Kipchoge. O maratonista de ouro que ameaça a barreira das 2 horas

Queniano bateu o Recorde Mundial da Maratona (2:01:09) ao retirar 30 segundos à sua anterior marca. Tem 37 anos e quer estar nos Jogos Olímpicos de Paris 2024.

Eliud Kipchoge está cada vez mais perto de baixar a barreira das duas horas na maratona numa prova oficial. Este domingo retirou 30 segundos ao Recorde Mundial, que já era seu, ao completar a Maratona de Berlim em duas horas, um minuto e nove segundos (2:01:09). O queniano Mark Korir terminou em segundo, atrás do compatriota, com um tempo de 2:05:58, enquanto o etíope Tadu Abate ficou em terceiro, com 2:06:28.

A prova feminina também foi muito forte. Tigist Assefa ganhou a sua segunda maratona, fazendo o terceiro melhor tempo da história (com 2:15:37), só atrás da queniana Kosgei e da britânica Paula Radcliffe. Rosemary Wanjiru, do Quénia, foi segunda e a etíope Tigist Abayechew terceira.

A prova masculina correu de feição a Kipchoge. No final, confessou que se deixou "embalar", mas alguns especialistas acreditam que o Recorde do Mundo foi o plano B, depois de um erro estratégico que o impossibilitou que acabasse os 42,2 km abaixo da mítica barreira das 2 horas. Será? "As minhas pernas estavam muito rápidas e eu quis tentar bater as duas horas. Sabia que era capaz de bater o Recorde do Mundo e a partir dos 38 Km percebi que era possível. Estou feliz com a corrida", confessou o queniano de 37 anos.

Nas estradas de Berlim, que assistiram a oito recordes mundiais desde 2003, os etíopes Guye Adola e Andamlak Belihu foram os únicos a dar-lhe luta, mas só aguentaram o ritmo do queniano até aos 10km, quando todos passaram em 28:3, abaixo do Recorde Mundial. Adola cedeu a partir daí, mas Belihu ainda deu luta até aos 25 km, quando o queniano de 37 anos começou a deixar o etíope para trás. A 15 km do final estava um minuto mais rápido do que a sua melhor marca, mas quebrou fisicamente a 2 km da meta e a barreira das duas horas passou a ser uma miragem, cortando a meta ao fim de 2:01.09 horas e com um novo recorde do mundo.

No final ainda teve energia para socar o ar e abraçar o seu treinador, Patrick Sang. Foi a 2.ª vitória do ano para o maior maratonista da história (tinha vencido em Tóquio, em março) e a quarta em Berlim, juntando-se assim ao etíope Haile Gebrselassie, que ganhou o evento de 2006 a 2009.

O queniano possui um recorde inigualável na maratona. Andou dez anos a bater recordes nos 1500m, 5000m (foi Campeão Olímpico em 2008) até se capacitar para as longas distâncias. Estreou-se na Meia Maratona de Lille em 2012 e passados uns meses venceu a Meia Maratona de Barcelona, antes de passar para os 42,2 Km. Foi em abril de 2013, na Maratona de Hamburgo, que venceu com o tempo de 2:05:30, recorde do percurso alemão que se mantém até hoje. A primeira das 15 (em 17) maratonas que venceu, incluindo as duas que lhe deram o ouro Olímpico (Rio 2016 e Tóquio 2020).

Aos 37 anos (nasceu em Kapsisiywa, no dia 5/12/1984) o queniano garante que "a mente está boa e o corpo ainda está a absorver os treinos e as provas" e, por isso, aponta já a Paris 2024, quando terá perto de 40 anos. "Sempre digo que não acredito em limites, sei o que são limites, mas para mim nenhum humano tem limites."

O recorde não reconhecido

Correr a maratona em menos de duas horas continua a ser um objetivo para Kipchoge. Ele já o conseguiu, mas a marca não foi considerada porque foi feita num evento não-oficial e em condições favoráveis.

O chamado Desafio INEOS aconteceu em Viena, em 2019, com o Campeão Mundial e Olímpico a fazer a prova em 1:59:40 horas e mostrar que era (e é) possível fazer 42, 2km em menos de duas horas. "Corro para provar que não existe limite para a raça humana. Estou muito feliz em ter entrado para a história. Espero que, depois de hoje, mais pessoas consigam completar uma maratona em menos de duas horas", confessou aquele que é considerado o maior maratonista de todos os tempos.

Kipchoge vive e treina num modesto centro desportivo queniano - o Global Sports Communication -, em Kaptagat, a 2500 metros acima do nível do mar, berço de alguns dos melhores atletas de longa distância.Além de Kipchoge, há os casos de Moses Tanui e Brimin Kipruto.

O Campeão Olímpico passa oito meses por ano lá, onde a pista é de terra e tem buracos, onde não existem máquinas sofisticadas de exercícios, onde há vacas a pastar e galinhas por todo o lado, onde cada um faz a sua cama e onde existem turnos de limpeza dos balneários. Porque Kipchoge pode até ser um milionário do atletismo, mas também é o campeão da humildade.

isaura.almeida@dn.pt

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