Melhor participação de sempre. Mamona, Pichardo e Auriol fazem história

Portugal regressa com três ouros na bagagem, algo nunca visto. O desertor cubano e a viciada em donuts sagraram-se campeões da Europa do triplo salto. Chefe da missão tinha apontado a três medalhas em declarações ao DN.

O prognóstico bateu certo. Em conversa com o DN antes da competição, o chefe da missão portuguesa nos Europeus de Pista Coberta, em Torun, na Polónia, tinha apontado às três medalhas. "Atendendo ao ranking atual, os que estão mais bem posicionados para lutar por um dos três lugares do pódio são Pichardo, Auriol Dongmo e Patrícia Mamona. Os resultados que têm surgido são auspiciosos e há naturalmente expectativa na conquista de medalhas", confessava Fernando Tavares, sem especificar o material de cada medalha.

Hoje regressa com três ouros na bagagem. É a melhor participação de sempre de uma comitiva portuguesa num europeu indoor, depois dos dois ouros conseguidos em 1996 (Carla Sacramento, nos 1500m e Fernanda Ribeiro, nos 3000m). Portugal igualou ainda o máximo de três medalhas alcançado em 1998 (ouro de Rui Silva nos 1500 m, prata de Carlos Calado no salto em comprimento e de Fernanda Ribeiro nos 3000 m) e em 2002 (ouro de Rui Silva nos 1500 m, prata de Carla Sacramento nos 1500 m e de Naide Gomes no heptatlo).

Este ano, A Portuguesa ouviu-se por três vezes. Primeiro por Auriol Dongmo (lançamento do peso), depois por Pedro Pichardo (triplo salto) e finalmente por Patrícia Mamona (triplo salto).
No total, Portugal já conquistou 26 medalhas, dez delas nos saltos. Mas nem só de medalhas se faz o sucesso português em Torun. As sete finais conseguidas, bem como alguns recordes pessoais e até dois recordes nacionais batidos (peso, Francisco Belo, e triplo salto, Patrícia Mamona) também orgulham. O quinto lugar de Carlos Nascimento na final dos 60 metros também é mais do que meritório, depois de fazer o segunda melhor desempenho de um velocista luso em Europeus indoor, atrás de Obikwelu, que foi campeão em Paris em 2011.

No Atletismo por uns donuts

Patrícia Mamona sagrou-se campeã da Europa por um centímetro. A atleta do Sporting abriu o concurso com um salto de 17.34 metros que a levaria à liderança que manteve até final, batendo o seu recorde nacional (17.53m). Festejou com um pulo, um grito e muitas lágrimas.
Filha de angolanos, já nasceu em Lisboa há 32 anos. E foi na escola, no Cacém, que tudo começou. Tinha 10 anos, adorava desporto, e já dava luta aos rapazes. Começou a interessar-se pelo atletismo por culpa dos... donuts, o prémio de participação.

Foi no final de uma prova de corta-mato que um professor de Educação Física, José Uva (hoje ainda é o seu treinador), a fez despertar para a competição. Mas os pais não gostaram muito da ideia e foi preciso o professor/treinador convencê-los que a filha tinha futuro no atletismo.

Inscreveu-se no JOMA em 2001 e logo na primeira época ganhou o Atleta Completo. Como iniciada, em 2003, liderou os rankings de 80m barreiras, altura, comprimento, triplo e heptatlo, batendo os recordes nacionais destas duas últimas especialidades. Em 2011 foi para o Sporting.

A família entretanto mudou-se para Inglaterra, mas Patrícia ficou em Portugal a viver com uma tia - prometeu-lhes que ia conseguir conciliar o atletismo com o curso de medicina.
Ela sonhava ser médica, mas o curso era exigente e perdia muitas horas no caminho entre os treinos e a faculdade e resolveu deixar o atletismo de lado. Até que se lembrou que nos EUA havia um programa universitário para alunas-atletas e mudou-se para a Universidade de Clemson (Carolina do Sul).

Acabou por regressar a Portugal e aos treinos no Sporting com Gonçalo Uva e João Ganso, que treinava Nelson Évora e era o maior especialista do triplo salto do país. Para ser atleta de alta competição tinha de ser "atleta durante 24 horas" e apostar tudo no treino. Por isso treinava seis horas por dia e os resultados foram aparecendo, tanto nos nacionais como nos europeus.

Em 2016 sagrou-se campeã europeia ao ar livre, em Amesterdão, no mesmo dia em que Portugal se sagrou campeão europeu de futebol. Depois seguiu-se a presença nos Jogos Olímpicos do Rio2016 e o 6.º lugar com o seu melhor salto de sempre (14,65 metros). Também em 2016, nos Campeonatos da Europa de pista coberta em Belgrado, foi medalha de prata no triplo salto. Antes, em 2012, tinha ganho a prata nos Europeus de Helsínquia.

