Fernando Santos, o conquistador que nunca gerou consenso seguiu para a Polónia

Ex-selecionador português foi esta terça-feira apresentado como técnico da seleção polaca. Assinou até 2026, pediu "tempo" e mostrou "ambição", recusando destacar Robert Lewandowski dos demais: "Estrelas só conheço no céu". E nunca vi lá nenhuma sozinha. A equipa tem de ser um conjunto de estrelas."

Fernando Santos vai assumir o cargo de selecionador polaco de futebol, após um legado como conquistador' em Portugal, vencendo o Euro 2016 e a Liga das Nações (2019), num percurso de oito anos que não gerou consenso. Assinou até 2026 e assumiu ser "gratificante poder continuar esta carreira de selecionador num país com tanta influência, com tanta qualidade."

"A Polónia é um grande país, com uma história enorme, uma cultura enorme, semelhante ao nível da sua seleção nacional. É uma equipa com muitos jogadores de qualidade, é uma das equipas que foi ao Mundial. A partir de hoje sou polaco, sou um de vocês. Vamos fazer de tudo para dar alegrias ao povo polaco", referiu numa conferência de imprensa descontraída, onde pediu "tempo" ao mesmo tempo que deixou "uma palavra de ambição".

Fernando Santos mostrou confiança no trabalho que vai desenvolver: "Estou absolutamente convencido de que vamos dar muitas alegrias e vamos trabalhar muito para isso, todos em conjunto. A sorte não cai do céu, a sorte procura-se. Nós todos vamos conseguir coisas muito boas para a seleção polaca".

O treinador português foi também questionado sobre Cristiano Ronaldo e Paulo Sousa. "Mais importante do que os jogadores é a equipa, a equipa é mesmo isso, um conjunto de jogadores. Cada um terá a sua mentalidade, personalidade. Eu, como selecionador nacional, tenho de juntar todos. Foi isso que sempre fiz ao longo da minha carreira - que já é longa - e é isso que continuarei a fazer. Sou amigo do Paulo [Sousa], tenho uma relação com ele há muitos anos, estivemos juntos nas camadas jovens de Portugal. Somos pessoas distintas. Nunca analiso o trabalho dos meus colegas. Pensarmos que somos melhores ou piores só por termos estilos diferentes..."

O assunto CR7 parece ter ficado esquecido... A fechar, o engenheiro foi desafiado a destacar alguns jogadores polacos em destaque, mas preferiu, uma vez mais, não individualizar, numa resposta que pode ser vista com uma recado para Ronaldo: "Tenho uma expressão que uso muitas vezes: "Estrelas só conheço no céu". E nunca vi lá nenhuma sozinha. A equipa tem de ser um conjunto de estrelas."

A Grécia e o Euro 2026 por Portugal

Seguindo as pisadas de Paulo Sousa, que também orientou os polacos, Fernando Santos herda uma Polónia que se ficou pelos oitavos de final do Mundial 2022, em que liderou os lusos até aos quartos, com o astro Lewandowski à cabeça e a ambição de se elevar da mediocridade que tem mostrado em torneios internacionais recentes.

A federação polaca virou-se, assim, para o técnico de 68 anos, com vasta experiência a liderar Grécia (2011-2014) e Portugal (2014-2022) em fases finais e qualificações, com duas conquistas, Euro 2016 e Liga das Nações, a abrilhantarem um currículo que é, também, o dos dois troféus da seleção portuguesa sénior, ainda que o futebol jogado tenha gerado muita discussão.

No cargo desde 2014, quando sucedeu a Paulo Bento, Fernando Santos despediu-se da equipa das quinas em dezembro, na sequência da eliminação nos quartos de final do Mundial 2022, no Qatar, perante Marrocos (1-0), uma derrota difícil de aceitar, apesar de ter sido a terceira melhor prestação de Portugal na maior prova global de seleções.

Não obstante, o técnico ficará eternizado na história do futebol português, através das conquistas que ninguém antes dele conseguiu obter, aproveitando a grande qualidade que teve 'em mãos' durante pouco mais de oito anos ao serviço da equipa portuguesa, com a qual totalizou 67 triunfos em 109 encontros, tornando-se recordista em ambos.

Embora nunca consensual pelos adeptos lusos, face às críticas ao estilo conservador - que recusava ter -, Fernando Santos logrou vencer logo no seu primeiro teste de fogo, o Euro 2016. Um golo de Eder derrotou a França na final aos 109 minutos.

Da glória à saída forçada pelos problemas com Ronaldo

Fernando Santos ganhou crédito junto dos adeptos com o maior feito do futebol luso, mas as críticas voltariam à tona no Mundial 2018, com a eliminação aos pés do Uruguai nos oitavos de final (2-1), ronda precoce do torneio para o campeão europeu vigente.

A mais jovem competição continental de seleções, a Liga das Nações, teve a sua edição inaugural no ano seguinte e Fernando Santos assumiu desde logo a intenção de vencer o cetro, o que conseguiu, ainda por cima numa 'final a quatro' disputada em Portugal, desta vez resolvido com um golo de Gonçalo Guedes, frente aos Países Baixos, por 1-0.

Visto por muitos como o melhor conjunto de jogadores de sempre, a seleção nacional voltaria a fracassar no Euro 2020, disputado em 2021 devido à pandemia de covid-19, com nova queda nos oitavos, agora perante a Bélgica (1-0), treinada por Roberto Martínez o novo selecionador português.

Este ano, no Mundial 2022, para o qual teve de se apurar através do playoff, uma vez que perdeu a qualificação direta para a Sérvia, Fernando Santos assumiu o objetivo de voltar a fazer história e tornar Portugal, pela primeira vez, campeão do mundo, mas o sonho esbarrou na surpresa Marrocos, numa edição marcada por várias polémicas à volta de Cristiano Ronaldo, que viria mesmo a perder a titularidade na fase a eliminar.

Antes de assumir o cargo em Portugal, Fernando Santos tinha-se tornado um treinador de referência na Grécia, onde chegou a seleção helénica durante quatro anos, incluindo no Euro 2012 e no Mundial 2014.

Com raízes familiares na localidade de Sorgaçosa, pertencente ao concelho de Arganil, Fernando Santos licenciou-se em engenharia eletrónica e telecomunicações, em 1977, durante a sua carreira de futebolista, onde conquistou a segunda divisão, pelo Estoril, e agora vai conhecer novo país na carreira, a Polónia, com casa em Varsóvia.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG