Inês Henriques, uma recordista mundial à procura do ouro

Domingo é dia de marcha e Inês Henriques entra como recordista do mundo numa prova (50 km marcha) que, entre as mulheres, faz em Londres a estreia em mundiais

Os Mundiais de Londres poderão tornar-se um marco histórico para mais uma conquista das mulheres no atletismo. Pela primeira vez está incluída no programa a prova feminina dos 50 km marcha, com a portuguesa Inês Henriques como favorita ao ouro, trazendo na bagagem um recorde mundial de 4h08m25s.

Porém, a história em torno desta prova está envolta em polémica desde o início. Recuemos um ano no calendário, até uma reunião promovida pela IAAF (Federação Internacional de Atletismo) em Londres onde ficou decidido e foi comunicado que a prova dos 50 km marcha, a única que não tinha variante feminina em mundiais, entraria no programa desta competição no ano seguinte. E este foi apenas o primeiro capítulo de uma novela. A IAAF defendia que as atletas teriam de correr numa prova conjunta com os homens, obter a mesma marca de qualificação masculina (4.06.00) e não teriam direito a medalhas na sua variante.

Iniciou-se aí um processo conjunto de várias federações com o objetivo de alterar estas regras, que pareciam tudo menos justas. Jorge Miguel, treinador de Inês Henriques, foi um dos que encetaram esta luta. Primeiro desafiou a sua atleta a passar dos 20 km marcha para os 50. E depois decidiu pressionar os membros da IAAF a alterarem as regras, como explicou já na capital londrina: "Eu próprio tentei que eles não cometessem esse erro e que se fixasse um mínimo adequado para as mulheres, como se faz nas restantes provas."

O pedido não foi atendido e a guerra estendeu-se ao longo de meses. Mesmo assim, isso não demoveu Jorge Miguel e Inês Henriques de que conseguiriam atingir a marca de qualificação masculina, e assim ter a portuguesa a estrear-se em mundiais nesta distância. Em janeiro surgiu a prova de marcha de Porto de Mós e o técnico pediu à Federação Portuguesa de Atletismo que deixasse a sua atleta participar nos 50 km, a primeira e única da carreira até ao momento, e que a marca pudesse ser homologada. "A partir do momento em que houve essa possibilidade disse à Inês: "Tu vais lá, és a única mulher, mas de certeza que vais ter um impacto enorme por esta reviravolta que está a acontecer."

Inês Henriques marchou durante 4h08m25s. Dois minutos e 25 segundos acima do que pretendia (os mínimos "masculinos"), porém, um tempo que significava o recorde mundial feminino na distância. "Nunca pensei conseguir tal coisa. É óbvio que nós, atletas, trabalhamos todos os dias para conseguir melhores resultados. Se me perguntassem há um ano pelo recorde do mundo, eu responderia que não pensava nisso", explica.

A ajuda americana

Do outro lado do Atlântico, a americana Erin Talcott, presente também neste mundiais, foi outras das que batalharam para mudar as mentes da IAAF, recorrendo ao Tribunal Arbitral do Desporto em busca de decisão favorável. Até que, a três semanas destes mundiais, chegou uma decisão final da IAAF, que estabeleceu uma marca de qualificação feminina em 4:30.00h, o que permitiu que cinco atletas, incluindo a recordista Inês Henriques, vissem carimbado o passaporte até Londres. Para além destas, foram incluídas na prova a campeã sul-americana Nair da Rosa e a campeã norte--americana Susan Randall.

Quando Inês Henriques recebeu a notícia, não podia ter ficado mais contente. Aquilo para que treinou no meio de tantas incertezas iria acontecer: estaria nos mundiais de atletismo nos 50 km marcha. "Vivi tudo com grande ansiedade, mas foi fantástico. Não estava à espera de que a IAAF cedesse tanto. Foi uma grande conquista, quer por parte dos americanos quer minha, também, porque demonstrei com a minha marca que nós, mulheres, podemos fazer tempos de qualidade", diz.

Mas o que para uns é uma grande vitória, para outros é algo condenado ao fracasso. João Vieira, também em Londres para disputar os 50 km marcha, não concorda com o andamento do processo: "Para mim vai ser o fracasso das mulheres. Não é com três semanas de antecedência que se avisa as atletas que vão fazer 50 km. Ter à partida sete mulheres não é o mesmo que estarem 50 homens, como vai acontecer. É um mau princípio por parte da IAAF."

Opiniões à parte, a recordista mundial na distância, Inês Henriques, estará na linha de partida para a estreia dos 50 km marcha femininos. O futuro o dirá se será o início de uma história longa ou apenas um conto de verão.

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