Lima está "perigoso" no meio de jacarés, corujas e capivaras

Português entrou bem, num campo que foi construído por uma empresa nacional e que faz parte de um amplo projeto ambiental

"No buraco 10 há um. Estava ali quietinho a olhar para nós. Não sei se bateu palmas [risos]. O golfe também é isto, estar no meio da natureza." O golfista português Filipe Lima, que ontem se estreou no torneio olímpico, terminando o primeiro dos quatro dias de prova no 17.º lugar (70 pancadas, uma abaixo do par), falava de um jacaré-de-papo-amarelo, um dos muitos animais que habitam no campo onde se vão disputar as provas. Mas a lista é mais extensa e no meio de tanta fauna há quem espere não ter uma surpresa desagradável, como é o caso do voluntário Luiz Santos: "Tomara que não tenha onça [risos]." Não existem relatos da presença de onças, mas neste campo vivem cobras como jararacas e jiboias, corujas, bichos-preguiça, capivaras e vários quero-quero, o nome popular dado a uma ave local devido ao som que emite e que se cruzaram várias vezes com os shots de Ricardo Melo Gouveia, o outro português em competição (42.º, 73 pancadas, duas acima do par), durante o tempo em que o DN seguiu o percurso do golfista madeirense. Por todo o perímetro do campo, que assinala o regresso do golfe ao Jogos Olímpicos após uma ausência de 112 anos, estão espalhados avisos sobre a presença destes animais. Não pelo perigo que representam, que a organização garante não existir, mas antes a solicitar a ajuda de todos na conservação das espécies.

O campo de golfe Reserva Marapendi, construído junto à lagoa com o mesmo nome, faz parte de um amplo projeto de requalificação desta zona do Rio de Janeiro, no bairro da Barra da Tijuca. "Durante os últimos seis anos foi feito um trabalho muito sério do ponto de vista ambiental por parte da empresa brasileira ECP, que foi reconhecido e premiado internacionalmente. Todos os animais que aqui vemos já cá estavam antes, só que em menor número. A recuperação desta zona permitiu que a população crescesse", conta ao DN Tânia Braga, gerente-geral de sustentabilidade, acessibilidade e legado do Rio 2016. Hoje, o local é casa de 245 espécies de plantas e animais, o dobro do que existia antes da construção. Em redor, estão também a ser levantadas mais três enormes torres para habitação. E o campo vai ficar com um dos legados dos Jogos: no final da competição será um espaço público. "Vai ser entregue à Confederação Brasileira de Golfe e aberto à população. A contrário do que acontece com outros campos, aqui não vai ser preciso ser membro de um clube, pagar quota, para se poder jogar", acrescenta a responsável da organização.

Construção portuguesa

Por trás da construção do campo, que Filipe Lima disse "não ter erros", esteve uma empresa portuguesa, a Golfscape/Progolf - os nomes das sedes em Portugal (Almancil) e Brasil (São Paulo). Coube a esta companhia executar o desenho do norte-americano Gil Hanse, que é considerado "um génio dos campos de golfe" por António Miranda, o português natural de Guimarães que foi o empreiteiro da obra. "Este desenho é ecologicamente consciente. É de génio. Durante os trabalhos optámos por trabalhar com a natureza e não contra ela. A única planta que não é nativas é a própria relva, que foi criada no Texas, em San Antonio [EUA], reproduzida no Rio de Janeiro e, finalmente, transplantada para a Barra da Tijuca", disse ao DN o constructor manager da empresa, que também está encarregada da manutenção do campo. Quando falou com o DN, estava precisamente a coordenar esse trabalho nos buracos por onde os golfistas já tinham passado. Debaixo de muito vento, importava deixar tudo pronto para hoje a competição ser retomada. António Miranda, 42 anos, deixou Portugal há oito, quando saiu para construir um campo em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos. Está no Brasil desde 2010 e o campo olímpico é o seu segundo projeto no país (o primeiro foi em São Paulo). Agora, no Rio, coordena uma equipa de 90 pessoas - "40 residentes, brasileiros e portugueses, e 50 voluntários de dez países diferentes e que falam quatro línguas distintas", que já está habituada a trabalhar rodeada dos animais que ocuparam a zona. "Em todos os campos acontece isso. O habitat que se cria acaba por chamar os animais. Os campos de golfe são como bunkers para eles. Por serem áreas amplas, bem cuidadas e com acesso restrito, oferecem-lhes mais proteção", explica ao DN, antes de confessar o "orgulho" pelo seu papel na obra. No final da prova regressa a Portugal, onde também está envolvido na construção de um campo em Óbidos.

Lima satisfeito

Após o primeiro dia de competição, o líder é o australiano Marcus Fraser, que concluiu o percurso com 63 pancadas, oito abaixo do par. Filipe Lima terminou o dia com 70 pancadas no grupo dos 17.os classificados e ficou feliz com o seu desempenho. O golfista diz que está a sentir-se "perigoso" no Rio. "Entrei um pouco a tremer, porque é a primeira vez que estou a disputar uns Jogos Olímpicos, mas depois de bater os primeiros shots as sensações dos torneios voltam. Gosto muito de estar em condições de stress, porque estou mais focado. Joguei bem até ao final", disse Lima, acrescentando que tanto ele como Ricardo Melo Gouveia podem ambicionar chegar ao ouro, porque os favoritos no golfe estão sempre a mudar. "Estou a jogar bastante bem, estou muito bem nos greens e todos sabem que quando estou bem nos greens sou perigoso", frisou, recordando que tinha o sonho de vir ao Rio desde o momento em que a modalidade foi confirmada nos Jogos. Nascido em França, Lima podia hoje estar a representar outro país, mas salienta que "o sangue falou mais alto" na hora de decidir jogar por Portugal. Já Melo Gouveia segue no grupo dos 42.os, com duas pancadas acima do par.

"Há um pouco mais de pressão por estarmos a representar o nosso país. Senti isso no início, mas depois o jogo foi melhorando. Só foi pena os putts não terem entrado", afirmou.

Enviado ao Rio de Janeiro

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