Em nome do pai, os filhos escrevem a sua própria história

Na I Liga, há 18 filhos de antigo futebolistas do mesmo escalão. Alguns contam ao DN como é conviver com essa pesada herança

"Fui o bebé mais famoso daquela época". O pai, Bebeto, anunciou o seu nascimento ao mundo com o festejo mais emblemático da história dos mundiais de futebol e, 22 anos depois, Mattheus Oliveira luta pela afirmação em nome próprio. O médio brasileiro do Estoril é dos mais conhecidos filhos de ex-jogadores que despontam, esta época, na I Liga - a lidar com comparações frequentes enquanto tentam trilhar o seu próprio caminho. Para eles, ser "filho de..." é um orgulho mas também uma grande responsabilidade.

Vê-se, outra vez, um André no meio-campo do FC Porto, um Artur Jorge no eixo da defesa do Sporting de Braga, um Pedro no sector mais recuado do Paços de Ferreira. Ouvem-se os apelidos Novais, Taira ou Venâncio de volta aos relatos. E até parece que o tempo não passou (ou regressaram alguns dos craques dos anos 80 e 90). Não é assim: simplesmente, para estes atletas (e para outros), o futebol é um assunto da família, uma paixão hereditária que foi transmitida com igual (ou equiparada) dose de talento de pais para filhos.

Ao todo, há 18 futebolistas na I Liga que são herdeiros de antigos jogadores das principais ligas europeia - numa lista que inclui até um internacional sub-20 português, Xande Silva (avançado do Vitória de Guimarães), descendente de um angolano, Quinzinho (antigo atacante do FC Porto, agora técnico-adjunto do Vilafranquense. Ambos, curiosamente, têm encontro marcado para o jogo dos oitavos-de-final da Taça de Portugal entre minhotos e ribatejanos.

Afinal,nem todos os laços são evidentes como os que ligam André André a António André [ver mais à frente]. À primeira vista, o nome não denuncia que Filipe Ferreira, lateral-esquerdo do Paços, é filho de José Carlos, antigo defesa-direito de Benfica e Vitória de Guimarães (entre outros emblemas). E ele nem parecia destinado a ser futebolista: "O meu pai nunca forçou que tivesse esta carreira. Insistiu nos estudos e fiquei a uma cadeira de acabar [a licenciatura em Gestão], quando vim jogar para o norte do País", conta, ao DN, o jogador pacense, que deixou o Belenenses no último verão.

No entanto, Filipe "sempre teve, desde miúdo, uma relação muito próxima com a bola". Por isso, apesar dos avisos quanto à escola - "ele sabe bem como este é um trabalho de curta duração e desgaste rápido, que acaba cedo" - José Carlos decidiu apoiá-lo "com a força toda". Afinal, "é bastante natural que quem nasce neste meio" - a acompanhar, desde cedo, os progenitores nos treinos e nos jogos - vire futebolista, admite o antigo lateral-direito.

Como lidam com as comparações

Em todos eles - como dizem também Afonso Taira, João Novais, Mattheus Oliveira e Pedro Monteiro, os outros filhos ouvidos pelo DN - o clique deu-se com essa naturalidade, "sem pressão" dos progenitores para que seguissem uma carreira desportiva. "O meu pai sempre foi muito transparente quanto a isso, sempre me apoiou ao perceber que era a minha vontade", nota o brasileiro.

Todavia, para eles, a genealogia tem um preço. Todos garantem, ipsis verbis, que "o orgulho" de seguirem os passos dos pais é "bem maior" do que o peso do apelido que carregam sobre os ombros. Contudo, as comparações são inevitáveis, principalmente quando se joga na mesma posição - como acontece na maior parte dos casos [ver tabela à direita] - ou num clube onde o pai deixou marca.

"É inevitável as pessoas falarem do meu pai e olharem-me como um Pedro mais novo. Mas não sinto pressão por causa disso. Cresci a ver o meu pai treinar e jogar, desde pequeno que sonhva imitá-lo, e acho engraçado andar pelo mesmo clube onde ele passou tantos anos", confidencia Pedro Monteiro, central que chegou esta época (emprestado pelo Sporting de Braga) ao mesmo Paços de Ferreira cuja defesa o pai - homónimo - comandou entre 1985 a 1997.

Que parecenças estão à vista?

