Armando Aldegalega. A correr a maratona à beira dos 80 anos

Ex-atleta do Sporting que esteve em dois Jogos Olímpicos completou a última Maratona de Lisboa em quase cinco horas e quer melhorar a marca

Armando Aldegalega foi atleta olímpico, campeão e recordista nacional em várias distâncias. E vai completar 80 anos no dia 23. A idade sugere umas caminhadas ao final da tarde, umas corridas ligeiras em piso de terra batida em dias alternados ou, no máximo, uma ou outra participação em corridas de dez quilómetros. Mas para este quase octogenário isso (ainda) não é suficiente. Há duas semanas, em Lisboa, desafiou o corpo a mais um esforço superlativo e completou a sua 64.ª maratona, a primeira em 15 anos e, a julgar pelo que diz, não terá sido a última. As quase cinco horas que levou a percorrer os 42,195 quilómetros ficaram-lhe atravessadas. Quer mais. Ou melhor, quer... menos tempo.

Quando na quarta-feira o DN falou com Armando no Centro de Alto Rendimento do Jamor, a genica com que caminhava para o complexo, o fato de treino do Sporting que ostentava, o físico cuidado e a confidência de que já tinha treinado de manhã não deixam margem para dúvidas: continua a levar o atletismo muito a sério.

"Tenho toda a minha vida ligada ao atletismo e isto é uma continuação do que iniciei quando tinha 18 anos. Tive uma carreira cheia de êxitos, muitas vezes campeão nacional e recordista de várias distâncias, e campeão europeu e mundial de veteranos. Deixei a alta competição quando já tinha mais de 40 anos, mas continuei a preparar-me para manter-me fisicamente bem e porque gosto de desporto. Tinha pensado em não fazer mais maratonas, mas a Luzia Dias [antiga atleta do Sporting] e um amigo dela iam à maratona e convenceram--me a ir. Disse que ia, mas para fazer perto das cinco horas, e que quando não pudesse correr ia andar. E foi isso que aconteceu", explicou, com simpatia.

Crente de que é um "caso único ou deve haver pouco mais de um ou dois" em Portugal, ao completar a mítica distância à beira dos 80 anos, o antigo fundista natural de Setúbal "quis saber como é que o corpo humano consegue suportar tanto tempo a correr". "Na Maratona de Nova Iorque em 1983 fui 2.º classificado com 2 horas e 21 minutos, e depois de tomar banho e de voltar ao local, vi pessoas a chegar com um tempo de sete horas, mas muito alegres e com a família toda a dar-lhes os parabéns e a abraçá-las. Para eles, chegar ao fim foi uma vitória. É preciso ter-se muita coragem", disse o detentor de uma marca (não homologada) de 2 horas e 13 minutos.

65ª maratona em 2018

Apesar de toda a experiência alcançada em 63 maratonas anteriores, Armando Aldegalega sente que acusou o entusiasmo inicial, algo que lhe ditou uma segunda metade de prova muito complicada. "Eu fiz duas horas à meia maratona e quase três na segunda metade. Foi um disparate... entusiasmei-me! Já não fazia uma maratona há 15 anos e perdi a noção. Mas no próximo ano vou correr a primeira parte a um ritmo mais lento para terminar com um tempo muito abaixo", prometeu, ambicioso para um 2018 em que projeta a participação na 65.ª maratona do currículo, também em Lisboa, e nos Campeonatos do Mundo de veteranos, na cidade espanhola de Málaga. "A partir daí, só irei fazer manutenção", diz, se o bichinho o permitir.

A saúde, essa é de ferro. "Faço os exames que tenho de fazer todos os anos e os médicos dizem que sou um caso a observar, porque ainda continuo com um nível bom", atirou o veterano atleta, que a nível de problemas físicos nunca teve algo que tivesse "provocado muito tempo de paragem", apesar de não se ficar pela corrida contínua. "O que faço mais é corrida contínua - que uma vez por semana é de hora e meia -, mas também faço fartlek [método de treino com variações de ritmo], embora não tire tempos. Faço o que o corpo pede. Não posso nem devo jogar com o cronómetro. Também faço séries e rampas, mas muito devagar, quando estou a treinar os atletas", contou, bem-disposto, já a apontar às participações na Corrida Luzia Dias (dia 12, no Lumiar) e na São Silvestre de Lisboa (30 de dezembro).

Pese a invejável vitalidade que exibe aos 79 anos e 11 meses, também ouve comentários negativos de vez em quando. "Um rapaz que ia de bicicleta olhou para mim e disse: "Ó Armando, ainda hás de morrer a fazer a maratona." E eu respondi: "Prefiro morrer de pé do que morrer deitado." Recebi mais comentários positivos do que negativos, mas há pessoas que acham que quem tem 80 anos devia era estar deitado em vez de estar a correr", contou, acreditando ter feito uma "carreira maravilhosa".