Hoje é uma atleta a 100% e vai fazendo as cadeiras do curso de Engenharia Biomédica aos bocadinhos enquanto bebe uns cafés, um dos seus vícios.

Desertor cubano em Portugal

Qualquer um dos saltos daria o ouro a Pedro Pichardo e isso diz bem da supremacia do luso-cubano na final do triplo salto, que ganhou com um salto de 17.30. Sobrinho de Pio Pichardo, que um dia salvou a vida a Che Guevara durante uma emboscada no Congo, a bagagem de vida do desertor cubano Pedro Pablo Pichardo é pesada, mas fica mais leve a cada salto como português. Este domingo voou para lá dos 17 metros (17.30) e conquistou a medalha de ouro para Portugal .

"Ele nasceu para vencer e conquistar o lugar mais alto do pódio. Felizmente através do Benfica descobriu Portugal e a liberdade para o fazer. É reservado e grato! Focado e determinado. Tem um sentido de família que une, protege e muito nos orgulha. Como portugueses também nos devíamos sentir gratos e orgulhosos por atletas como o Pedro escolher o nosso país, a nossa cultura e os nosso valores. Este é um dia muito especial para o Pedro. Pela primeira vez cantou o hino da pátria que o acolheu. A história começou a escrever-se hoje", elogiou ao DN, Ana Oliveira, responsável do projeto Olímpico do Benfica.

Desertou em abril de 2017 durante um estágio da seleção cubana em Estugarda (Alemanha). A notícia correu mundo. Era um das maiores promessas do atletismo cubano e do triplo salto, vice-campeão mundial e ficou impedido de representar o país a nível internacional e de regressar à ilha durante oito anos.

Ele ficou "em parte incerta" e o destino só foi conhecido mais tarde: Lisboa e Benfica. O clube da Luz conseguiu-o desviar do Barcelona e apresentou-o como vice-campeão mundial em 2013 e 2015 e um dos cinco triplistas que já voaram para lá de 18 metros.
Pichardo já tinha entrado em rota de colisão com a Federação Cubana de Atletismo em 2014.

Queria abandonar o técnico Ricardo Ponce e passar a ser treinado pelo pai (Jorge Pichardo, hoje seu treinador no Benfica), mas acabou suspenso por seis meses. Isso não abalou a ascensão. Ele estava destinado a altos voos. Em 2015 subiu ao pódio nos Mundiais de Pequim, lado a lado com Nelson Évora (medalha de bronze) e de Christian Taylor (ouro) e aguardava-se com alguma expectativa a presença nos Jogos Olímpicos Rio2016, que falhou por lesão.

Contratado para substituir Nelson Évora, que tinha ido para o Sporting deixando o Benfica em brasa, o saltador foi anunciado no dia 26 de abril. Tinha 23 anos. A naturalização demorou apenas alguns meses ao abrigo de um inicial estatuto de refugiado. A 7 de dezembro Pichardo já era português, mas ainda teve de esperar quase ano e meio para competir com as cores nacionais.

As regras da World Athletics preveem um período de 3 anos sem competir internacionalmente para os naturalizados, mas há exceções e o clube da Luz chegou a atacar a Federação de Atletismo por não lutar pela rápida integração do luso-cubano nas provas internacionais - falhou os Mundiais Indoor de Birmingham e os Europeus de Berlim e de Gasgow - dando a entender que estaria ligado à polémica com Nelson Évora, que considerou a naturalização de Pichardo "um ataque pessoal".

Gosta do sol do Algarve por lhe lembrar a terra onde nasceu, Santiago de Cuba. Estava sempre na rua, a brincar com os amigos, a jogar beisebol, futebol, às caricas até que um dia a irmã Rosalena, que cuidava dele, o começou a levar ao treinos de atletismo. "Aos 6 anos comecei por brincadeira e aos 7 passei a treinar corrida mais a sério. Só começo a fazer triplo salto com 14 anos em Santiago. Aos 18 fui para Havana", contou em entrevista ao DN, onde explicou que fugiu do país de origem por considerar que o regime cubano não lhe permitiria ir mais longe.

Pichardo nunca o escondeu que o seu grande sonho é bater o recorde mundial da disciplina (Jonathan Edwards, 18.29 metros, agosto de 1995), mas em entrevista ao DN em 2019 ele apontava mesmo ao 19 metros. Será? Afinal ele é um dos cinco triplistas a nível mundial que já voaram para lá de 18 metros (18,08, que se mantém como o seu atual recorde pessoal e que foi conseguido em Havana). A próxima missão dá pelo nome de Jogos Olímpicos Tóquio2020, no verão de 2021.

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