Bronze de Rochele permitiu igualar recorde: "Não ia sair daqui sem essa medalha"

Portugal repetiu na Altice Arena o total de quatro medalhas (uma de ouro, três de bronze) conquistado no Europeu de 2008, que também se realizou em Lisboa. Rochele Nunes, judoca nascida no Brasil, dedicou o bronze aos portugueses.

A judoca Rochele Nunes, que nasceu no Brasil mas desde 2019 entra no tatâmi para representar as cores de Portugal, chegou aos Europeus de Lisboa com vontade de cantar o hino. Mas a francesa Lea Fontani estragou-lhe os planos nas meias-finais da categoria de +78 kg, deixando-a frustrada e em lágrimas. Decidida a levar para casa pelo menos a medalha de bronze, a portuguesa entrou horas depois em força no combate com a ucraniana Yelyzaveta Kalanina, precisando de apenas 50 segundos para ganhar por ippon e garantir para Portugal a quarta medalha nestes Europeus, repetindo o resultado histórico de 2008.

"Fiquei muito frustrada pela semifinal. Queria cantar o hino, mas tive de mudar a "chave" e saber que era muito importante eu estar no pódio", contou a judoca de 31 anos, no final do combate. "Eu pensei: não saio daqui sem uma medalha. Vou dar tudo, o meu coração, o meu sangue, se for preciso, mas eu não ia sair daqui sem essa medalha e sem essa vitória", acrescentou, citada pela agência Lusa. Rochele Nunes repetiu o bronze dos Europeus do ano passado, que se realizaram em novembro, em Praga.

No combate pelo terceiro lugar, Rochele garantiu o triunfo com a pontuação máxima, ao entrar muito bem, com um waza-ari nos instantes iniciais, seguido de uma imobilização, diante de uma adversária a quem nunca tinha vencido. Para trás tinha ficado a derrota com a francesa (que viria a perder no combate final frente à turca Kayra Sayit, que venceu o ouro) e as vitórias frente à alemã Renee Lucht e à bósnia Larisa Ceric.

"Dedico [a medalha] a Portugal. É muito difícil para os emigrantes ter esse carinho e esse amor com que eu fui recebida. Portugal investiu e acreditou em mim quando talvez nem eu acreditava. Tem valido muito a pena e dedico a todos os portugueses que "torcem" por mim", disse. Afirmando estar "eternamente grata" e feliz por conquistar o bronze "em casa", a judoca disse ainda estar "muito emocionada porque realmente tenho muito orgulho de lutar por uma bandeira e por um país e de saber que estou perto de concluir o meu objetivo".

A medalha de bronze de Rochele Nunes foi a quarta conquistada por Portugal nestes Europeus de Judo, depois do ouro de Telma Monteiro (na categoria de -57 kg) e dos bronzes de João Crisóstomo (-66 kg) e de Bárbara Timo (-70 kg). Lisboa voltou a ser amuleto para os judocas portugueses, que igualaram o recorde de medalhas conquistadas em 2008, também na capital portuguesa. Com Telma Monteiro - recordista que soma agora 15 medalhas - então lesionada, Portugal ganhou nesse ano o título europeu com João Neto (-81 kg), além das três medalhas de bronze de Pedro Dias (-66 kg), Yahima Ramirez (-78 kg) e da atual selecionadora, Ana Hormigo (-48 kg).

Do ballet ao judo

Rochele nasceu em Pelotas, no Rio Grande do Sul, a 19 de junho de 1989 e pratica judo desde os 8 anos. "Sempre fui muito elétrica e gostava de fazer todas as atividades extra. Como adorava música e dançar, fui para o ballet, e o meu irmão Renan, como gostava muito de ver desenhos animados de luta como os Tartarugas Ninja e o Dragon Ball Z, foi para o judo. Depois, já não me lembro bem porquê, mas acho que foi porque o meu horário do ballet não era compatível com o horário dos meus pais, deixei de ir. E foi então que comecei a insistir para fazer judo. Eles deixaram, eu fui, gostei e já não quis sair mais", contou ao DN em dezembro.

Foi nas competições internacionais que conheceu Telma Monteiro, que depois de ouvir o seu desabafo - "O Brasil é um país muito grande e eu tinha passado por algumas lesões e cirurgias. Era a número três e não via um cenário em que pudesse ir aos Jogos Olímpicos" - a desafiou a vir para Portugal. Chegou em 2018 ao Benfica, obtendo a nacionalidade portuguesa em janeiro de 2019. A judoca já conquistou várias medalhas para Portugal (este ano já conquistou duas de prata, em fevereiro e março, nos Grand Slam de Telavive e Tbilissi), mas ainda espera pela oportunidade de subir ao lugar mais alto do pódio e poder cantar A Portuguesa.

susana.f.salvador@dn.pt

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