Como se pode limpar as listas de recordes das manchas do doping?

Confederação europeia lança task force para analisar e credibilizar recordes continentais. Apagá-los todos é uma das hipóteses

O tecido está manchado, com marcas claras de sujidade. Um simples detergente não deve funcionar mas um tira-nódoas pode estragá-lo de forma irreversível, destruindo todas as cores e padrões originais. O que fazer? Não, não é uma simples questão de teor doméstico: é o problema com que se depara a Associação Europeia de Atletismo, que criou uma task force (um grupo de trabalho) para analisar e dar credibilidade à lista de recordes continentais, garantindo que ela fica sem máximos alcançados por atletas dopados.

No centro da controvérsia está o o formato da avaliação que o grupo de trabalho, presidido pelo irlandês Pierce O"Callaghan (responsável pelos Mundiais de Londres 2017), vai realizar - com apresentação de conclusões prevista para o outono. Jorge Salcedo, membro português do Conselho da Associação Europeia de Atletismo (EAA, na sigla em inglês), acredita que "algo vai ser feito" mas não tem pistas quanto ao caminho que será seguido. Há a hipótese de se eliminarem apenas os registos suspeitos de terem sido obtidos com recurso a doping mas a culpa dos atletas pode ser difícil de provar (a solução detergente); e há possibilidade de se reiniciar do zero as listas dos recordes a partir de uma determinada data, embora isso apague também as marcas limpas (a solução tira-nódoas). Como decidir?

Em causa estão muitos registos dos anos 80, obtidos por atletas de países da Europa de Leste, suspeitos de terem sistemas estatais de dopagem sistemática - como os da checoslovaca Kratochvilova nos 800 metros (1983), da alemã oriental Koch nos 400 metros (1985) ou do soviético Sedikh no lançamento do martelo (1986), três dos mais antigos máximos mundiais. Segundo contas do jornal espanhol El País, em 43 recordes europeus em provas/distâncias olímpicas (em que se incluem os dos portugueses Francis Obikwelu, nos 100 metros, e António Pinto, na maratona), só 13 são considerados livres de suspeitas e 20 são particularmente duvidosos. No entanto, Jorge Salcedo desconfia da possibilidade de se analisarem as marcas caso a caso. "Na Comissão de Eventos e Competições da EAA [de que faz parte] não se falou disso mas, sim, da hipótese de se reiniciarem os recordes. [Porém] não houve conclusões quanto ao que fazer", explica, ao DN, o dirigente luso.

"O problema é que se não houver provas cabais vai ser complicado eliminar recordes do atleta A, B ou C. E dizer que em tal país havia um sistema estatal de dopagem também não funciona se não houver provas quanto aos atletas em específico", aponta Salcedo, lembrando as "dificuldades do ponto de vista legal", por as amostras recolhidas nos anos 80 já terem sido destruídas.

Da task force faz parte o húngaro Imre Matrahazi, responsável da Associação de Federações Internacionais de Atletismo (IAAF) para a homologação de recordes. Um sinal importante, "pois alguns dos resultados são também recordes mundiais e tem de haver acordo entre todos" caso a confederação europeia opte por fazer reset a todos os recordes. "A única maneira [de ter uma lista seguramente limpa] era começar do zero. Reiniciar recordes seria mais fácil do que limpar só alguns... mas a partir de que data?", questiona o membro do conselho da EAA, alvitrando alternativas como "a alteração do peso dos engenhos" mas admitindo que isso obrigaria as federações a enormes despesas na compra de novos equipamentos, como pesos, discos ou martelos.

A definição de uma data a partir da qual os recordes já fixados possam ser considerados credíveis - a partir do início do milénio, do momento em que passaram a fazer-se controlos entre competições, ou de quando se passou a utilizar o passaporte biológico - é de difícil decisão. Nem Luís Horta, médico especialista em antidopagem, encontra um instante a partir do qual lhe pareça seguro ou justo iniciar a contagem. "Estaria de acordo com essa solução se as amostras recolhidas após os recordes serem batidos fossem armazenadas durante 10 anos como são as dos Jogos Olímpicos. Mas mesmo assim podemos ter um atleta que após o recorde está limpo sem que nada nos garanta que ele não se terá dopado durante a preparação para ter esse resultado", aponta ao DN.

"Discordo da hipótese de começar tudo de novo [também] porque há direitos de atletas que têm de ser preservados", acrescenta o antigo presidente da Autoridade Antidopagem de Portugal, sustentando que "a melhor alternativa seria estabelecer critérios que permitissem" salvaguardar os registos limpos mas admitindo não estar "a ver quais".

Ora, Jorge Salcedo mostra igual preocupação com os direitos dos atletas, "até pela qualidade das marcas que foram registadas nos últimos anos". "Seria injusto, por exemplo, para Usain Bolt, se todos os recordes mundiais fossem postos a zeros. Custava perder as suas marcas", frisa. Ou seja, a discussão vai arrastar-se por bastante tempo: não é tão simples como a banal limpeza de um tecido doméstico.

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