Inesperada primeira medalha olímpica inspirou três gerações

Portugal conquistou a sua primeira medalha em Paris, em 1924. Família de Hélder de Sousa Martins continua legado do cavaleiro

Uma medalha olímpica é sinónimo de esforço, suor, muitas vezes lágrimas e um inimaginável nível de superação. Vencê-la é um momento de enorme glória para o atleta em questão, mas também para o seu país. Para Portugal, a caminhada nessa estrada de glória começou em Paris, em 1924. Aníbal Borges de Almeida, Hélder de Sousa Martins, José Mouzinho de Albuquerque e Luís Cardoso Menezes foram os protagonistas.

Na primeira vez que Portugal participou em provas de hipismo nuns Jogos Olímpicos, a equipa nacional chegou ao bronze na categoria de obstáculos. Estava assim conquistada a primeira medalha portuguesa na história das olimpíadas. A liderar a equipa estava o tenente-coronel Manuel Latino.

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O próprio, no relatório da participação nacional em 1924, que está na posse do arquivo histórico do Comité Olímpico de Portugal, refere que a prestação da equipa foi "magnífica", dadas as condições.

"Embora se reunisse o melhor que frequenta as nossas pistas, eles estavam longe, bem longe mesmo, da categoria dos seus adversários e a nossa vitória mais se deve à alma dos nossos cavaleiros, à sua coragem inexcedível, à confiança absoluta em cumprir a sua missão, do que ao valor dos seus cavalos que, porque não dizê-lo, eram olhados com desprezo", escreveu então Manuel Latino.

Três gerações de cavaleiros

"A medalha ditou a vida da família, praticamente. Tudo foi passando de pai para filho. O meu pai é como o vértice da pirâmide, depois venho eu, os meus filhos e os meus netos. Mas todos nós destacamos sempre o palmarés do meu pai: foi a três Jogos Olímpicos e ganhou cerca de 800 prémios na sua carreira", diz ao DN José Martins, de 83 anos, filho de Hélder de Sousa Martins, um dos autores da proeza dos cavaleiros portugueses, em Paris, há quase um século.

Relembrando "com saudade" o pai, destaca a influência que este teve na sua vida pessoal e profissional. José queria ser oficial de cavalaria, mas acabou por ser veterinário.

"O meu pai teve uma importância muito grande. Transmitiu-me uma maneira de estar e uma formação que eu não esqueço e procurei transmitir aos meus filhos", afirma, enquanto mostra, orgulhoso, a medalha de 1924 e algumas fotos do pai.

Também com um espólio de troféus considerável, José conta que a família já vai na quarta geração de cavaleiros. Dos seus cinco filhos, duas raparigas e três rapazes, todos participaram em concursos, incluindo um campeonato da Europa. José venceu, inclusivamente, um troféu por equipas com um dos seus filhos, Manuel.

Reginald, Avro, Hebraico e Profond eram os cavalos da proeza de 1924

"Os meus filhos concursaram todos. O meu filho António ainda o faz, o Manuel fez um Campeonato da Europa e é agora juiz internacional. O Gonçalo também ainda anda a cavalo e o seu filho, o Gonçalinho, é profissional", frisou.

Gonçalinho, como é carinhosamente tratado pelo avô, tem 23 anos e faz de andar a cavalo a sua vida. Apesar da distância temporal que o separa do seu bisavô, o medalhado Hélder de Sousa Martins, que acabaria por morrer aos 55 anos, o jovem cavaleiro ainda recebeu os seus ensinamentos.

"Sempre ouvi muitas histórias sobre ele [bisavô]. Ele participou em três Jogos Olímpicos, mas os de Paris eram sempre os mais falados. Faz parte da família, ele é que começou a tradição em relação aos cavalos. Desde pequeno que vejo aquela medalha e também quero uma [risos]", refere.

Gonçalinho diz ainda que "desde pequeno" que o avô lhe transmite os valores transportados pelo homem responsável pela primeira geração de cavaleiros na família. "O meu avô sempre me disse que não era um desporto fácil e que temos de tratar os cavalos como animais e não como máquinas. Penso que a principal mensagem que o meu bisavô deixou ao meu avô, e que chegou também até mim, é que com esforço e dedicação tudo se consegue", acrescenta.

Sem bandeira não há festa

Na história olímpica portuguesa, o hipismo ainda haveria de ser responsável por mais duas medalhas, em 1936 e em 1948 (ver cronologia das medalhas portuguesas, ao lado). Mas já há quase 70 anos que os cavalos e cavaleiros lusos não chegam a um pódio.

Os pioneiros, esses, ganharam a eternidade. Reginald, montado por Aníbal Borges de Almeida; Avro, com Hélder de Sousa Martins; Hebraico, com José Mouzinho de Albuquerque; e Profond, com Luís Cardoso de Menezes, foram os cavalos dos atletas que, nessa terceira participação portuguesa em Jogos Olímpicos, conseguiram então alcançar a primeira medalha.

Nessa edição, a equipa portuguesa chegou a Paris com oito dias de antecedência e dois cavalos doentes, ao contrário dos demais países, com meses de preparação e cavalos comprados e preparados especialmente para o evento, conforme se pode ler no livro Jogos Olímpicos - Os nossos medalhados, de Norberto Santos.

Mas, ao contrário do esperado, a equipa portuguesa chegou mesmo às medalhas e Aníbal Almeida até foi 5.º na geral individual. Hélder Martins (12.º) e José Mouzinho de Albuquerque (16.º) também contribuíram para a medalha, dado que só contavam os resultados dos três melhores cavaleiros. Luís Cardoso de Menezes terminou na 21.ª posição.

Conquistado o bronze, surge algo ainda mais inesperado: não existia uma bandeira portuguesa para hastear. Os cavaleiros portugueses recusaram-se a subir ao pódio e a entrar no desfile sem verem a sua bandeira ao vento.

Eventualmente, dois bocados de tecido, um vermelho e outro verde, foram cosidos, e lá surgiu uma improvisada "bandeira" de Portugal, relembra José Martins, filho do medalhado Hélder de Sousa Martins. Foi a primeira bandeira portuguesa num pódio olímpico.

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