Quando se é filho de um goleador de fama global, o caso muda de figura. Mattheus Oliveira era um bebé recém-nascido quando ficou nas bocas do mundo, assim que o pai lhe dedicou o golo marcado à Holanda nos quartos-de-final do Campeonato do Mundo de 1994 - ficou célebre o festejo "embala-neném" e aquela vitória (3-2) embalou o Brasil para o título mundial. Ao despontar para o futebol no Flamengo, como Bebeto (que depois brilharia no Deportivo, da liga espanhola), o filho estava sujeito a todo o tipo de comparações - algo que só a mudança para Portugal, em 2014, veio suavizar. "Vivi essa pressão quando estava a começar. Não é que exigissem que jogasse parecido ao meu pai [Bebeto jogava mais à frente, era avançado] mas faziam a comparação. Aqui é mais tranquilo em termos de cobrança", explica.

Ainda assim, há qualquer coisa de Bebeto em Mattheus ("pelo que falam, o toque de bola, sempre em contacto com ela"); como há algo do pai (antigo jogador do Belenenses e do Salamanca, entre outros) em Afonso Taira, médio do Estoril: "Eu vi pouco do meu pai a jogar à bola, parece que adormecia quando íamos ao estádio. Mas, pelos vistos, há parecenças, até na maneira de correr, de passar, de subir no campo. Eu concordo, em parte, porque acho que evolui para um estilo diferente", diz o centro-campista estorilista.

No caso de João Novais, médio do Rio Ave, as semelhanças com o progenitor, velha glória do Salgueiros, também são evidentes - tantas que, nas camadas jovens havia quem lhe chamasse "Abílio Júnior". "Revejo-me muito nele. Tenho mais estatura e poder de choque mas herdei a posição, a apetência pelas bolas paradas e o jeito de atirar à baliza. Às vezes, a seguir a um remate, o Tarantini e o Villas-Boas [os mais velhos do plantel] dizem-me "boa Abílio!"", conta o jogador, que, antes de chegar a Vila do Conde, chegou a usar o número e a braçadeira de capitão que o pai antes envergara nos seniores dos Leixões ("um grande motivo de orgulho")

O pai como fã e crítico número um

Para todos, o progenitor é "a" referência. E um dos casos mais emblemáticos da I Liga é André André, médio do FC Porto como o pai António André foi durante onze épocas (1984-1995). "Enquanto jogador, procuro seguir o que o meu pai me transmitiu. Nunca quis ser conhecido por causa dele, quis trabalhar e conquistar algo pelo meu próprio pé, pois não gosto de pedir favores a ninguém. Ele sempre me incutiu esse espírito de luta e de sacrifício", disse o médio, numa das ocasiões em que falou publicamente dessa inspiração paternal.

"Nas camadas jovens nem gostava que ele fosse ver os meus jogos. Posso até fazer quatro golos num jogo mas sei que se falhar um passe, ele vai falar-me desse lance. Mas, ainda assim, é a ele que ligo sempre que acaba um jogo", contou, então, André André. Mas, essa condição de ter os pais, em simultâneo, como fã e crítico n.º1, é algo que todos apontam.

"Sempre me habituei a ver o meu pai como um exemplo. Ele vai sempre aos jogos, dá muito apoio e conselhos. É o meu maior crítico, o que me acompanha há mais tempo e sabe os meus tiques e manias", revela Afonso Taira. "Falamos todos os dias. O meu pai pergunta-me sempre como correram os treinos e diz-me para nunca facilitar nem me ir abaixo. Antes fazia-me mais críticas, agora manda sempre mensagens a desejar boa sorte antes dos jogos", descreve, por seu lado, Pedro Monteiro.

No fundo, serão todos assim. "Corrijo-o com todo o carinho, para ele se tornar ainda melhor e ganhar mais confiança. É um orgulho muito grande para nós tê-lo a seguir os passos do pai", destaca Abílio, "feliz e realizado" com os progressiva afirmação de de João Novais. "Gostava que ele batesse todos os registos do pai", diz o antigo criativo do Salgueiros.

"Estou a escrever a minha história"

Ora, essa afirmação em nome próprio é o que os filhos perseguem. "Procuro que me olhem como o Mattheus, jogador de futebol, e não como o filho do Bebeto", diz o estorilista. "Vou deixando a minha marca, para ver se as pessoas dizem antes "vai ali o Filipe"", acrescenta o lateral. "Quem está em campo é o João, não é o Abílio. Não estou a continuar a história dele, estou a escrever a minha própria história", sentencia o mais novo dos Novais. Ainda assim, a inspiração é clara, na hora de colocar a fasquia, como faz Afonso Taira: "Se conseguir o que o meu pai conseguiu, não terei muito mais a desejar: terei conseguido uma carreira fantástica."

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