A I Liga tem sido um "passeio" para os três grandes. Só em 1990-91 perderam juntos tão poucos pontos

Na opinião de Manuel José, o quarto treinador com maior número de jogos na história do principal campeonato português, o registo de 16 pontos cedidos em conjunto pelos três grandes nas 15 jornadas iniciais, demonstra bem a enorme falta de competitividade instalada na I Liga. Por isso fala num passeio para FC Porto, Sporting e Benfica.

Os três grandes portugueses ocupam, como habitualmente, os três primeiros lugares da classificação na I Liga e esta época com uma quantidade de pontos perdidos muito diminuta. Após 15 jornadas, o FC Porto e o Sporting lideram com 41 pontos, o que significa que só cederam quatro, e o Benfica, terceiro classificado, soma 37 pontos, o que corresponde a oito pontos perdidos. Ou seja, os três maiores emblemas nacionais desperdiçaram apenas 16 dos 135 pontos que estiveram em disputa, o que corresponde a apenas 11,39%.

Em todas as 88 edições do campeonato nacional, e fazendo a conversão para três pontos por vitória em todas as provas, só em mais uma ocasião Sporting, Benfica e FC Porto perderam tão poucos pontos nas 15 primeiras rondas, precisamente os mesmos 16: na temporada de 1990-91, Sporting e FC Porto lideravam com apenas cinco pontos desperdiçados, seguidos pelo Benfica, que desperdiçou seis pontos. E a diferença em relação à terceira temporada mais profícua é acentuada - 23 pontos perdidos em 1962-63, seguindo-se os 25 de 1983-84, 1984-85, 1994-95 e 1995-96. Por curiosidade, a temporada em que os três grandes perderam mais pontos nas 15 rondas iniciais foi em 1966-67, um total de 52 (oito por parte do Benfica, 16 pelo FC Porto e 28 pelo Sporting).

Esta época, Sporting e FC Porto empataram a uma bola em Alvalade, em partida da quinta jornada, e para além dessa ocasião, os leões só não ganharam em Famalicão (quarta ronda) e os dragões nos Barreiros, com o Marítimo, na terceira jornada. Ou seja, as formações orientadas por Sérgio Conceição e Rúben Amorim estão há dez jogos consecutivos a ganhar na I Liga. A sequência de triunfos leoninos em provas nacionais é ainda mais impressionante e já atinge as 15 partidas. Por outro lado, os cinco golos sofridos pelo Sporting fazem dos leões a melhor defesa nas seis principais Ligas europeias.

O Benfica, que pode parecer não estar a realizar um bom campeonato, em face do atraso de quatro pontos para os rivais, ganhou 12 dos 15 encontros que disputou, tendo apenas perdido na Luz com o Sporting e com o Portimonense e empatado no Estoril. Os 37 pontos em 15 jogos dão às águias uma média pontual de 2,466 pontos, que a manter-se se traduziria em 84 pontos no final do campeonato, registo que chegaria para ser campeão nacional numa percentagem significativa dos campeonatos passados. E os 46 golos marcados pelo Benfica fazem com que este seja o seu melhor ataque em 49 anos, apenas superado pelo de 1972-73, com 49 golos marcados por um plantel que tinha jogadores como Eusébio, Toni e António Simões.

Refira-se que este é o segundo melhor arranque de sempre do Sporting, a seguir aos três pontos desperdiçados em 1946-47, seguindo-se os cinco pontos perdidos em 1990-91 e 1939-40. Quanto ao FC Porto, só tinha feito melhor em 1939-40 (três pontos perdidos) e perdera os mesmos quatro pontos em 2010-11, 1996-97 e 1995-96. O Benfica obteve o melhor registo de sempre em 1972-73, com 100% de triunfos e em 1982-83 e 1960-61 só tinha perdido dois pontos.

Sp. Braga já está a 13 pontos

Não é exagerado dizer-se que até ao momento, nesta edição da I Liga, existem os três grandes... e os outros 15 emblemas. A diferença dos líderes Sporting e FC Porto para o Sp. Braga, quarto classificado, já vai nos 13 pontos e mesmo o Benfica dispõe de vantagem de nove pontos sobre a formação orientada por Carlos Carvalhal, distância superior aos oito que separam os arsenalistas do Gil Vicente, oitavo colocado.

Em nenhum dos seis principais campeonatos do futebol europeu a diferença entre terceiro e quarto classificados é tão grande. Inglaterra é o que mais se aproxima, com seis pontos a separar o terceiro (Chelsea) do quarto (Arsenal). Em Espanha, a diferença entre Bétis e Rayo Vallecano é de três pontos e em França o Marselha tem mais dois pontos do que o Rennes. Em Itália, existe um ponto a separar Nápoles e Atalanta e na Alemanha a mesma ténue diferença entre Friburgo e Bayer Leverkusen.

"Passeio dos três grandes"

Manuel José, o quarto treinador com mais jogos na história do campeonato nacional - 560, atrás dos falecidos Fernando Vaz (626), Manuel Oliveira (617) e José Maria Pedroto (573) -, lamenta a constante perda de competitividade que se tem verificado. "Existe um grande desequilíbrio, com notória superioridade dos três grandes, depois do "apagão" de 19 anos do Sporting, que ainda assim, nunca deixou de ser uma equipa forte. E por outro lado, o Sp. Braga é o crónico quarto classificado nos últimos cinco, seis anos, tentando dar alguma luta aos três da frente e conseguindo conquistar algumas Taças. Daí para baixo, todas as equipas lutam para não descer, com exceção de uma ou outra que tenta o quinto e o sexto lugar e o acesso às competições europeias", constata.

O técnico defende que alguns históricos do futebol português têm caído bastante nos últimos anos. "O Vitória de Guimarães, que era um clube que dava muita luta aos grandes, baixou bastante, o Marítimo também e veja-se o Belenenses SAD como está... Temos esta época o caso do Portimonense, que está a tentar colocar a cabeça de fora [é o atual sexto classificado na I Liga], mas talvez não chegue lá", antecipa.

Manuel José diz que "boa parte dos jogos são um autêntico passeio para Sporting, FC Porto e Benfica, mas existe o reverso da medalha, com esses clubes a sofrerem nas competições europeias as mesmas goleadas, quando enfrentam os grandes "tubarões""

O treinador de 75 anos entende que a anunciada centralização dos direitos televisivos poderá ser um importante fator para atenuar o desequilíbrio existente no campeonato português. "Sem dúvida que essa é uma decisão justa, que já devia ter sido tomada. A diferença de verbas pagas aos três grandes e aos restantes clubes é uma gritante injustiça que tem de ser corrigida", refere. E lamenta a cultura instalada, em que "a ideia que passa é que tudo o que seja para além dos três grandes é paisagem, bastando abrir os jornais e ligar a televisão para o constatar".

dnot@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG