Portugal despede mais treinadores do que as principais ligas europeias

Esta temporada, no principal escalão, já houve 12 mudanças de comando técnico em 22 jornadas, mais do que a Premier League e Liga Espanhola... juntas. Manuel José deixa duras críticas a esta tendência e culpa os dirigentes, que são incapazes de traçar projetos a longo prazo.

Há quem diga que os treinadores portugueses são os melhores do mundo, à boleia do volume de técnicos que o país projeta para a alta roda do futebol, mas em Portugal continuam a ser o elo mais fraco quando as vitórias não aparecem. E sucedem-se os despedimentos.

Esta temporada, em 22 jornadas já houve 12 mudanças de comando técnico na I Liga portuguesa, a que tem o registo mais alto entre os seis campeonatos melhor cotados na hierarquia europeia. Embora com mais jornadas disputadas e mais clubes, a Premier League contabiliza apenas duas mudanças, a Liga Espanhola cinco, a Serie A seis e a Liga Francesa nove. Na Bundesliga, onde tal como no campeonato português há 18 equipas, houve oito alterações de treinador.

No entanto, o que tem acontecido esta época não é caso isolado. A tendência para liderar nas mudanças de treinadores entre as seis principais ligas europeias já vem de trás e, no entender do antigo treinador de Sporting, Boavista e Benfica, Manuel José, a culpa é dos dirigentes. "Portugal também é o país em que o nível de dirigismo desportivo é do pior que há. Temos de partir por aí", atirou o algarvio de 74 anos ao DN.

Tiago foi o primeiro

O antigo médio internacional português Tiago, em estreia como treinador principal em 2020-21 à frente do Vitória de Guimarães, deu o pontapé de saída nas mudanças de comando técnico logo após a 3.ª jornada, apresentando a demissão a 8 de outubro. João Henriques, ex-Santa Clara, foi anunciado como sucessor.

Silas, que levava 35 dias ao leme do Famalicão, e o brasileiro Milton Mendes, há pouco mais de três meses como timoneiro do Marítimo, foram os últimos (por enquanto...), tendo ambos sido afastados dos cargos a 8 de março. Tanto um como outro tinham entrado em funções a meio da época, sucedendo a João Pedro Sousa e Lito Vidigal, respetivamente.

"Quando o Marítimo e o Famalicão, a 12 jornadas do fim, contratam o terceiro treinador nesta época, o comportamento desses dirigentes é de alguém que percebe alguma coisa de futebol? Os jogadores adaptaram-se a dois treinadores e agora vão ter de se adaptar a um terceiro. Que níveis de confiança é que se criam numa equipa? Não faz sentido. A maior parte dos presidentes deste país futebolístico eternizam-se nos clubes. Há um certo caciquismo. Se olharmos para quatro clubes, FC Porto, Benfica, Marítimo e Moreirense, os seus presidentes totalizam já 100 anos nos clubes. São donos e senhores da verdade, pelo que a corda, quando parte, parte pelo lado mais fraco, que é o do treinador. Aquela história de o treinador passar de bestial a besta é o que acontece em Portugal, em que as coisas são feitas de forma emocional e ditatorial", atira Manuel José, vencedor de quatro Ligas dos Campeões de África, bastante crítico com as opções tomadas pela administração da SAD do Famalicão.

"O presidente do Marítimo até foi paciente. Impaciente foi o presidente do Famalicão, uma vez que o Silas só fez seis jogos e foi despedido. E esqueceram-se que da época passada para esta época, o Famalicão, que foi a grande revelação da temporada passada, ficou quase sem uma equipa completa, teve de renovar e nem sempre bem. O treinador anterior [João Pedro Sousa] fez um trabalho notável à frente do Famalicão", defendeu.

Já a saída de Milton Mendes do Marítimo (foi rendido pelo espanhol Julio Velázquez) é um daqueles casos em que, para Manuel José, se compreende a decisão. "Quando o Marítimo vem de nove jogos sem ganhar, é evidente que o treinador já não consegue estimular nem motivar jogador algum, as ideias já não são assimiladas pelos jogadores. Numa situação destas, as pessoas devem, com elevação, chegar a um acordo e ir embora", frisou, ainda que advertindo que os madeirenses já vão para o terceiro treinador.

Fragilidade e perda de autonomia

Na temporada passada, houve 16 mudanças de treinador na I Liga - ou 20, se incluirmos os interinos Leonel Pontes (Sporting), Meyong (Vitória de Setúbal), Leandro Pires (Desp. Aves) e Bruno Lopes (Portimonense) - em 13 equipas, com Sérgio Conceição (FC Porto), Natxo González (Tondela), Vítor Oliveira (Gil Vicente), Ivo Vieira (Vitória de Guimarães) e João Henriques (Santa Clara) a serem os únicos a manterem-se a salvo, ainda que os quatro últimos acabassem por deixar os respetivos cargos no final da época.

Para Manuel José, a frequência com que as mudanças acontecem é um reflexo da fragilidade crescente da profissão de treinador. "No meu tempo havia sempre as chamadas chicotadas psicológicas, mas não com a frequência destes últimos 10 ou 12 anos no futebol português. É uma constante. Quando alguma coisa está mal, o culpado é o treinador. Os treinadores não têm a autonomia que eu tinha quando trabalhava em Portugal. Quem escolhia os jogadores todos era eu e a minha equipa técnica e assumíamos a responsabilidade total", recordou o homem que terminou a carreira de jogador e iniciou a de treinador no Sp. Espinho, em 1978-79.

"A instabilidade na vida dos treinadores de futebol é uma constante. A maior parte faz contratos muito baixos e sem cláusulas de rescisão, portanto ficam imediatamente nas mãos dos clubes e têm de se sujeitar a imensas coisas, estão sempre fragilizados", acrescentou o técnico que conquistou uma Taça de Portugal e uma Supertaça Cândido de Oliveira pelo Boavista.

O fator psicológico

Manuel José esteve cinco anos seguidos no comando técnico do Boavista, entre 1991 e 1996, mas diz que "é difícil, hoje, um treinador estar três ou quatro anos no mesmo clube".

Além da fragilidade que os treinadores têm hoje em dia, o antigo técnico considera que os presidentes apostam cada vez mais nas chamadas chicotadas psicológicas para mexer com os jogadores. "Os presidentes apostam no fator psicológico, porque quando entra um novo treinador há jogadores completamente desmoralizados, alguns que jogam muito pouco, e que vão passar a aplicar-se muito mais. Há uma renovação de vontade dentro da própria equipa, que vai ter um comportamento em campo muito mais confiante, personalizado, estimulado e motivado. Se os primeiros resultados forem bons, há pernas para andar. Se não, volta tudo ao mesmo", explicou o antigo treinador, que fez história nos egípcios do Al-Ahly.

"Em Portugal, os dirigentes não são arquitetos nem engenheiros, não andam a fazer projetos. Não há projetos a longo prazo. Há projetos a curto prazo em função dos resultados desportivos e da promoção de jogadores neste negócio que é o do futebol, tendo em vista transferências para encaixar boas verbas para manter os clubes estáveis em termos financeiros", adiantou.

Para combater as sucessivas mudanças de treinador, o artigo 187.º do regulamento desportivo da Real Federação Espanhola de Futebol impede que o mesmo técnico assuma o comando técnico de duas equipas do país na mesma temporada, o que também evita que um clube possa retirar um treinador a outro do seu campeonato.

Manuel José admite que esse é um "bom exemplo", mas que "em Portugal a regra é desvirtuar as regras". "Não vale a pena", rematou.

david.pereira@dn.pt

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