"O nosso râguebi não pode viver em permanente conflito"

O capitão dos Lobos no Mundial de França 2007 vai estar ao lado de lendas vivas da modalidade no lançamento dos Rugby Centurions, exclusivo clube que agrega todos os jogadores de râguebi

Partiu o nariz no seu primeiro treino de râguebi, mas nem assim desistiu e vinte anos depois Vasco Uva tornou-se o primeiro português (e único até agora) a atingir as cem internacionalizações. Na próxima quinta-feira, no sofisticado hotel Hilton, em Londres, o capitão dos Lobos no Mundial de França 2007 vai estar ao lado de lendas vivas da modalidade no lançamento dos Rugby Centurions, exclusivo clube que agrega todos os jogadores de râguebi do mundo com mais de cem presenças pelas suas seleções, e que nesta gala inaugural integrará 53 membros. O DN foi ouvi-lo falar de recordações, sacrifícios e da mágoa pelo atual estado da modalidade no nosso país. E do que gostaria de fazer para alterar este estado de coisas.

Quando tocou numa bola oval pela primeira vez pensava que algum dia ia atingir a fabulosa marca de cem internacionalizações?

Claro que não. O primeiro treino foi aos 14 anos, no Técnico, com o meu irmão Gonçalo, e as coisas até nem correram nada bem pois parti o nariz. Só voltei dois anos depois, já em Direito, e levado por amigos do liceu. Tinha tentado vários desportos como futebol e ténis, mas não tinha muito jeito. Gostei logo nos primeiros tempos, rapidamente comecei a evoluir e depois identifiquei-me com os valores da modalidade.

Direito foi o seu clube de sempre, mas mesmo com o corpo bem "amassado" nunca recusou ir à seleção. O que foi para si representar os Lobos?

Quando atingi um bom nível passou a ser um objetivo. Até porque ia falando com o meu primo João, que já jogava na seleção. E esse foco passou a estar sempre presente na cabeça. Depois foi uma sucessão de objetivos e metas que fui ultrapassando: após o primeiro jogo, chegar aos dez; depois ir ao Mundial 2007; ser capitão; chegar às cem seleções... Foi essa a motivação para conseguir conciliar carreira desportiva com vida pessoal.

Recorda a sua estreia, em fevereiro de 2003, com um triunfo em Lisboa diante da Geórgia (34-30)?

Lembro-me de tudo! Tínhamos falhado a presença no Mundial e com o Tomaz Morais como único responsável começámos um novo ciclo na seleção. Recordo o primeiro treino em que ele nos disse que se cumpríssemos três princípios (treinar, sacrifício e acreditar) iríamos ao Mundial 2007. Ficámos todos de boca aberta! E foi o plano elaborado por ele para quatro anos que me fez o click.

O momento mais alto da carreira foi a ida ao Mundial 2007, onde foi o capitão dos Lobos. O que mais o marcou?

A deslocação até ao estádio de Saint-Étienne na tarde da estreia com a Escócia. Foi aí que senti a sério o Mundial ao ver todos aqueles portugueses que nos tinham vindo apoiar. Sentir todo um país atrás de nós, especialmente estando fora de Portugal, fez-me sentir arrepios!

E a memória mais negativa?

O dedo partido da mão diante da Itália que me impediu de defrontar a Roménia no jogo final. Sempre acreditei que poderíamos ganhar, mas havia já muito cansaço acumulado depois de três encontros intensos que deixaram marcas.

O que sente, para mais como único jogador amador, por fazer parte deste seleto clube com apenas 53 membros, o Rugby Centurions?

Um enorme orgulho. Primeiro por representar Portugal, prémio para um país pouco conhecido no mundo do râguebi. E também um sentimento de dever cumprido que recompensa os esforços que fiz muito tempo na minha carreira. Era bom que servisse igualmente como chamada de atenção e constituísse um marco importante para o nosso râguebi.

A jogar, tirou o curso de Direito terminado em 2006, e depois começou a trabalhar. Compatibilizar essa exigência escolar e profissional com o râguebi não deve ter sido nada fácil...

Reconheço que tive sorte pois o meu pai compreendeu que eu quisesse conciliar as duas coisas: curso e râguebi. Claro que não tive uma média tão alta como poderia ter tido, mas ele aceitou, o que me permitiu prosseguir com a carreira. Perdi horas de almoço, de sono e abdiquei de noitadas com amigos. Não têm conta os almoços que fiz na bomba de gasolina do Viaduto Duarte Pacheco entre treinos e o emprego. A Sofia e os meus três filhos foram fundamentais no apoio e na motivação para conseguir conciliar as duas coisas. Mesmo nas lesões nunca me deixaram vacilar.

Esta será a sua última época nos relvados. Pensa ficar ligado à modalidade?

Foram muitos anos, já não era possível continuar a perder oportunidades profissionais que me iam surgindo e vou abandonar no final da época. Quanto ao futuro, preciso de tempo para pensar, fazer um período de reflexão. Fico triste com tudo o que se passa no râguebi português e queria muito ajudar. Sinto que falta alguém que faça a ligação entre os jogadores e a sua vida académica/profissional. A federação nunca o fez e até já falei com a direção para ser criado um cargo que fizesse esse acompanhamento e estabelecesse uma ligação que acho vital para o nosso râguebi, permitindo aos jovens atletas ter uma carreira desportiva sem perderem aulas e exames.

E como analisa o atual momento do râguebi português?

Depois do boom pós-Mundial 2007 não soubemos aproveitar o que de bom tínhamos conquistado e as sucessivas direções não têm sabido pôr o râguebi português em paz, sem confusão. Não é possível viver em permanente conflito! Há que unir clubes, árbitros e federação para criar um clima de paz. Não há dinheiro, mas entre 2002 e 2004 também não havia e fomos campeões europeus...

Como viu a descida à 3.ª divisão europeia? Acredita que os Lobos podem voltar a um Mundial a médio prazo?

Foi muito penalizadora e com más consequências. Até para os jogadores é mais fácil serem motivados para defrontar uma Geórgia ou uma Roménia do que a Moldávia ou a Polónia. Quanto ao Mundial 2019 ainda será possível, mas tem de haver já uma revolução. Sei do que estes jogadores são capazes, mas há que pedir mais espírito de sacrifício. O objetivo não pode ser só chegar à seleção: é manter-se lá e querer deixar uma marca.

Qual é o centurião que mais vai gostar de cumprimentar na gala?

O Richie McCaw, não só pela sua carreira fantástica em que é o mais internacional de sempre, mas foi o jogador que mais me marcou, até pela forma como me recebeu no Mundial de França.

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