Ivo falhou o ouro mas fez história para Portugal ao ganhar a prata

Atleta de Gaia perdeu para o italiano Ganna na final de perseguição individual. Mas tornou-se o primeiro português a vencer uma medalha nos Mundiais do escalão de elite

O feito histórico ninguém lhe tira. Ivo Oliveira é o primeiro português a ganhar uma medalha em Mundiais de ciclismo de pista no escalão de elite. Depois de ter feito o tempo mais rápido na qualificação na perseguição individual, deixando o outro finalista, Filippo Ganna, a 1,257 segundos, Ivo ambicionou o ouro, mas o italiano voltou a batê-lo numa final, depois de o ter feito nos últimos Europeus. Os sentimentos eram mistos: "Estou um pouco desiludido, mas amanhã [hoje], quando acordar, vou ver que foi um grande feito."

Ivo não hesita em dizer que "é frustrante ficar tão perto" do título mundial. "Competi para ser campeão", afirmou ao DN. Apesar do início muito forte do ciclista de Gaia, Ganna recuperou cerca de um segundo de desvantagem para ficar com a camisola do arco-íris. "Era a minha estratégia, tal como tinha feito na qualificação. Começar mais forte. O Ganna é mais lento no primeiro e no segundo quilómetros... Nos últimos 1,5 quilómetros ele acabou por recuperar", disse, garantindo que deu tudo nos quatro mil metros da perseguição individual. Na qualificação, Ivo tinha feito 4:12.365 minutos e na final 4:15.428. Ganna conseguiu melhorar o tempo quando enfrentou Ivo na final: 4:13.607. O italiano (21 anos) já soma títulos na pista e na estrada e está no segundo ano na UAE Team Emirates, equipa de Rui Costa.

Sem conseguir afastar a sensação de que "foi o dia em que escapou" o ouro, o tempo que fez na qualificação faz Ivo acreditar que pode chegar ao título mundial em elite, depois de o ter conseguido em juniores, num ano (2014) em que também ganhou o Europeu. Aos 21 anos, Ivo Oliveira disse ficar contente por o verem já como uma referência, principalmente se isso significar que mais ciclistas comecem a apostar na pista, ainda mais numa altura em que irá começar a pensar-se nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020. "É o objetivo de todos e estamos no bom caminho. Estamos a treinar para isso", realçou, acrescentando ser importante que vão surgindo mais ciclistas para irem completando um grupo que tem como principais figuras Ivo e o irmão gémeo Rui, João Matias e César Martingil.

Uma família de ciclistas

Quando aos 13 anos começou na pista, Ivo admitiu que não esperava poder estar onde via os grandes nomes da modalidade na televisão. "Agora somos mais uma grande nação europeia na pista", frisou. Para os Jogos Olímpicos, o omnium será um dos objetivos, com o madison a ser também uma possibilidade. Ivo estará novamente hoje em prova em Apeldoorn, na Holanda, no omnium, em substituição do irmão. Rui Oliveira apresenta sintomas gripais e será poupado, depois de na quinta-feira ter competido no scratch sem estar a 100%. Ainda assim, terminou na quinta posição. "O omnium vai ser exigente. Não vou em expectativas. Veremos como decorre", referiu.

É impossível dissociar Ivo e Rui, que pertencem a uma família de ciclistas, desde o pai, o irmão, o tio, o primo... Os gémeos de Gaia têm um percurso idêntico que vai variando nas conquistas que somam. E quando um consegue um feito, o outro não fica atrás. Na pista tornaram-se duas referências e na estrada estão no caminho da evolução, e logo naquela que é vista por muitos como a melhor equipa de formação, a americana Hagens Berman Axeon, de Axel Merckx, filho de Eddy Merckx. Antes passaram pela Liberty Seguros-Carglass, uma estrutura que em Portugal também é das melhores em sub-23.

Pela equipa de Merckx têm passado vários ciclistas que acabam por chegar ao World Tour e os gémeos têm o exemplo de Ruben Guerreiro. O atual campeão nacional percorreu exatamente o caminho que Ivo e Rui estão a fazer, estando agora na Trek-Segafredo.

No primeiro ano, ambos tiveram alguns problemas com quedas. Ainda assim, Ivo mostrou o seu potencial no contrarrelógio, ao vencer o Grand Prix Priessnitz Spa, na República Checa. Neste ano, a equipa subiu ao segundo escalão, profissional continental, o que abre as portas a corridas de maior nível, inclusivamente do principal calendário. No entanto, também a seleção nacional vai continuar a apostar nos gémeos nas corridas de estrada.

Quanto ao sucesso do ciclismo de pista nacional, os primeiros passos foram dados em 2010. O selecionador Gabriel Mendes chegou à federação para agarrar no projeto e tirar o máximo partido do Centro de Alto Rendimento em Sangalhos, que dispõe de um velódromo cada vez mais procurado pelas principais seleções para prepararem os grandes torneios. Foi nessa altura que apareceram os gémeos Oliveira. O trabalho desenvolvido alcançou as primeiras e históricas medalhas no ciclismo de pista em 2013. Rui ficou com a medalha de prata no scratch nos Europeus de juniores e Ivo foi aos Mundiais do mesmo escalão ganhar o bronze na corrida por pontos.

Ao todo, são 17 medalhas conquistadas em todos os escalões, 15 da responsabilidade dos gémeos - nove de Ivo a título individual e uma com o irmão - e duas de Maria Martins.

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