"Ser fadista é uma herança pesada"

Em vésperas do concerto de apresentação do novo trabalho, Mistura, a fadista recorda os primeiros passos de uma carreira de quase 23 anos. Kátia Guerreiro fala do presente e futuro da sua música.

Mistura, lançado no final de 2022, é o regresso de Kátia Guerreiro aos discos e concertos. Um disco que também é um livro "inacabado" com os poemas, letras e fotografias do processo criativo do novo registo. Uma espécie de manifesto contra a imaterialização da música, trazido pelo streaming. "Tem de haver um objeto físico para a criação artística", sublinha a fadista. Com vários convidados, entre os quais Tiago Bettencourt, Rita Redshoes ou Rui Veloso, o novo trabalho é uma celebração de amigos, como explica Kátia Guerreiro, boa conversadora, numa entrevista ao DN.

O que é este novo trabalho Mistura?
É um pouco como uma festa de amigos. É uma mistura de almas que se juntam em torno da música. Almas que vieram contribuir com música, com poemas, com a ilustração do álbum. Almas como o fotógrafo, o realizador dos videoclipes, os músicos, o manager, os técnicos, todos eles contribuíram para o que o disco acontecesse. E deu-se a feliz coincidência de ter um poema chamado Mistura que fala das várias almas que tenho, sejam elas tristes ou alegres, transparentes ou mais baças, e que têm a influência de todas as pessoas que giram à minha volta, por isso mesmo, para mim, foi muito evidente que este novo disco se iria chamar Mistura. Desde a Rita Redshoes ao Tiago Bettencourt, o Pedro de Castro, o João Monge, o Zeca Medeiros, a Maria Luísa Batista, o Pedro Rapoula, o Rui Veloso, todos eles contribuem para aquilo que eu sou e, portanto, este disco é uma celebração dessas pessoas - mas claro que há mais pessoas na minha vida.

São quase 23 anos de carreira. O que mudou em si enquanto fadista desde o primeiro álbum Fado Maior, de 2001?
Vamos mudando e evoluindo ao longo do tempo, mas, enquanto fadista, acho que não mudei rigorosamente nada. Sou fadista, ponto! E ser fadista é toda uma conversa que podíamos ter à parte desta. Mas há, naturalmente, todas as influências que fui recebendo nestes quase 23 anos. Ao longo dos anos tive parcerias com artistas de toda a parte do mundo. Ainda agora cheguei da Índia, onde cantei com dois músicos de música tradicional indiana numa alegria extraordinária que nos contagiou e que nos levou para outra dimensão. Não sou uma artista estanque que vive exclusivamente no fado, aliás, desde o primeiro álbum que tenho composições mais contemporâneas. Portanto, todas essas contribuições trazem uma coloratura diferente da forma como apresentamos o fado e como nos apresentamos ao mundo com esta música que é tão nossa.

"Enquanto fadista, acho que não mudei rigorosamente nada. Sou fadista, ponto!"

O que é ser fadista nos dias de hoje?
É uma tarefa muito difícil. Somos, no fundo, herdeiros de uma tradição oral que naturalmente vai evoluindo, mas ser-se fadista é uma herança pesada. Primeiro, porque há sempre os puristas que quase nos impõem um certo rigor, o que pode condicionar a nossa liberdade. Mas não sou a pessoa que obedece a todas as regras do fado. Nunca usei xaile, durante os primeiros dez anos da minha carreira não frequentei casas de fado e na minha família não havia fadistas. Cresci nos Açores, onde não havia o meio fadista. Portanto, cheguei de paraquedas, uma alien que aterrou no meio do fado. Ninguém percebia porque tive destaque internacional, e isso causou muita estranheza e talvez alguma preocupação. Respeitei aquilo que estava a absorver, o que era o fado, dediquei-me a saber a sua história, tradições e personagens. E sem querer provar nada a ninguém quis fazer o meu caminho, tentando ser o mais genuína e autêntica que sabia ser, imprimindo a minha personalidade na minha música. Tentei fazer isso ao longo destes anos todos, sendo que agora é mais difícil porque já absorvi muito da tradição. Mas ser fadista, hoje em dia, é a responsabilidade de manter a herança do fado e, ao mesmo tempo, não cair na vulgaridade e sabendo que o mais importante de tudo é a verdade da emoção. Não choro porque me apetece chorar, mas sim porque me comovo genuinamente. Conhecem-me como sendo uma chorona em cima do palco [risos], mas não vou predisposta a chorar. Quando canto fecho os olhos e entro dentro de mim própria, e de uma forma egoísta estou ali a curar a minha alma em cima do palco, sabendo que quanto mais autêntica é a minha entrega, mais chega às pessoas. E se estiver num estado de alma mais frágil chego ao ponto da comoção. Quando digo que é difícil ser fadista hoje é porque é muito difícil chegar em cima do palco e manter esta verdade, porque rapidamente as pessoas nos criticam, porque estamos expostos nas nossas fragilidades para o mundo inteiro ver, e é difícil gerir isso.

