O campeão mais "made in FC Porto" deste século

Os dragões festejaram o 30.º título de campeão nacional com uma vitória na Luz diante do Benfica, tal como em 2011. Há 25 anos que uma conquista não tinha tanta prata da casa. Uma aposta de Sérgio Conceição, que a meio caminho perdeu a maior estrela: Luis Díaz.

O desfecho já se anunciava há algumas semanas mas só neste sábado se confirmou matematicamente: o FC Porto é campeão nacional numa temporada excecional da equipa comandada por Sérgio Conceição. Nesta, porém, o treinador portista contou com um contributo expressivo dos jovens formados no clube: foram sete os futebolistas "nascidos" no Olival que participaram em mais de um terço dos jogos da I Liga. Só o técnico pode dizer se a necessidade - por estar sujeito ao rigor do fair-play financeiro da UEFA - falou mais alto que a convicção de que a geração que conquistou a Youth League em 2019 teria o que era preciso para conquistar troféus ao mais alto nível.

Diogo Costa, João Mário, Vitinha, Fábio Vieira e, em menor escala, Francisco Conceição (filho do treinador), Sérgio Oliveira (o "veterano" que saiu em janeiro para a Roma de José Mourinho) e Bruno Costa estiveram em pelo menos um terço dos encontros que conduziram o FC Porto ao 30.º título nacional (o terceiro na era Conceição). É preciso recuar 25 anos para se encontrar algo semelhante ao que sucedeu nesta época - com António Oliveira ao leme e o clube a meio do inédito penta.

Em 1996-97, Oliveira utilizou frequentemente seis produtos da formação das Antas: um deles era, curiosamente, Sérgio Conceição, acompanhado pelo capitão Jorge Costa, Folha, Domingos, João Pinto (já em final de carreira), Rui Jorge e Rui Barros (só fez um ano nas camadas jovens dos dragões). Além destes, também Costa, Bino e Rui Óscar conquistaram a medalha de campeão nacional, embora com participações residuais.

A partir daí, o peso da formação nas equipas campeãs do FC Porto foi sempre a decrescer: na época seguinte já foram menos, apesar do regresso de Secretário. Com Fernando Santos, já só três (Baía, Jorge Costa e Secretário) foram opção frequente, sucedendo praticamente o mesmo nas duas temporadas de José Mourinho. Co Adriaanse reduziu o número para dois (Baía e Ivanildo). Jesualdo Ferreira, por seu turno, venceu três títulos sem um único elemento da formação a fazer pelo menos um terço dos jogos, tal como no primeiro ano de Vítor Pereira, pois na segunda época, Castro, hoje no Sp. Braga, ainda fez 17 partidas.

Ao terceiro... teve de ser

A chegada de Sérgio Conceição ao comando técnico não alterou muito as coisas. No ano do seu primeiro título (2017-18), apenas Sérgio Oliveira teve participação significativa (19 jogos) - embora Gonçalo Paciência (resgatado a meio da época ao V. Setúbal), ainda somasse nove jogos e Dalot seis. Já no do segundo (2019-20), embora tenha utilizado mais elementos oriundos do Olival, apenas dois atuaram num terço dos encontros: novamente Sérgio Oliveira (20) e Fábio Silva (12 jogos). Com menos impacto foram também chamados Diogo Leite, Romário Baró e Tomás Esteves, além dos quatro que esta época cimentaram a sua posição: Vitinha, João Mário, Fábio Vieira e Diogo Costa.

Sem menosprezar a importância que nomes como o capitão Pepe, Mbemba, Otávio, Uribe, Taremi, Pepê e Evanilson - além, obviamente, de Luis Díaz, figura maior da I Liga antes de rumar a Liverpool - tiveram na conquista deste título, a verdade é que sobretudo esses quatro foram muito importantes para o título. Na baliza, Diogo Costa assumiu a titularidade logo na primeira jornada e chega a esta fase com registos muito próximos da lenda Vítor Baía (apenas 22 golos sofridos); João Mário começou logo a brilhar e apesar de algumas lesões lhe terem atrapalhado uma maior evolução, somou 27 jogos e duas assistências; Vitinha, um jogador com enorme talento mas que se perdia em excessos de individualismo, demorou mais a garantir a titularidade, o que sucedeu só à sexta ronda passando então a ser indiscutível, somando 29 jogos, dois golos e três assistências; Fábio Vieira foi o maior contribuinte em termos estatísticos graças ao seu pé esquerdo: 26 jogos, 6 golos e umas incríveis 13 assistências. Mas os outros três também tiveram o seu papel: Sérgio Oliveira garantiu um importante triunfo em Barcelos à beira do fim num livre direto (nos 13 encontros, marcou duas vezes); Francisco Conceição, quase sempre utilizado a partir do banco (24 jogos), apontou o golo que consumou a reviravolta no Estoril ; Bruno Costa (12 jogos) foi uma espécie de pronto-socorro, sacrificando-se pela equipa quando tal foi necessário. A estes, ainda se junta Gonçalo Borges, com oito minutos para a medalha.

Jogos que fizeram a diferença

Com apenas quatro empates e uma derrota (em Braga) cedidos em 33 jornadas, a caminhada do FC Porto rumo ao título nem começou de forma muito convicta. À quinta jornada, já tinham voado quatro pontos, dois na Madeira e outros tantos em Alvalade, onde só o génio de Luis Díaz resgatou a equipa da derrota. Por essa altura, o Benfica ameaçava tornar a Liga num passeio, com sete triunfos seguidos. Mas, assim que os encarnados começaram a abanar (num jogo caseiro com o Portimonense), o FC Porto arrancou para uma série de 16 vitórias consecutivas. Nesse percurso, duas delas acabaram por ser fundamentais, porque arrancadas a ferros: as já referidas em Barcelos e no Estoril, onde o FC Porto perdia por 2-0 ao intervalo e marcou duas vezes nos últimos dez minutos.

A saída de Luis Díaz (além de Jesús Corona e Sérgio Oliveira) no final de janeiro provocou a explosão de Sérgio Conceição, mas não lhe diminuiu a vontade. "Nas grandes empresas, nos grandes cubes, o planeamento é feito em função dos objetivos. Como existe pouco planeamento ou não existe, temos de rever esses objetivos (...) está mais difícil, mas faz parte do meu trabalho encontrar soluções", disse então, irritado, o treinador.

Até ao título, o FC Porto apenas sofreu mais três percalços: em casa frente ao Sporting, conseguindo empatar depois de estar a perder por 0-2, na receção ao Gil Vicente, em que, apesar de jogar quase 90 minutos em superioridade numérica, não conseguiu aproveitar a escorregadela dos leões no Funchal. E na única derrota sofrida nesta I Liga, com o Sp. Braga, na Pedreira, que colocou um ponto final em 58 jogos (recorde) consecutivos sem perder para o campeonato. Mas a caminhada rumo ao 30.º título não parou, consumado a uma jornada do fim e num palco especial, com uma vitória por 1-0 no Estádio da Luz, golo de Zaidu.

dnot@dn.pt

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