Maior agência do mundo vem para desafiar o domínio de Jorge Mendes

Jonathan Barnett abre escritório no Porto e quer chegar a "número 1" no mercado português, apostando nos jovens. Duvida que Benfica venda Darwin por €100 milhões.

Rui Frias
Jonathan Barnett à janela do novo escritório na Avenida da Boavista, no Porto, a poucos metros da Gestifute de Jorge Mendes© Leonel de Castro / Global Imagens

"Jorge quem? Desculpe, nunca ouvi falar". O tom da resposta pode ter sido jocoso, mas deixou evidente a declaração de intenções. Para Jonathan Barnett, o inglês que é rosto daquela que é considerada a mais importante agência de representação do mercado futebolístico mundial, a ICM Stellar Sports vem instalar-se em Portugal para ser "a número um" do mercado nacional. Mesmo que isso implique destronar Jorge Mendes, o super agente português que tem dominado a paisagem das transferências do futebol português ao longo dos últimos longos anos.

"Se olhar para a revista Forbes, vê o nome de Jonathan Barnett como o número 1 dos agentes do futebol mundial. E eu não costumo olhar para baixo", reforça o britânico de 72 anos, habituado a apostas altas. Depois de uma carreira anterior ligada aos casinos ("não como croupier, nunca estive numa sala de casino, fazia parte da equipa financeira", esclarece), fundou em 1994 a Stellar Group, com o sócio David Manasseh, que, entretanto, em 2020, foi adquirida pela ICM Partners, gigante norte-americana que representa grandes figuras do cinema e do entretenimento e que tem agora na ICM Stellar Sports o seu braço desportivo.

Barnett, que a revista Forbes, em 2019, distinguia então como o mais poderoso dos agentes mundiais, agencia estrelas como Gareth Bale (Real Madrid), Eduardo Camavinga (Real Madrid), Jack Grealish (Manchester City) ou Saúl Ñiguez (At. Madrid/Chelsea), por entre uma lista que ascende a 800 nomes. E, desde esta segunda-feira, tem também oficialmente escritório aberto em Portugal, na cidade do Porto, a poucos metros da sede da Gestifute, de Jorge Mendes.

"O que nos atrai no mercado português é a qualidade dos seus jovens futebolistas. A nossa agência especializou-se em contratar jovens jogadores e acompanhá-los ao longo da carreira. E para uma empresa que é a maior do mundo é importante ter representação neste mercado. Portugal tem academias de formação que estão entre as melhores, produzem jogadores que podem jogar em qualquer parte do mundo", explica.

Na verdade, Barnett e a sua agência já há pelo menos cinco anos têm vindo a trabalhar no mercado nacional, com uma equipa liderada por Clemente Araújo, um barcelense ex-emigrante em Inglaterra, e Artur Fernandes, presidente da Associação Nacional de Agentes de Futebol e diretor internacional da Stellar. Em carteira, têm já 44 jogadores, com uma média de idades de 19 anos, entre os quais Tiago Gouveia, jovem que se estreou recentemente na equipa principal do Benfica, Vasco Sousa, do FC Porto B, ou Bernardo Vital, do Estoril, todos acompanhados por uma equipa de nove profissionais, que vão do "scouting" à psicologia, performance, gestão ou comunicação.

Por isso, mesmo "corrigindo" rapidamente o tom face a Jorge Mendes, "um amigo", Barnett assume que o objetivo em Portugal é arrebatar a liderança do mercado. "Queremos ser o nº1 em Portugal, talvez não em dois ou três anos, talvez seja preciso um pouco mais de tempo, temos de ser realistas, mas foi para isso que viemos. Eu não vou competir com o Jorge e o Jorge não vai competir comigo. Há mercado suficiente para todos. Se chegarmos ao mesmo jogador, a decisão será do jogador", refere.

"Darwin por 100 milhões? Não creio"

A abertura oficial do escritório da ICM Stellar Sports Portugal vem numa altura em que a formação portuguesa volta a destacar-se, com a recente vitória do Benfica na Youth League e um FC Porto campeão nacional com vários jovens made in Olival. "Portugal vai continuar a produzir excelentes jogadores jovens", confia Barnett, mas não arrisca dizer se estamos perante uma nova geração dourada do futebol nacional: "Respondo-lhe a isso dentro de uns anos", defende-se, prudente, avisando que "nem todos os jogadores portugueses, mesmo que bons, vão jogar no Real Madrid ou ser o próximo Cristiano Ronaldo. Isso acontece uma vez por geração".

Depois de dois anos marcados por uma retração no mercado de transferências, fruto da pandemia, Jonathan Barnett acredita que o próximo verão "ainda vai ser difícil", mas já terá "clubes a comprar mais". "Há dinheiro disponível". O inglês acredita que os clubes portugueses continuarão a "vender bem", mas duvida que o Benfica consiga chegar à fasquia dos 100 milhões de euros por Darwin Nuñez. "Não vão conseguir isso. Penso que não...", diz, apontando para os 60 milhões da transferência de Haaland para o Manchester City. "Haaland era o melhor, ou um dos melhores, no mercado. Haverá sempre três ou quatro grandes negócios, mas o resto andará por baixo desse nível. O Benfica é um clube vendedor e o problema é que toda a gente sabe que o Benfica é um clube vendedor. Por isso é difícil [chegar a esses valores]. Mas eles saem-se muito bem no mercado, por isso, quem sabe..."

"FIFA? Vemo-nos em tribunal"

Barnett, Mendes e muitos dos principais empresários de futebol uniram-se numa associação, The Football Forum, até aqui liderada pelo entretanto falecido Mino Raiola, para enfrentar a FIFA. O britânico promete luta até aos tribunais, se a FIFA quiser impor os seus planos para regulamentar a atividade, que contemplam, entre outras coisas, tetos de 10% nas comissões dos empresários em transferências.

"É ilegal o que estão a apresentar. Concordo que deve haver regras, como em todas as indústrias. Mas as regras devem ser escritas por quem conheça a atividade, em conjunto com a FIFA. Se for isso, 100% de acordo. Regras impostas pela FIFA, não. Porquê diabolizar sempre os empresários? Eu posso mostrar-lhe quantas pessoas da FIFA já foram acusadas e condenadas. E pergunto: quantos empresários foram condenados? Fazem muito dinheiro? Sim. Mas isso é ilegal? Da última vez que me informei não era".

Roger Schmidt por quem o contratou

Diretor da IMC Stellar Sports para o mercado europeu, o alemão Michael Reschke conhece bem o próximo treinador do Benfica. Na verdade, Reschke já contratou Roger Schmidt uma vez, embora nunca tenha chegado a trabalhar diretamente com ele.

"Fui eu que o contratei para o Bayer Leverkusen, em 2014, mas entretanto saí para o Bayern ainda antes da época começar", contou ao DN o antigo diretor-técnico do clube bávaro que esteve também ligado à contratação de Renato Sanches: "Excelente jogador, mas foi demasiado cedo." Voltando a Schmidt, o que esperar do novo técnico da águia? "É uma fantástica contratação para o Benfica. Tem uma ideia espetacular do futebol e desenvolve muito os jogadores. Tinha muitos clubes interessados na Bundesliga, se escolheu o Benfica é porque acreditou no projeto que lhe apresentaram e estou certo que vão ficar muito satisfeitos com o trabalho dele."

rui.frias@dn.pt