É médica, como se sabe, mas deixou de exercer Medicina quando a sua filha nasceu, o meio fadista aceitou bem essa dualidade quando fazia as duas coisas?
Não, não aceitavam. Se eu fosse só uma curiosa e que, de vez em quando, cantasse uns fados estava tudo bem. Mas comecei a ter destaque e isso causou alguma mossa. O facto de me ter mantido com alguma distância fez com que, com um disco, e depois outro, e depois outro, começasse a ser mais respeitada. Mas foi uma conquista de espaço muito natural, não a forcei e também nunca quis ofuscar ninguém. Quando ia cantar eu era a artista, não me esquecia que era médica até porque em algumas viagens cheguei a assistir pessoas em aeroportos e aviões, mas quando entrava no hospital e vestia a bata esquecia-me totalmente que era artista. Cá fora causava algum espanto como uma médica conseguia conciliar duas carreiras, viajando, dando concertos, etc.. E por isso mesmo tive que fazer algumas opções.

E foi por isso que a certa altura teve de desistir da Medicina?
Sim, quando a minha filha nasceu. Ia ser má mãe, má artista e má médica. Queria ser mãe há muito tempo e quando me vi com aquela criatura nos braços comecei a pensar como iria viajar, fazer bancos... já tinha 36 anos e achei que tinha de - e merecia - dedicar-me ao papel de mãe.

E com essa distância que tinha do fado, como é que ele chegou até si?
Chegou quando eu era muito pequenina, nos Açores. Quando aparecia a Amália a cantar na TV ou na rádio, eu parava. Era hipnotizante. Os meus pais não ouviam fado, ouviam música dos Anos 60 ou música de Angola, porque a minha família vem de lá, ou seja, havia uma série de misturas de músicas, mas fado ninguém ouvia. E naqueles momentos em que ouvia fado ficava ali presa.

E nessa altura já cantava?
Primeiro ouvia muito. Cantava sim, mas pop e rock, cantava imenso, mas não deixava que ninguém me ouvisse, apesar de cantar muito alto e às vezes haver um pau de vassoura que me acompanhava de vez em quando [risos], mas fado não. Com 15 anos entrei num rancho folclórico e a vocalista do rancho cantava muito bem fado e nos intervalos dos ensaios ela cantava, acompanhada à guitarra portuguesa e eu ficava fascinada. E depois nas tertúlias em que participava cantei muito Madredeus. Sabia que era afinada, mas não tinha noção nenhuma da minha voz. Já na Faculdade de Ciências Médicas, nas praxes, punham-me a cantar e como eu tinha alguma projeção de voz chamavam-me o canário. Uma vez quando fiz anos ofereceram-me alpista [risos] e a partir daí fundei a Tuna Médica de Lisboa e o grupo de teatro Miguel Torga, onde também havia música e eu cantava. Depois com amigos comecei a ir a casas de fado onde me pediam para cantar. E eu cantava os três fados que sabia: o Amar, Lágrima e o Foi Deus. No final do curso dei por mim a cantar na Taberna do Embuçado onde estava a Teresa Siqueira, mãe da Carminho, que me ouviu, a Mafalda Arnauth também, que depois me levou ao Número 1. E numa noite fiz aquilo que os fadistas gostam de fazer que é andar a saltar de casa em casa, e lá estava o Carlos Zel, Fernando Tordo, o Raúl Solnado, e voltei ao Embuçado e a partir daí a minha vida mudou.

Quando canta Lobo Antunes, Sophia de Mello Breyner, Fernando Pessoa, ou outros poetas, é a Kátia que os escolhe?
Normalmente sou eu que escolho os poemas. Só quando fiz o disco com o José Mário Branco (Sempre, de 2018) é que isso não aconteceu. Combinei com ele que recolhia vários poemas e ele e a mulher, Manuela de Freitas, fariam o mesmo. Depois juntos fizemos uma escolha e percebemos o que fazia sentido na história que queríamos contar.

