Djokovic e a Austrália. O nono ato de uma história de amor feliz

Sérvio bateu na final o russo Medvedev por 3-0, conquistou o seu nono troféu em Melbourne e chegou aos 18 títulos em Grand Slams. Além disso bateu um recorde - está há 311 semanas consecutivas na liderança do ranking ATP.

Quem esperava uma final equilibrada do Open da Austrália, enganou-se. Novak Djokovic, 33 anos, líder do ranking mundial, não deu hipóteses a Daniil Medvedev, 25, e bateu ontem o russo pelos parciais de 7-5, 6-2 e 6-2 em uma hora e 53 minutos. Foi o nono título do tenista sérvio em Melbourne, o terceiro consecutivo, e permitiu-lhe ficar a dois majors de igualar os registos dos rivais Roger Federer e Rafa Nadal, que contabilizam 20 vitórias de Grand Slams.

A Austrália é, de facto, o reino de Djokovic, uma história de amor perfeita, como o próprio reconheceu no final do jogo. Um romance que começou em 2008, quando bateu na final o francês Jo-Wilfried Tsonga, e que prosseguiu em 2011 (contra Andy Murray), 2012 (Rafael Nadal), 2013, 2015, 2016 (os três novamente contra Murray), 2019 (Nadal) e no ano passado (Dominic Thiem). Ontem teve mais um capítulo feliz.

Djokovic conseguiu em Melbourne mais um feito, assegurando um novo recorde, ao manter-se na liderança da hierarquia mundial pela 311.ª semana consecutiva, ultrapassando o registo de Roger Federer, de 310 semanas. Já Daniil Medvedev, que disputou a sua segunda final de um major, após o US Open de 2019, vai subir à terceira posição do ranking ATP, relegando o austríaco Dominic Thiem para o quarto posto.

Numa Rod Laver Arena bem composta com cerca de oito mil pessoas nas bancadas, o sérvio entrou no encontro a pressionar, valendo-se da sua maior experiência em finais do Grand Slam (28) e em Melbourne, e chegou rapidamente ao 3-0 no primeiro set, provocando a quebra de Medvedev logo no seu primeiro jogo de serviço.

Depois do impacto inicial, com um Djokovic demolidor, o russo conseguiu reagir no quinto jogo e recuperar do break de desvantagem (3-2), colocando-se a servir para a igualdade e estabelecendo o equilíbrio na partida.

Forçando o adversário a subir à rede, o número um mundial, com um jogo muito agressivo, só foi capaz, contudo, de desequilibrar o adversário ao cabo de 42 minutos, quando conseguiu fechar o parcial, no 12.º jogo, por 7-5.

Na segunda partida, apesar de Medvedev ter iniciado com um break, Djokovic não deu hipóteses e de imediato estabeleceu a igualdade no marcador, passando para a frente logo no jogo seguinte do adversário (3-1), que cometeu alguns erros e baixou a percentagem de primeiros serviços.

A partir daí, o tenista de Belgrado não concedeu mais oportunidades ao russo, que, frustrado, partiu a raqueta após o 5-2, e encerrou a discussão pelo parcial, quebrando novamente o serviço ao adversário, com um 6-2.

Com dois sets a zero, Djokovic assinou novo break de entrada sobre Medvedev, por esta altura a cometer muitos erros e a não encontrar soluções para fazer face ao ténis intenso do adversário, que rapidamente chegou a uma vantagem confortável (3-0).

Mantendo a distância e a superioridade, durante as longas trocas de bolas, o sérvio confirmou o seu favoritismo com uma bola alta quase de costas junto à rede, encerrando a terceira partida e o encontro, com nova quebra de serviço, ao fixar no marcador novo 6-2.

História de amor

Apesar das duas semanas atribuladas que viveu em Melbourne, Djokovic fez um balanço positivo da sua campanha na 109.ª edição do Open da Austrália, que lhe permitiu ainda assegurar o recorde de 311 semanas na liderança do ranking.

