Rio2016. Histórias por contar

Da depressão profunda ao ouro aos 35 anos, da batalha contra o cancro à luta pelas medalhas. Os Jogos Olímpicos são assim, férteis em histórias de superação. Não há momento nem lugar tão inspiradores para um atleta desafiar as suas próprias capacidades. Alguns ultrapassam infâncias atribuladas antes de encontrarem a glória olímpica, mostrando o quão democrático pode ser o desporto. O DN conta-lhe as histórias de Ervin, Isaquias, Santiago, Sakshi e Asuka, cinco exemplos de vida que brilharam nas margens do Rio.

O menino Sem Rim foi ao pódio três vezes

Da pequena cidade de Ubaitava, no interior da Bahia, à glória olímpica no Rio passaram apenas 22 anos. É essa a idade do canoísta Isaquias Queiroz, um dos heróis brasileiros nos Jogos de 2016. Durante as três vezes que subiu ao pódio (prata no C1 1000m, bronze no C1 200m e prata no C2 1000m), é provável que lhe tenham passado pela cabeça várias imagens da sua infância difícil. Porque foram muitas.
Desde pequeno que Isaquias se habituou a operar pequenos milagres. Com apenas três anos, esteve perto de morrer queimado, depois de um acidente com uma panela de água a ferver. Ao fim de um mês no hospital, a mãe decidiu levá-lo para casa, assinando um termo de responsabilidade, contra todas as recomendações. O menino sobreviveu e a sua força ganhou reputação, causando inveja na população.
Todos queriam tirar o menino dos braços da dona Dilma, que cuidava de Isaquias e dos seus nove irmãos - quatro deles adotados - desde que o seu pai morrera, um ano antes. Por isso, era frequente os miúdos ficarem em casa quando a mãe ia trabalhar. Num desses dias, o miúdo foi sequestrado por uma mulher que já tinha deixado no ar essa ameaça. A mãe viria a encontrá--lo mais tarde, abandonado.
Essa foi apenas uma de muitas peripécias de uma juventude conturbada. Com apenas dez anos, Isaquias tentou trepar a uma árvore e caiu de costas sobre uma pedra. Teve uma hemorragia interna e acabou por perder um rim. Não é de estranhar que, quando começou a praticar canoagem, um ano depois, tenha ganho a alcunha de Sem Rim. Agora é o maior medalhista olímpico do Brasil numa edição dos Jogos.

A velocidade não tem idade na piscina

Quando irrompeu como uma bala pela piscina olímpica de Sydney, em 2000, surpreendendo a concorrência para levar o ouro nos 50 metros livres, Anthony Ervin era um jovem de 19 anos a quem todos auguravam um futuro brilhante. O que se passou nos 16 anos que se seguiram, entre drogas e uma depressão profunda, só ajudou a fazer do seu percurso um dos regressos mais impressionantes da história dos Jogos.
Ervin já não tem a medalha de ouro que conquistou na Austrália (também foi prata na estafeta 4x100 m). Leiloou-a na internet e doou o dinheiro a um fundo de ajuda contra tsunamis. Foi uma das decisões impulsivas que tomou desde que se retirou das piscinas, com apenas 22 anos. A partir daí, foi sempre a descer: tentou encontrar-se formando uma banda de rock, experimentou uma curta carreira de DJ, cedeu à tentação das drogas e acabou por cair numa depressão que o deixou perto do suicídio.
Até que voltou a encontrar nas piscinas a motivação para se recompor, regressando aos treinos em 2011, ainda a tempo de se qualificar para os Jogos do ano seguinte. Sempre elas, as mesmas piscinas salvadoras, onde descarregou toda a sua energia durante a adolescência, quando descobriu que sofria de síndroma de Tourette.
E se em Londres não passou do quinto posto, no Rio tornou-se o nadador mais velho a vencer uma prova individual (dias depois de Phelps ter batido esse recorde). Aos 35 anos, Ervin mostrou que a velocidade não tem idade, derrotando o francês Manaudou por um centésimo de segundo. E ainda reforçou a proeza, vencendo novo ouro pela estafeta dos Estados Unidos na prova de 4x100 m livres.

