Mundial 1958: Aí vai o Brasil e um tal de Pelé

No Brasil reinava a fantasia, mas também a inteligência. Com uma das melhores equipas de sempre da história dos mundiais, no escrete brilhava o talento e força prodigiosas de Pelé

A melhor equipa da época, a Hungria, apresentou-se algo debilitada pelas contingências da Guerra Fria, mas ainda com Puskás, Czibor e Kocsis (neste ano, o primeiro rumaria ao Real Madrid e os outros dois ao Barcelona). E, finalmente, o Brasil foi o Brasil que já se esperava e que tem vindo a dominar os mundiais. Principais responsáveis: um jovem de 17 anos chamado Pelé e o terror das defesas Garrincha, o anjo das pernas tortas. Resultado: triunfo por 5-2 na final frente à anfitriã Suécia.

As outras grandes equipas deste torneio, o primeiro sem o mentor Jules Rimet (morreu dois anos antes), foram a Suécia e a França. Os gauleses dependeram muito do inteligente e versátil goleador Just Fontaine. O avançado eternizou-se como o máximo goleador dos mundiais com 13 golos nos seis jogos realizados pela França (da fase de grupos ao jogo em que carimbou o 3.o lugar). Na história, só houve mais dois a marcarem em todos os encontros de um mundial, mas estes foram mesmo campeões: Jairzinho (7 golos nos seis jogos do Brasil até ao título de 1970) e Ghiggia (quatro golos nos quatro jogos do Uruguai até ao título em 1950).

Desde que começaram as fases de qualificação, Portugal conseguiu a primeira vitória, e logo sobre a bicampeã mundial Itália, por 3-0. Mas falharia o apuramento. Já o país pôde, pela primeira vez com a internacionalização das transmissões, acompanhar a competição e o árbitro Joaquim Campos (Irlanda do Norte - Alemanha Ocidental) amontoando-se sobre os poucos aparelhos disponíveis.
E se o Mundial 1954 tinha sido de muito futebol, com o carrossel húngaro e a potência da República Federal Alemã (RFA), este subiu ao céu. O Brasil do futebol bonito começa aqui, com Didi, Nilton Santos, Djalma Santos e Zito. E jogadores com o carisma de Gilmar, Bellini, Vavá, Zagallo, Orlando. E Joel e Dida, que ao terceiro jogo deram os lugares ao adolescente Pelé (após lesão) e ao endiabrado Garrincha (era sobredotado tecnicamente e um indisciplinado que fazia exasperar os treinadores com as suas fintas intermináveis). Retificação: agora, sim, começou o futebol bonito. E o designado catenaccio ficou de fora: a Itália falhava a qualificação pela única vez até 2018.

Com quarto das apuradas a virem do Reino Unido (Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte, algo que jamais se repetiu), ficaram logo pelo caminho na fase de grupos equipas como a Hungria, a Inglaterra e a Argentina (perdeu o terceiro jogo do Grupo 1 por 1-6 frente à Checoslováquia e foi esperada na chegada a Buenos Aires por uma turba furiosa).

As grandes equipas foram mesmo a Suécia e o Brasil. Os anfitriões eram liderados pelo experiente (35 anos) capitão Nils Liedholm, ainda hoje considerado um dos melhores jogadores da história do AC Milan, onde formou o Gre-No-Li com os compatriotas Gunnar Gren, 37 anos (ambos tinham regressado ao campeonato sueco e cumpriam o requisito da FIFA para alinharem pela seleção) e o único ausente dos três no Mundial 1958, Gunnar Nordhal (este ainda é hoje o melhor marcador do Milan e o terceiro da história da Serie A, com 225 golos, apenas atrás de Francesco Totti, 250, e Silvio Piola, 274), "Il cannoniere", "O artilheiro".

No Brasil reinava a fantasia, mas também a inteligência. Com uma das melhores equipas de sempre da história dos mundiais, no escrete brilhava o talento e força prodigiosas de Pelé, o mais jovem de sempre a marcar num mundial e numa final, foi durante 24 anos igualmente o mais jovem de sempre a jogar numa fase final, com 17 anos, sete meses e 23 dias (foi ultrapassado pelo recordista Norman Whitside (jogou pela Irlanda do Norte no Mundial 1982 com 17 anos, um mês e dez dias - entre ambos, há entretanto mais três jogadores, um deles Samuel Eto"o).

Sem sobressaltos, as duas seleções ganharam os respetivos grupos e a Suécia provou a sua qualidade ao eliminar União Soviética e RFA nas eliminatórias até chegar à final do estádio Rasunda, em Solna. O Brasil só explodiu nas meias-finais quando defrontou um adversário exigente, a França. O 5-2 foi temperado com o primeiro hat trick do futuro Rei Pelé (que marcou nos três jogos a eliminar, final incluída).

Na final, o Brasil voltou a dar espetáculo. Liedholm tornou-se no mais velho da história a marcar em finais (35 anos e 263 dias) e provocou a fera logo aos 4 minutos, mas Vavá (dois), Pelé (dois) e Zagallo arrumaram com o adversário (Simonsson reduziu os estragos pelo meio). Foi a final com mais golos da história (7) e com maior diferença de golos (3), sempre com o Brasil envolvido: 4-1 à Itália em 1970, 0-3 frente à França em 1998. Foi igualmente a única vez que um torneio na Europa não foi ganho por uma equipa do Velho Continente (que devolveu a graça apenas em 2014, quando a Alemanha ganhou o Mundial do Brasil).

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