"A nossa história de amor continua. Não foi nada fácil este ano, foi como uma montanha russa. Quero agradecer especialmente ao meu fisioterapeuta [o argentino Ulises Badio], por tudo aquilo que fez", comentou, referindo-se à recuperação da lesão abdominal contraída na terceira ronda frente ao norte-americano Taylor Fritz. "Fiz uma rutura no músculo. Cada um é livre de opinar o que quiser, mas ficará comprovado no final do ano, quando for divulgado o documentário que estive a gravar, por estes dias, durante a recuperação", contou.

Djokovic revelou ainda que pretende fazer pequenos ajustes no seu calendário competitivo, por forma a concentrar-se nos torneios do Grand Slam e no objetivo de "conquistar tantos quanto possível".

"Não penso que estou a envelhecer, mas tenho de ser inteligente na hora de fazer o meu calendário. Vou dedicar especial atenção aos torneios do Grand Slam, já que o meu objetivo é ganhar tantos quanto possível. A outra razão é pelo facto de não poder ter a minha família comigo, devido à pandemia [de covid-19]", explicou o sérvio e número um mundial.

Antes de Djokovic felicitar a organização "pelo torneio bem-sucedido e o grande esforço para tornar o Open da Austrália possível", Medvedev reconheceu o mérito do sérvio, apesar de ter confessado que "nunca é fácil falar depois de perder uma final de um torneio do Grand Slam".

"Mas vou tentar fazer melhor do que em campo. Parabéns ao Novak e à sua equipa. Nove títulos no Open da Austrália é fantástico e provavelmente não será o último", atirou o jovem vice-campeão.

Marcado pela guerra

Novak Djokovic nasceu na cidade de Belgrado, hoje Sérvia e na altura Jugoslávia, a 22 de maio de 1987. Parte da sua infância foi vivida em plena guerra dos Balcãs - "a guerra é algo que não desejo a ninguém, é destruição, é perder famílias e pessoas queridas". Começou a jogar ténis aos 4 anos, e como tinha jeito para a modalidade, com 12 começou a treinar na escola de Niki Pilic, em Munique, na Alemanha, onde permaneceu até aos 14 anos.

A paixão da família pelo desporto - o pai, um tio e uma tia foram esquiadores profissionais e o pai foi também jogador de futebol - teve influência na escolha da carreira como tenista. "O ténis foi uma bênção na minha vida, deu-me muitas coisas positivas. O meu amor pelo desporto é muito grande e, de certo modo, o ténis salvou-me a vida. Tive muita sorte em ter um pai e uma mãe que acreditaram nas minhas habilidades", disse há uns anos Djokovic, que se estreou como profissional aos 16.

Frio, metódico e calculista, o tenista sempre admitiu que a sua personalidade foi muito vincada pelo seu passado, sobretudo o facto de nunca se resignar. "Vem da minha capacidade de sobreviver em court. Ter sobrevivido a circunstâncias particulares de guerra foi duro para mim e para a minha família, bem como para todo o país. Mas foi uma experiência que se tornou valiosa, que me moldou e tornou naquilo que sou hoje, principalmente a minha força mental, o nunca desistir e o espírito de luta", contou Djokovic há uns anos.

"Este tipo de experiências por que passei no passado ajudaram-me, sem dúvida, a ser mais sensível em relação à vida, a apreciar mais as coisas e a ter mais consciência de quem sou. As coisas podem mudar rapidamente, e temos de ter respeito por isso, e ficar agradecidos. Por outro lado, isso fez que tivesse mais fome de sucesso. Isso fez que me tornasse mais trabalhador, porque não tive apoio de ninguém, tive de conquistar tudo do zero, com as pessoas mais próximas de mim", acrescentou.

No total, o sérvio contabiliza 82 títulos conquistados, 18 em Grand Slams, com 934 vitórias e 192 derrotas. A primeira vez que chegou a número um mundial foi a 4 de julho de 2011. Agora está há 311 semanas no topo do ranking ATP. E por lá deve ficar mais algum tempo... com lusa

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