Collin e Joey, dois missionários do futebol americano em Portugal

Collin Franklin e Joey Bradley ajudam equipa lisboeta a dominar a liga portuguesa e querem fazer evoluir a modalidade por cá

Hoje joga-se o Super Bowl, a final da Liga de futebol norte-americana (NFL), que colocará frente a frente os Atlanta Falcons e os New England Patriots. Sendo uma modalidade que pouco diz à esmagadora maioria dos portugueses, a verdade é que que existe um nicho crescente de adeptos que vai seguir o evento com toda a atenção.

O interesse em torno do futebol americano tem aumentado no nosso país nos últimos tempos e isso nota-se não só no consumo mediático da NFL norte-americana como também no crescimento da jovem liga portuguesa, que conta com dez equipas. Prova disso, a chegada, em outubro de 2015, de dois jogadores provenientes dos "States" ao Lisboa Devils, o campeão em título da Liga portuguesa. São eles o tight end Collin Franklin, 28 anos, e o quarterback Joey Bradley, dois anos mais novo. No entanto, o primeiro norte-americano a jogar em Portugal (igualmente nos Lisboa Devils) foi Malcolm Gasque, mas a sua experiência durou apenas a temporada passada.

Collin, de 1,96 metros e 110 kg, chegou a jogar na NFL, embora com passagens discretas pelo Tampa Bay Bucanneers e pelo New York Jets. Em 2011, abandonou a carreira de profissional, na sequência de várias lesões. Joey não chegou a um nível tão alto, mas foi uma estrela no principal escalão do futebol americano universitário. Ambos foram abordados pelo presidente dos Lisboa Devils, Duarte Carreira, seguindo uma recomendação de Anthony Skinner, canadiano que, à distância, ajuda como treinador defensivo desta equipa - que joga e treina no campo do Sport Lisboa e Olivais. Não foram convencidos à primeira, mas depois de algumas chamadas de Skype lá acederam a tentar a sorte em Portugal.

Por essa altura, Collin trabalhava como agricultor biológico no Havai, unicamente em troca de comida e alojamento, mas não resistiu ao apelo luso. "Tinha vários amigos que jogavam futebol americano em países europeus e todos me contavam que estavam a adorar a experiência, apesar de me avisarem que em termos monetários não era nada agradável [risos]. Decidi arriscar e não poderia estar mais feliz", começa por referir, em conversa com o DN. O seu salário, tal como o de Joey, "é simbólico". "Mas o clube trata das principais despesas que nós temos", diz.

O primeiro impacto não foi fácil. "Cheguei a jogar diante de multidões de cem mil pessoas e aqui não havia ninguém a assistir aos nossos jogos! No entanto, com o tempo aprendi a não ligar tanto à presença de público e jogo sempre com a mesma intensidade", garante Collin, numa opinião compartilhada pelo compatriota.

A média de adeptos nos jogos caseiros dos Devils é de 80 pessoas, número obviamente baixo, mas que ainda assim revela algum crescimento, pois nos primeiros tempos da liga portuguesa só se viam alguns familiares dos jogadores nas bancadas.

Joey passava por um momento muito complicado nos Estados Unidos e foi por isso que decidiu tentar a sorte em Portugal. "Tinha acabado de me licenciar e o meu trabalho era horrível. Eu e a minha namorada estávamos com problemas... E, depois, todos os meus amigos que fizeram viagens pela Europa disseram-me que a cidade de que mais gostaram foi Lisboa, por isso pensei, porque não tentar a minha sorte?", conta. O quarterback revela que o que mais o impressionou nos primeiros tempos "foi a paixão e o conhecimento que as poucas pessoas que em Portugal percebem de futebol americano têm pelo jogo".

Por que não ligam os europeus?

Precisamente a respeito de o futebol americano ser um desporto com pouco destaque na Europa, Collin sublinha "ser algo muito específico dos Estados Unidos, com regras complicadas, que demoram a ser percebidas, enquanto o "vosso" futebol só tem uma regra complicada, que é o fora-de-jogo, bastando haver uma bola e duas balizas". E deixa o aviso: "Enquanto não for feito um esforço mais sério no sentido de arranjar patrocinadores para o futebol americano, que tragam mais dinheiro que permita a contratação de americanos que possam ensinar os portugueses, a modalidade não conhecerá grandes avanços."

