Não foi má fortuna, foram muitos erros. Portugal complica contas do apuramento

Quinta derrota seguida frente à Alemanha, com quatro golos sofridos em menos de meia-hora. Atrair à direita para matar à esquerda foi a receita de Löw para contrariar os campeões europeus, que não resistiram à maldição de Munique (2-4).

Uma hora de pesadelo, que nem um golo caído do céu atenuou, e uma derrota que complica, e muito, as contas do apuramento para os oitavos do Euro 2020. A seleção portuguesa perdeu por 4-2 em Munique e, ainda assim, pode dar-se por satisfeita com a desvantagem final no resultado, num jogo em que nunca se entendeu com as movimentações da equipa alemã e só conseguiu entrar em campo na meia-hora final, quando os homens da casa levantaram o pé e o seu técnico deu descanso a Gosens: o lateral-esquerdo da Atalanta foi um autêntico algoz, participando, de uma forma ou de outra, em todos os golos da sua equipa, ainda que dois deles tenham sido na própria baliza. Resta o confronto com os campeões do mundo na última jornada, para Portugal se redimir daquilo que (não) fez este sábado.

Num estádio maldito para o futebol português, onde os três grandes foram trucidados em tempos recentes (o Sporting levou sete, numa equipa com Rui Patrício e João Moutinho; o FC Porto, seis, com Rúben Neves, e o Benfica, cinco, com Rúben Dias e Rafa Silva no onze e Renato do lado bávaro) e perante um adversário que apenas perdera três vezes com Portugal (a última há 21 anos) e vencera os últimos quatro confrontos (incluindo uma goleada por 4-0 no Mundial do Brasil), Fernando Santos não mexeu no onze titular que utilizara em Budapeste, com Danilo e William no meio-campo e Bernando Silva à direita. Do outro lado, e apesar da derrota no jogo inaugural, Joachim Löw emulou o seu homólogo lusitano e fez subir ao relvado de Munique - no qual apenas Cristiano Ronaldo guardava boas recordações, com quatro golos apontados ao Bayern quando representava o Real Madrid, para juntar ao que marcou agora - a mesma equipa que entrara frente à França, com uma linha de três atrás, dois laterais muito, muito ofensivos e três dianteiros móveis.

E, depois de uns primeiros momentos de respeito mútuo, a verdade é que a Alemanha tomou conta do jogo, jogando bem entre linhas, ganhando todos os duelos individuais e chegando com alguma facilidade à baliza. Ao fim de cinco minutos, Rui Patrício foi mesmo batido depois de um cruzamento da direita que Gosens desviou, no outro flanco, para as redes com um remate acrobático. Valeu a intervenção do VAR, que detetou um fora de jogo de Gnabry, o qual tentara um primeiro desvio.

E até ao quarto de hora as coordenadas não se alteraram, com uma pressão sufocante da equipa da casa e Portugal sem reação - a equipa fez apenas duas faltas no primeiro tempo... No entanto, um canto a favor da Mannschaft mudou aparentemente as regras: Cristiano cortou de cabeça na área e arrancou em sprint; Bernardo Silva controlou, avançou e esperou o momento certo para lançar pelo ar para Diogo Jota; este, isolado, dominou no peito e tocou para o lado, onde o foguete CR7 estava a chegar para encostar para a baliza. Golo de Portugal, o primeiro do craque madeirense com a camisola das quinas à Alemanha!
Ein, zwei, drei, vier...

A vantagem inesperada serenou um bocado o jogo português, apesar de logo a seguir Gosens ter obrigado Patrício a mais uma defesa. A mobilidade do ataque alemão obrigava Nélson Semedo a estar sempre mais próximo dos centrais do que no flanco, que foi uma autêntica Autobahn para a equipa de Löw, uma vez que ninguém ia cobrir essa posição. E frente às formações alemãs nunca se pode baixar a guarda. Portugal ainda criou uma boa situação num canto, por Rúben Dias, mas o central do City só acabaria por marcar depois e na baliza errada: aos 35", um lance iniciado à direita acabou novamente no lateral canhoto alemão, que cruzou forte para Havertz, acabando por ser o português a desviar para as suas redes.

E aos 39" surgiria o 1-2, da mesma forma. Bernardo Silva deixou fugir Gosens, Havertz não conseguiu desviar um primeiro passe e Kimmich surgiu no flanco oposto a centrar para Raphaël Guerreiro imitar o seu parceiro a marcar na própria baliza. E não foi mais um azar, mas apenas consequência lógica da forma como Portugal nunca conseguiu entender a movimentação alemã na frente e foi somando erros consecutivamente. O resultado só não aumentou ainda antes do intervalo porque Rui Patrício defendeu novo remate de Gnabry, depois de este correr quase meio campo sem oposição e superar Pepe.

Para o segundo tempo, Fernando Santos lançou, logicamente, Renato Sanches, sacrificando Bernando Silva para tentar dar mais solidez ao flanco direito. Mas não resultou: antes da hora de jogo, já Portugal tinha sofrido mais dois golos, sempre iguais. Bola da direita para a esquerda e Gosens completamente sozinho, primeiro a assistir Havertz, que desviou na pequena área para o 1-3, depois a marcar ele próprio de cabeça, a centro de Kimmich. Atrair à direita para matar à esquerda foi a fórmula de Löw que resultou em cheio.

Com a vitória no bolso, o técnico germânico deu finalmente descanso ao diabólico Gosens e a partir daí Portugal conseguiu entrar no jogo e até reduzir uma desvantagem que ameaçava tornar-se problemática. Na sequência de um livre, Diogo Jota empurrou a bola para a baliza, depois de Cristiano ter conseguido um desvio ao segundo poste, já perto da linha de fundo. E a coisa até podia ter ficado mais atenuada não fosse um tiro de Renato Sanches de fora da área ter embatido no poste direito de Neuer. Já com João Moutinho e Rafa Silva em campo, Portugal foi procurando mais um golo que permitisse acalentar alguma esperança de ainda conseguir pelo menos um ponto, mas a Alemanha foi sempre lembrando que a qualquer momento podia voltar a marcar - um remate de Goretzka ainda raspou a trave de Patrício.

dnot@dn.pt

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