Primeiro venceu o cancro, depois ganhou o ouro

A história de Santiago Lange é mais um exemplo de superação olímpica capaz de nos deixar boquiabertos. Primeiro, venceu o cancro, depois o ouro. Em setembro de 2015, o velejador argentino entrava numa sala de operações para remover um tumor que lhe atacara um dos pulmões. Menos de um ano depois, subia ao pódio no Rio de Janeiro para ouvir o hino do seu país.
Nem os 54 anos de Santiago, um dos mais velhos atletas a competir no Brasil, foram um obstáculo suficientemente poderoso para o travar. Ao lado da compatriota Cecília Carranza, conquistou a primeira medalha de ouro para a Argentina na história da vela olímpica, na classe Nacra 17 (em estreia no Rio).
O veterano sul--americano já tinha duas medalhas olímpicas no currículo, pois tinha sido bronze em Atenas e Pequim. Mas esta teve um significado especial, por representar uma vitória numa batalha bem mais dura. E porque Santiago teve ao seu lado os filhos Yago e Klaus, a competir pela primeira vez nos Jogos, na classe 49er.
O homem que se mudou para o Rio, em novembro de 2015, de forma a preparar-se para este momento, chegou a ver o sonho escapar-lhe por entre os dedos. Devido a uma penalização, Santiago e Cecília foram obrigados a partir do último posto na regata decisiva, tendo de escalar até ao topo para resgatar o ouro.
O "avô da vela" ainda não está preparado para abandonar a embarcação. "Enquanto o meu corpo o permitir, vou continuar a velejar", afirmou, emocionado, prometendo trabalhar para marcar presença em Tóquio, 2020.

Uma medalha contra a discriminação

O bronze da indiana Sakshi Malik no Rio foi um marco na história do desporto daquele país. O facto de ter sido primeira mulher a ganhar uma medalha olímpica para a Índia na luta livre teve um significado especial, elevando-a ao estatuto de heroína nacional.
O trajeto para alcançar este feito, porém, não se revelou nada fácil. Malik é natural do estado de Haryana, onde durante muito tempo as mulheres estiveram proibidas de participar em provas de luta. Por isso, a sua medalha foi também um soco no estômago da discriminação de género.
Apesar de todos os desafios que teve de ultrapassar, Malik, de 23 anos, contou sempre com a ajuda dos seus pais. Mesmo quando as pessoas tentaram convencê-los de que, se perseguisse este sonho, a sua filha se tornaria indesejável para futuros pretendentes, pelas características físicas que viria a desenvolver.
É o preço a pagar por ter nascido num dos estados mais conservadores do seu país, muitas vezes associado à prática de feticídio feminino. Só a partir de 2002 as mulheres de Haryana foram autorizadas a treinar com homens. Ainda assim, as três lutadoras indianas presentes no Brasil eram naturais daquele estado.
Inspirada pelo seu avô, antigo praticamente da modalidade, Malik "salvou" a prestação indiana nos Jogos e rapidamente se transformou numa estrela. Até o primeiro-ministro, Narendra Modi, fez questão de transmitir o seu orgulho pela façanha daquela a que chamou "filha da Índia."

O japonês que "voa" com genes jamaicanos

Quem acompanhou com atenção a surpreendente prestação da estafeta japonesa na corrida de 4x100 metros talvez tenha estranhado a presença de um velocista negro na equipa. Mas certamente não lhe terá passado despercebida a importância de Asuka Cambridge, filho de pai jamaicano, na medalha de prata conquistada pelos nipónicos.
"Pássaro voador". É esse o significado de Asuka, o primeiro nome de Cambridge, que nasceu na Jamaica mas foi criado no Japão, terra da mãe, desde os dois anos. Foi no País do Sol Nascente que começou a sprintar: primeiro durante o ensino secundário, em Tóquio; depois na universidade, onde estudou ciência e literatura.
Cambridge, 23 anos, não foi além da semi-final na prova individual. O seu recorde pessoal ainda está acima dos 10 segundos. Até aos próximos Jogos, nos quais vai correr em casa, é provável que se torne no primeiro velocista japonês a baixar essa fasquia. É uma das grandes esperanças do atletismo japonês para Tóquio, 2020.
Como é que uma seleção sem qualquer participante na final individual dos 100 metros consegue uma medalha na estafeta? O trabalho de equipa, juntamente com Shota Ilzuka, Yoshihide Kiryu e Yamagata, foi decisivo para a surpresa protagonizada por uma nação sem tradição na velocidade. Isso e o sangue jamaicano que corre nas veias de Cambridge, que promete continuar a treinar arduamente para alcançar a sombra do seu ídolo... Usain Bolt.

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