Gabriel, o taxista bicampeão pelo FC Porto que também foi leão

Jogou 14 anos de dragão ao peito e vestiu de leão outros quatro. Foi treinador e teve um café, mas hoje é ao volante que ganha a vida

Gabriel faz parte da história do FC Porto. Lateral direito "inventado" por José Maria Pedroto, ajudou os dragões a quebrar um longo jejum de 19 anos sem ganhar o campeonato, nos finais da década de 70. Representou apenas quatro clubes na carreira: FC Porto, Sp. Espinho, Sporting e Sp. Covilhã, onde acabou a carreira em 1987-88. Depois foi treinador, investiu num café e num táxi. Hoje é ao volante que um dos defesas mais acarinhados pelos adeptos portistas ganha a vida.

"Depois de acabar de jogar ainda treinei algumas equipas dos escalões secundários (Feirense, Covilhã, Sanjoanense, etc.). Quando o meu irmão, José Mendes (antigo lateral direito do Sp. Braga e Salgueiros nos anos 70-80), deixou de jogar, investi num café e ele ficou à frente do negócio. Depois ele cansou-se daquela vida e investi num táxi", contou ao DN o antigo dragão e leão, lembrando que as licenças dos táxis, na altura, "quase davam para comprar o passe de um jogador".

Há cerca de 15 anos, a vida trocou-lhe as voltas. O irmão morreu e ele quase foi "obrigado a pegar no volante". Ser taxista "tem os seus inconvenientes", mas "graças a Deus" nunca teve problemas com assaltos. Os clientes gostam de discutir sobre tudo. "Por vezes, parece que somos o padre no confessionário", atira, antes de dizer que "os assuntos que mais puxam são sem dúvida o futebol e a política".

E os clientes reconhecem-no? "Sim, com frequência e é sempre uma sensação agradável ser reconhecido. Normal. Ainda há dias fui buscar umas pessoas à Universidade Católica e o porteiro não contava comigo [risos]. Virou-se para mim e disse "desculpe, o senhor não jogou no FC Porto? É o Gabriel, não é?". Eu disse que sim e ele fez-me uma festa, a dizer que era um grande jogador. É agradável quando assim é", respondeu.

"Há quem estranhe" ver um antigo jogador a conduzir um táxi, mas cada vez menos, segundo Gabriel, que gostava de ter ganho um terço do que os jogadores ganham hoje em dia. "É muito difícil fazer comparações. São tempos diferentes. Hoje no futebol ganha-se muito dinheiro. Eu mesmo no FC Porto, e já internacional A, ganhava 12 contos e meio [cerca de 60 euros]."

Mais de 30 anos depois de deixar os relvados, a hora do futebol continua a ser sagrada. Já não entra em campo, mas o táxi estaciona para ele ver os jogos dos dragões e Gabriel gosta do que vê, apesar de "não ter nada que ver" com o seu tempo: "O futebol de hoje é mais tático e por vezes tira algum brilho ao jogo. O da minha altura era mais puro, não era tão trabalhado, era mais na base da qualidade dos jogadores. Mas o que não muda é a entrega dos jogadores. Eu não correria mais agora do que corri naquela altura, ganhava era mais por isso."

O início e o fim com Pedroto

Para trás ficou uma carreira "simpática", com destaque para o bicampeonato pelo FC Porto. "A festa foi maior do que a de São João! Há 19 anos que o FC Porto não era campeão, naquele ano foi uma loucura", contou ao DN o antigo jogador dos dragões, recordando que "a primeira vez que entrou numa discoteca foi na festa do título 1977-78".

O obreiro desse título foi José Maria Pedroto. Um "visionário", que já naquela altura era um treinador que "estudava os adversários" e "tinha o dom" de colocar os jogadores onde rendiam mais. "Nos juvenis, eu jogava a médio defensivo e era onde gostava mais de jogar, mas a equipa precisava de um defesa esquerdo e andaram a experimentar alguns jogadores até que me chamaram a mim. Eu não gostei muito da ideia, naquela altura dizia-se que quem jogava na defesa eram os toscos [risos]. Mas lá fui e safei-me, joguei os juniores todos a defesa esquerdo, quando cheguei à equipa principal, no primeiro treino, o Pedroto chamou-me e disse: "Gabriel, eu já o vi jogar em vários lugares, mas ainda ninguém o colocou no lugar certo. Vai passar a jogar no lado direito.""

E assim se ganhou um lateral direito, moderno, que subia muito no terreno e cruzava bem, sem, no entanto, deixar de ser seguro na marcação. Qualidades que o levariam à seleção nacional com apenas 20 anos - vestiria a camisola das quinas por mais 20 vezes.

A relação com Pedroto acabou da pior forma. Ao ponto de Gabriel sair do FC Porto por causa dele. "Não saí chateado com o Pedroto, saí muito chateado! Eu antes quero ser prejudicado do que prejudicar alguém. Bom, mas vamos lá explicar: eu tive de ir a França fazer uns exames porque em Portugal não havia as máquinas para detetar a lesão que tinha - eu não conseguia andar sem dores, quanto mais correr. Em França chegaram a dizer-me para forçar a ver se rasgava para ser operado. Voltei e o FC Porto ia ter um jogo grande, ele virou-se para mim e disse: "Gabriel, tens de jogar." E eu respondi: "Nem que seja de canadianas, eu vou lá para dentro, mas você sabe como eu estou.""

Chegado o dia do tal jogo grande, tomou um Voltaren e jogou. "O FC Porto ganhou, mas, no final do jogo, quando cheguei ao balneário, o Pedroto virou-se para mim e disse: "Oh, Gabriel, pus-te a jogar e tu quase me davas cabo do jogo." Nem lhe conto o que me apeteceu fazer, mas saí do balneário a dizer: "Aqui não jogo mais enquanto ele [Pedroto] for treinador.""

E assim foi. Recorreu ao sindicato e invocou "falta de condições psicológicas para continuar" de azul e branco para rescindir o contrato. Depois, assinou pelo Sporting, sendo quase sempre titular, embora com John Toshack, "que tinhas as suas ideias" e inventou o sistema de três defesas, tenha jogado menos. De leão ao peito jogou contra o FC Porto e "não foi fácil". "Chegar às Antas [Dragão] do outro lado... fui um bocado assobiado, mas depois de a bola começar a rolar esqueci tudo", conta aquele que ainda hoje é dos jogadores com mais clássicos jogados (20).

Acabou a carreira em 1987. Nesse ano o FC Porto seria campeão europeu, mas Gabriel já não era dragão. Jogava de leão ao peito há quatro épocas. Depois, o amigo Vieira Nunes convidou-o para ir para o Sp. Covilhã. "Fui, mas tive uma lesão que só me deixou fazer nove jogos e no final da época resolvi acabar a carreira. Não foi nada dramático. Fui-me mentalizando. Já tinha 34 anos e o corpo ia-me dando sinais de que era hora de parar."

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