Uma prova e aparece o Sporting

Natural de Setúbal, começou no atletismo "por curiosidade", em 1956. "Morava perto de um clube que é o Independente de Setúbal, que estava a treinar atletas para a Légua Nacional, cujas eliminatórias eram em todo o país e a final em Lisboa. Esses atletas saíam da sede do clube e faziam sete quilómetros. Eu vi-os passar, acabei por ir com eles, aguentei o ritmo e o treinador convidou-me para fazer parte da equipa", recordou Armando, então um jovem de 18 anos.

A prova de estreia não coincidiu com a primeira vitória, mas culminou no convite que lhe mudou a vida: "Não ganhei a Légua de Setúbal, mas o Sporting foi observar a prova e convidaram-me para ir para lá. Comecei, fiz uma prova e fui logo para o Sporting", resumiu o antigo fundista, que continua a correr de leão ao peito.

"Sempre vesti a camisola do Sporting e vou continuar a vestir. É uma grande paixão. O Sporting deu-me educação, pagou-me os estudos, arranjou-me emprego e deu-me as melhores instalações desportivas. É a minha segunda casa e continua a dar-me um grande apoio", vincou o veterano maratonista, que atualmente reside em Odivelas, onde em breve será inaugurada uma rua com o seu nome, na zona da Ramada.

Dois Jogos, um atentado

Pelas contas de Armando, terá sido o terceiro maratonista olímpico português, a seguir a Francisco Lázaro - que faleceu precisamente após a participação em Estocolmo 1912 - e a Manuel Dias (Berlim 1936). A "primeira vez" do atleta sadino foi em Tóquio, em 1964. "Conseguir os mínimos foi uma batalha. Chegar aos Jogos Olímpicos é o máximo que um atleta pode ambicionar, é o ponto alto", vincou, deixando a ressalva: "Mas ganhar medalhas é ouro sobre azul."

O 44.º lugar obtido na capital japonesa foi melhorado oito anos depois, na Maratona de Munique, onde terminou na 41.ª posição, foi porta-estandarte da delegação portuguesa - "uma honra e uma alegria muito grande" - e... apanhou um valente susto. Um grupo terrorista palestiniano levou a cabo um atentado visando a comitiva israelita e provocando 17 mortes. "Eu estava muito próximo do local. Os Jogos pararam durante um dia, mas foram reatados. Fiz a maratona depois e o presidente do Comité Olímpico perguntou se eu queria ir ao fecho, e eu disse que sim", recordou o atual técnico dos leões.

Ciclista sem bicicleta

Bem mais agradáveis de lembrar são episódios que lhe motivaram gargalhadas. "Em 1964, fazíamos estágios de fim de semana marcados pelo Prof. Moniz Pereira. Íamos para a Praia Grande, em Sintra. Os atletas das disciplinas técnicas ou distâncias mais curtas treinavam na praia, enquanto eu, de longas distâncias, tinha de ir até Sintra. Quando íamos a passar em Colares, uma senhora perguntou: "Então os ciclistas agora não trazem bicicleta?"", disse.

Outra memória que o faz sorrir ocorreu numa edição da Volta a Paranhos, no Porto, e envolveu outro campeão do atletismo português: "O Carlos Lopes ainda era um jovem e ia no grupo da frente, enquanto eu já com 30 e muitos anos ia no segundo grupo. Há um homem que diz: "Armando, vai lá à frente ajudar o Lopes." E eu respondi: "Vai lá é dizer-lhe para me vir ajudar!""

Inexplicável crise do fundo

Armando Aldegalega considera que "o fundo português está a atravessar uma crise muito grande". "Não há novos talentos, não aparecem, e os que aparecem são muito poucos. Há qualquer coisa que se está a passar que não está a entrar bem na preparação. Não digo que os técnicos não sejam competentes, mas estamos a modificar muito o sistema de Moniz Pereira e de outros treinadores, como Bernardo Manuel e João Campos. E agora julgo que estão a inventar um pouco e penso que não está a dar resultado", considerou, lembrando que os técnicos referidos foram responsáveis pelos treinos de alguns dos melhores atletas portugueses de todos os tempos.

A razão do insucesso, para o antigo campeão de 1500 m, 3000 m obstáculos, 5000 m, crosse e maratona, passa muito pelos novos métodos, uma vez que "a diferença que há entre os anos 1970 e agora é enorme". "Há pistas de tartan por todo o lado - algumas não estão a ser bem aproveitadas -, os equipamentos mudaram, os sapatos são superiores, a alimentação é indicada por nutricionistas, a maior parte dos atletas não trabalha - no meu tempo tinha de trabalhar sete ou oito horas por dias e ia treinar à noite, até às 22 horas -, há subsídios e estágios. Eu não tinha isso", vincou. "Quando fui aos Jogos Olímpicos, não podia receber dinheiro porque não era profissional, então recebia açúcar, leite, arroz, farinha, géneros alimentícios e davam-me dinheiro para ir comprar carne a um talho. Agora recebem milhares, o que torna mais inexplicável a inexistência de resultados", frisou.

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