Joey defende que há três razões principais para o pouco sucesso do futebol americano no nosso país: "Os poucos jogos transmitidos na televisão, o equipamento muito caro, que leva a que seja muito difícil começar a praticar a modalidade, e o facto de os três clubes grandes não apostarem neste desporto. Se o fizessem, milhares e milhares de pessoas passariam a seguir o futebol americano."

Os Lisboa Devils lideram o Grupo Sul da Liga portuguesa com um registo cem por cento vitorioso (oito vitórias em oito jogos). Collin não esconde o entusiasmo com a evolução dos seus companheiros de equipa. "É inacreditável olhar para alguns deles e comparar o que conseguem fazer hoje em dia com o que faziam há um ano. Eu e o Joey sentimos que temos contribuído para a evolução deles, mas por vezes dou comigo a pensar que não é justa a diferença de experiência entre nós e o resto dos meus colegas", nota, embora defenda que "a falta de formação pode por vezes ser um benefício, uma vez que aprendem tudo de novo e não ganharam alguns hábitos errados desde novos".

O antigo atleta da NFL confessa que só há uma coisa o tira do sério em Portugal. "Existe uma grande inabilidade dos árbitros. Bom, na verdade até é normal que assim seja, pois eles estão a aprender um desporto novo, mas por vezes "passo-me da cabeça" e tenho de lhes explicar que, embora apreciando o esforço deles, algumas das suas decisões não fazem sentido algum", revela.

Vida de sonho em Portugal

Os dois norte-americanos confessam que levam "uma vida fabulosa" em Portugal. Curiosamente, ambos elegem "as aulas de Português, dadas por uma amiga do presidente dos Devils", como os momentos mais divertidos. "Adoro a forma como a vossa língua soa no ouvido e já consigo comunicar, embora umas vezes melhor do que outras. Mas sinto-me orgulhoso por ter estabelecido relações com algumas pessoas falando unicamente em português", confessa Joey. Para além do habitual cliché do "tempo fabuloso e de quase nunca chover" - curiosamente, na noite desta entrevista "chovia a potes" -, o mais novo dos americanos elogia "o estilo de vida descontraído dos portugueses".

Quanto a Collin, tem aproveitado o muito tempo livre - os Lisboa Devils só treinam três vezes por semana, sempre por volta das 21.30 - para ganhar algum dinheiro extra. No ano passado, trabalhou como barman no Urban Beach, a discoteca favorita dos "teenagers betinhos" de Lisboa, experiência que adorou, apesar de na altura não falar praticamente uma palavra de português. "Percebia tudo o que me pediam, pois os nomes das bebidas são iguais em todo o lado!", atira. Mas a música é mesmo a sua grande paixão e não esconde o objetivo de um dia ser músico profissional. "Passo boa parte do dia em casa a produzir, compor e escrever música", revela.

A cultura do Super Bowl

Como não poderia deixar de ser, o Super Bowl é sempre um momento muito especial para Collin Franklin e Joey Bradley. As primeiras recordações de Collin sobre o jogo "são as reuniões de toda a família e vizinhos para assistirem pela televisão ao evento, com muita bebida e comida". Joel também destaca o facto de o Super Bowl "juntar as pessoas", sugerindo que "na segunda-feira seguinte [o evento disputa-se sempre num domingo] seja instituído feriado para que as pessoas possam descansar".

Mas a sua melhor memória do Super Bowl foi a edição de há três anos, a única em que os Seattle Seahawks, a sua equipa do coração, foram coroados como vencedores. "Lembro-me de que dessa vez assisti ao jogo sozinho em casa, aos saltos como um louco! Quando os Seahawks jogam, gosto de ver tudo com muita atenção e, quando se junta muita gente, fica tudo muito confuso", sublinha.

[nota: por lapso, a versão original deste texto chamava Joel Bradley a Joey Bradley. Pelo facto pedimos desculpa ao atleta e aos leitores]

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