Campeão do Euro 2004 agora treina refugiados

Nikopolidis foi um dos heróis da final do Europeu em que Portugal saiu derrotado. Hoje orienta o Esperança Refugiados FC

O golo de Eder, em Paris, sarou as mágoas, mas Portugal ainda tem bem presentes as memórias da final do Euro 2004, perdida em Lisboa, frente à Grécia. O golo de Charisteas imortalizou os helénicos na história da UEFA, mas houve outro grande responsável pela derrota de Portugal: Antonios Nikopolidis, guarda-redes grego que ninguém conseguiu bater na final.

O ex-guardião deixou os relvados em 2011, após uma carreira de sucesso dividida entre o Panathinaikos e o Olympiacos, mas só aos 45 anos abraça aquele que considera ser o mais "gratificante desafio" da sua carreira: treinar uma equipa de refugiados na Grécia, que ganhou o nome oficial de Hope Refugees FC - Esperança Refugiados FC.

Nikopolidis foi, em 2012-13, adjunto do Olympiacos, tendo até orientado a equipa interinamente, e no ano passado foi contratado para o cargo de selecionador sub--21 da Grécia. Agora, é o mentor de um grupo de 24 jovens refugiados, entre os 18 e os 26 anos e provenientes de países como Síria, Iraque, Irão e Afeganistão, que se reúnem três vezes por semana guiados pelo sonho do futebol.

"Quando me propuseram esta tarefa só a podia aceitar, pois sinto-me alegre ao ajudar uma equipa composta por gente que sofre, por refugiados que foram tirados das suas casas", disse o grego, em entrevista à agência EFE.

Nikopolidis não foi escolhido ao acaso: os seus antepassados também eram refugiados, que tiveram de atravessar o mar Negro até chegarem à Grécia. "Não podemos imaginar o que é sermos puxados do nosso lar e lançados ao desconhecido na procura de condições de vida não só melhores", disse.

Grande parte dos elementos que compõe o plantel são meramente futebolistas amadores ou recreativos, mas há na equipa quem estivesse a tentar chegar a uma carreira profissional. É o caso de Joseba Jatsebo, de 23 anos, que jogava na segunda divisão da Síria.

"Por causa da guerra tive de abandonar o meu sonho. Agora só espero ter um bom futuro aqui, se ficar por cá. Se não der, talvez tenha de procurar outro país, não sei", confessou o adepto do Real Madrid e de Cristiano Ronaldo.

Nikopolidis, curiosamente, também já se deparou com as dificuldades de tantos outros treinadores de elite: perder os seus melhores jogadores. Mas por razões bem diferentes: o guarda-redes do Esperança Refugiados FC, e um dos melhores jogadores da equipa, teve de abandonar a Grécia, pois foi realojado na Alemanha.

"Isto é mais do que futebol, são vidas que vão sendo reconstruídas. Temos de ser sensíveis a isto. O futebol é um meio para curar muitas coisas, mas neste caso há coisas mais importantes", disse o técnico grego, que já sabe o que é vencer ao serviço da nova equipa.

Diante da Ley, uma equipa composta por advogados, a formação de refugiados venceu por 4-1... e ganhou um grupo de aliados. Os advogados disponibilizaram-se para ajudar na resolução de problemas de asilo ou do foro jurídico.

Mas se para a maior parte o futebol é um passatempo ou um modo de integração, outros podem vir a chamar à atenção pelo seu talento. "O que queremos é que todos estejam felizes e que se sintam integrados. Não vamos estar a calcular ao pormenor a estratégia para ganhar. Se alguns forem bons - e alguns são -, vamos tentar abrir-lhes outras portas", reagiu Sabanis, técnico dedicado ao futebol de formação e que esteve a observar alguns dos talentos que foram forçados a tentar procurar o seu espaço longe de casa. E são treinados por quem sabe o que é vencer contra todas as expectativas.

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