu aceitava os 85 pontos feitos nas últimas duas época, é muito ponto! Sobretudo num clube que normalmente em dezembro já estava fora de competição. Mas o Rúben Amorim mudou esse paradigma e o mérito tem de lhe ser dado, a ele e aos jogadores", assumiu Inácio.

dnot@dn.pt

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