Willow: a fantasia dos Anos 80 que deu uma nova série

Depois do filme de 1988, escrito por George Lucas e realizado por Ron Howard, Willow ganha nova vida numa série que conta com o protagonista do original, Warwick Davis. É o lançamento do mês no Disney+, com pozinhos de magia para preparar o Natal.

Era uma vez um agricultor que encontra uma bebé e tem como missão devolvê-la ao seu povo. Essa bebé está destinada a governar como imperatriz, e ele, Willow Ufgood, também aprendiz de feiticeiro, deve percorrer um caminho com fadas e trolls, combater dragões e uma rainha má, para se tornar um herói improvável aos olhos de todos - sempre na boa companhia do guerreiro Madmartigan de Val Kilmer. Era assim a história de Willow - Na Terra da Magia, o filme que Ron Howard assinou em 1988, partindo de uns rascunhos do amigo George Lucas (aqui como produtor), que imaginara esta aventura quando ainda estava a começar a escrever Star Wars. Seja como for, os dois universos não se misturam: Willow dá mais ares ao material literário de J.R.R. Tolkien, com uma pitada de Moisés.

Efetivamente, para lá do domínio de Stars Wars e Indiana Jones, os anos 1980 estão muito conotados com fantasias como Willow (pense-se em História Interminável ou A Princesa Prometida), filmes "da infância" que alimentaram o imaginário de toda uma geração. É por aí que passa o impulso por trás da série homónima que hoje se estreia no Disney+. Por um lado, a vontade de proporcionar o regresso ao mundo de uma personagem acarinhada, Willow Ufgood, por outro, um convite para uma nova geração criar os seus próprios laços com a linguagem mais reminiscente da fantasia, num tempo em que ela está dispersa por todo o tipo de produções.

Numa conferência de imprensa virtual em que o DN participou, o criador da série, Jonathan Kasdan (filho de Lawrence Kasdan), fez questão de sublinhar essa proposta entre a memória e o avanço: "A cada episódio, caminhamos numa linha que procura tornar a série familiar, correspondendo ao que os fãs esperam da marca Willow, mas também tentamos empurrá-la para frente, contar uma história que seja surpreendente. A grande arma que tínhamos connosco era Warwick, que trouxe todo um universo de credibilidade a Willow - no momento em que o vemos no ecrã, de repente acreditamos que as outras seis personagens poderiam, de alguma forma, encaixar naquele mundo, habitá-lo."

De facto, Warwick Davis, o ator que assumiu a personagem de Willow com apenas 17 anos, e que volta ao papel com 52, é o grande trunfo da série de oito episódios. Seguindo os eventos do filme, retoma-se aqui a história da criança que Willow protegeu - Elora Danan -, destinada a salvar o mundo, e cuja identidade se manteve em segredo. Inclusivamente, a própria, agora uma jovem adulta, não saberá que se chama Elora... Esse mistério está na base do argumento de Kasdan, que fala de um mal antigo que ressurge e vai unir um conjunto de novas personagens em torno da sabedoria do feiticeiro Willow, com quem seguem numa jornada para resgatar o filho raptado da rainha Sorsha (Joanne Whalley, outra atriz que retoma o seu papel).

"Nas minhas conversas com Ron [Howard], aquilo que sempre soubemos que estaria no centro era a pergunta: o que aconteceu a Elora Danan? Achámos que era um assunto promissor. Recorde-se que o filme terminou com um momento um pouco agridoce, Willow a dar um beijinho à bebé, dizendo "adeus, Elora"... O que a uma criança de oito anos como eu soava a "nunca mais te vou ver"! Pareceu-me um ótimo ponto de partida para uma série, e sabia que queria explorar a dúvida sobre como proteger a identidade dela. É algo alinhado com muitas outras histórias do George [Lucas], sobre pessoas a descobrir a sua herança ou excecionalidade." Estas palavras de Kasdan são de um verdadeiro fã. E as conversas a que se refere foram tidas durante a rodagem de Han Solo: Uma História de Star Wars (2018), filme do qual foi co-argumentista com o pai.

O próprio Warwick Davis usa da ironia para contar como se deu esse ressurgimento de Willow em pleno processo de trabalho da referida produção Star Wars, depois de anos a ser interrogado por fãs que queriam uma sequela do filme: "Era uma pergunta para a qual nunca tinha resposta, até conhecer o Jon Kasdan. Ele estava no set de Han Solo, e eu só pensava quem é que o teria deixado andar ali... A entrada de fãs não é permitida naquele local, e ele estava obcecado a falar sobre Willow, quando era suposto concentrarmo-nos na história de Star Wars!"

Dar um desenvolvimento a Willow implica também lembrar a outra personagem forte do filme, o guerreiro de Val Kilmer, ator que não pôde juntar-se à nova equipa por causa da exigência das filmagens. "A sua ausência aprofundou o mistério à volta do que terá acontecido com ele; de certa forma ampliou a história que já estávamos a contar. E deu-nos a oportunidade de acrescentar algo totalmente novo. Mas Madmartigan anda por aí... Tive muitas conversas com todos os envolvidos e o nosso sentimento é de que ele está por aí algures, para ser encontrado, se o dia chegar. Eu e Warwick adoraríamos vê-lo pegar naquela espada outra vez", diz Kasdan, recebendo um aceno cúmplice de Davis, que partilhou a primeira aventura com Kilmer.

De resto, há humor simpático e laivos de coming of age nesta série de entretenimento familiar, com personagens que, por vezes, ao longo da caminhada, não parecem muito confiantes nos poderes e sabedoria do pequeno grande feiticeiro, embora tentem controlar a postura."Willow é um pouco o reflexo do papel de um showrunner. Estamos cercados por pessoas que olham para nós e pensam "sabes o que estás a fazer, certo?" E tu limitas-te a dizer que sim ou não, mais ou menos, talvez... Foi algo que canalizei para a escrita".

Já em relação ao coming of age, o ator Amar Chadha-Patel, que interpreta um dos braços musculados do grupo, acertou em cheio na descrição destes rapazes e raparigas que seguem Willow: "Um dos aspetos que mais aprecio na série é que nenhuma personagem percebeu o que quer que seja. Isso é tão realista! A missão inteira não é apenas física - isto é, resgatar alguém - mas trata-se também de descobrir o que diabo andamos todos a fazer. Alguns de nós pensam que sabem, mas não sabem... E ver isso refletido num grande mundo mágico é realmente encantador." Palavras ajuizadas vindas daquele que, numa cena, diz que as novas gerações têm imensa dificuldade em ouvir histórias épicas. Ora experimentem esta.

dnot@dn.pt

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