Longe de casa, Dínamo Kiev tem na guerra a motivação para lutar frente ao Benfica

Sem competição interna, os ucranianos treinam e jogam na Polónia. Contudo, já mostraram que dão tudo até ao fim e conseguiram dois apuramentos no prolongamento. "É um sinal de resiliência", avisa o psicólogo Jorge Silvério.

Nuno Coelho
Oleksandr Karavayev agradece aos céus o golo que marcou frente ao Fenerbahçe de Jorge Jesus na terceira pré-eliminatória.© EPA/SEDAT SUNA

É a cerca de 950 quilómetros de casa, na cidade polaca de Uniejów, perto de Lodz, que o Dínamo Kiev tem preparado a sua presença nas pré-eliminatórias e play-off da Liga dos Campeões. Esta quarta-feira (20.00 horas), será o Benfica o último obstáculo dos ucranianos que pretendem levar a bandeira do seu país, desde fevereiro debaixo de uma invasão russa e em guerra, à fase de grupos da mais importante prova de clubes do futebol mundial. Sem competição interna desde dezembro - o reinício das competições locais estava previsto para março, mas tal não aconteceu quando a equipa da capital seguia no segundo lugar a dois pontos do Shakhtar Donetsk -, o Dínamo, clube mais titulado da Ucrânia, já conseguiu, ainda assim, passar duas rondas, afastando o Fenerbahçe de Jorge Jesus e os austríacos do Sturm Graz, ambos após prolongamento, até chegar ao último degrau antes do objetivo.

Com o favoritismo claramente do lado do Benfica - cujo valor de mercado, segundo o site transfermarkt, é duas vezes e meia superior (245,8 milhões de euros contra 106,2) -, o Dínamo Kiev tem agora a sua prova de fogo, perante um adversário que defrontou na época passada por duas vezes sem conseguir marcar, empatando em casa (0-0) e perdendo em Lisboa (0-2, com a curiosidade de um dos golos ter sido de Roman Yaremchuck, avançado formado precisamente em Kiev).

O Dínamo tem uma equipa formada quase exclusivamente por jogadores ucranianos - a exceção é o defesa-direito polaco Tomasz Kadziora, que é casado com uma ucraniana e decidiu ficar - devido ao facto de a FIFA ter permitido a suspensão dos contratos dos futebolistas estrangeiros a atuar no país por causa da guerra (o que permitiu ao Benfica a contratação de David Neres, ao Shakthar). Resta saber como é que a equipa vai lidar mentalmente com a situação extrema em que se encontra: a treinar fora do país e a fazer os jogos caseiros em Lodz, enquanto na Ucrânia continua o conflito.

"É duro, porque sentimos a falta de jogos oficiais mas também porque os jogadores não podem estar com as suas famílias, que estão atualmente na Ucrânia, Roménia e Polónia. Eles precisam de ver os filhos, de passar tempo com eles e não podem fazê-lo. Isso é o que custa mais. De qualquer forma, têm de jogar, é o trabalho deles. Treinamos num relvado com 200 crianças mas temos de sorrir, porque a vida continua", descreveu o técnico Mircea Lucescu antes do jogo de Graz.

Resiliência a ter em conta

Segundo Jorge Silvério, psicólogo do desporto, isso não significa necessariamente que o Benfica vá encontrar um adversário perturbado nesta eliminatória, mesmo reconhecendo que "não é fácil preparar uma equipa assim, em termos logísticos, e não só". "Por outro lado, o Dínamo Kiev tem uma vantagem, se é que neste contexto se pode falar assim, que é o facto de todos estes acontecimentos na Ucrânia poderem galvanizar mais os jogadores, no sentido de quererem representar de alguma forma o país, de funcionarem como um fator motivacional, para terem mais brio em face da conjuntura que os seus compatriotas estão a atravessar, de lhes dar uma alegria. Tudo isto pode funcionar como uma motivação extra."

Sobre a forma como os responsáveis do clube podem preparar os atletas para competir em circunstâncias extraordinárias, o psicólogo avança que "não há fórmulas mágicas". "Cada pessoa reage de forma diferente e não os conhecendo não consigo dizer" que tipo de trabalho poderão fazer. "Aquele fator que já mencionei pode funcionar para a grande maioria como um fator aglutinador, mas pode haver outros jogadores que tenham familiares ou amigos que estão na linha da frente e isso pode tornar as coisas mais difíceis para eles. E esse sentimento pode ser tão forte que se torna mais predominante do que o fator motivação. Essa preocupação pode acabar por desconcentrar os jogadores em relação ao que é o jogo. O que se compreende, dado o futebol perder a sua importância em face das situações de outra grandeza que estão a acontecer com os colegas, amigos, familiares", acrescenta Jorge Silvério.

Na partida da segunda mão frente ao Sturm Graz, o técnico romeno Mircea Lucescu - que, aos 77 anos, é um dos mais experientes em atividade, apenas superado em número de troféus por Alex Ferguson - foi quase obrigado a substituir o experiente Denys Garmash 19 minutos depois de o ter feito entrar, devido ao descontrolo do jogador, que já vira um amarelo e continuava nervoso (será um dos ausentes no jogo de amanhã por castigo, tal como o capitão Sydorchuk).

Ainda assim, o Dínamo Kiev tem mostrado grande resiliência mental, como o provam os dois apuramentos conseguidos no terreno dos adversários, ambos no prolongamento. "Claro que mostra essa resiliência e estas coisas não sucedem por acaso. Mas por ter acontecido não quer dizer que volte a suceder, é só um fator indicativo que o Benfica terá de ter em conta no confronto", admitiu Jorge Silvério.

Por isso, a equipa técnica tem de perceber "como está cada um dos jogadores". "É importante ficar muito próximo deles para que, enquanto equipa, consigam estar o mais motivados e focados possível durante os 180 minutos, eventualmente mais prolongamento e penáltis. Será esse o principal trabalho do treinador", considera Jorge Silvério.

dnot@dn.pt