E isso aconteceu com alguém que se tornou muito especial para si...
O José Mário passou a ser uma das pessoas preferidas da minha vida. Antes do trabalho tivemos dois contactos. Um através de e-mail - pedi-lhe uma música, ele enviou-ma mas depois atrasei-me a gravar e já não consegui inclui-la no disco e ele entregou-a a outra pessoa que precisava. E depois na gravação de um filme, que ainda não saiu, realizado pelo Diogo Varela Silva e com produção musical do José Mário Branco, em que todo o filme se conta em fado, e esse foi o primeiro contacto artístico. Nesse dia, quando estávamos no estúdio a gravar a base dos fados para o filme, que depois foram cantados ao vivo, fiquei fascinada pela direção musical e artística do José Mário. A forma como ele me levou para cantar de certa forma... uma música em particular. Tinha acabado de ter o meu filho, que tinha dois meses, e tive de ir para o estúdio com a criança. Como estava a fazer o papel de uma grávida que ia ser mãe-solteira, que tinha um pai viciado em jogo, tinha de cantar a pensar no futuro. O José Mário, que gostava muito de crianças, olhou para mim e para o meu filho e disse-me: "É sobre isto. O que tens de proteger", e conduziu-me de uma maneira muito filosófica e eficaz para a forma como tinha de interpretar aquele tema. Fiquei deslumbrada. Depois, quando o contactei, ele estava relutante, disse que primeiro íamos experimentar trabalhar juntos. Ele tinha muitas reticências sobre a nossa relação pessoal, por alguma razão ele tinha alguma ideia preconcebida de mim, e eu também tinha em relação a ele. Mas a Manuela de Freitas ajudou-nos muito a abrir as portas. E nos vários meses em que fomos trabalhando, a nossa relação tornou-se muito bonita. Depois, termos ido para estúdio foi deixar impresso o amor que tínhamos um pelo outro. E ele disse-me uma das coisas mais comoventes do mundo: "Ganhei uma filha e dois netos".

Há uns meses, num programa de televisão, disse que tinha o sonho de morrer em palco. Que desejo é esse?
No fundo, morrer em palco é morrer no lugar onde sou verdadeiramente feliz. Sou inteira ali e dou tudo de mim. Ali não tenho de esconder emoções, não tenho de disfarçar nada e digo tudo o que realmente gostaria de dizer às pessoas. Quem me quiser conhecer tem de ir a um concerto meu. Posso escrever e tentar transmitir a minha verdade, mas é ali, olhos nos olhos, que surjo despida de preconceitos e de medos, porque sei que aquelas pessoas foram ali para me ouvir, fazem sentir-me amada e acarinhada e apoiada pelos músicos e técnicos. Morrer em palco é morrer em verdade e feliz.

"O fado mais inovador e o mais tradicional está a passar por uma fase um pouco ​​​​​​​nublada.As pessoas não sabem muito bem se querem ouvir fado tradicional ou coisas novas."

Vem aí o concerto no Tivoli, Lisboa, no dia 23 de fevereiro, o que está a ser preparado para esse dia especial?
Vai ser a apresentação oficial deste trabalho. É o primeiro concerto em que maioritariamente vão ser temas deste álbum, deixando espaço também para revisitar alguns dos temas mais clássicos. Vou ter os músicos que fazem parte deste álbum, mas ainda não posso confirmar as participações especiais do álbum.

O que se segue depois do concerto do Tivoli?
Já tenho muitas datas marcadas no estrangeiro: Suíça, França, Espanha, América Latina, a Noruega é uma possibilidade. Agora sim, depois da pandemia, estamos a entrar na normalidade.

"Se não fossem os turistas, as casas de fado morriam."

E, no seu entender, atualmente, qual é a relação dos portugueses com o fado?
Os portugueses não são os melhores amantes do fado, até porque não o tratam muito bem. Se não fossem os turistas, as casas de fado morriam. Há uma nova geração de ouvintes de fado... mas, tentando resumir, o que se passou nos últimos anos, quem ia aos fados eram os clássicos, que iam às noitadas de fado até às tantas da manhã, quando de repente aparece a nova geração do fado, com a Mísia que quebrou barreiras, e foi muito difícil quebrá-las porque a Amália era a Amália. A Mísia teve um papel fundamental nisso tudo. Depois chegou a Dulce Pontes, a quem confundiram com o fado, depois surgiu a Mafalda Arnauth e o Paulo Bragança que também teve um papel muito importante. Só depois aparecem a Marisa e eu. E quando isso acontece começa a haver um despertar de curiosidade. O que levou a que as pessoas voltassem aos fados foi porque tanto a Marisa como eu começámos a ter sucesso no estrangeiro. Aqui ninguém nos prestava atenção. O tempo foi passando e depois chegam a Ana Moura, a Carminho, e há ali uma fase em que somos nós o bloco. A Marisa faz um grande trabalho de inovação com novas sonoridades para o fado e a Ana Moura começa também a fazer coisas novas. Até que depois surge uma nova geração a querer ser a Marisa e a Ana Moura e a fazer coisas novas à força sem o conseguir fazer. Mas com isso aparece muita gente, aliás, parecia que nasciam fadistas debaixo das pedras. Mas a determinada altura percebeu-se que ninguém ia conseguir ser a nova Marisa ou a nova Ana Moura e começaram a procurar, novamente, o fado tradicional, puro e duro. E agora já se percebeu que o fado mais inovador e o mais tradicional está a passar por uma fase um pouco nublada. As pessoas não sabem muito bem se querem ouvir fado tradicional ou coisas novas. E depois não há espaço para o fado nas rádios, a não ser que se tenha algo mais comercial, e assim não chegamos às pessoas. Lá está, Portugal a tratar mal o fado. As rádios não nos dão espaço e há muito poucos programas de televisão onde se consiga levar a nossa música. O que vai acontecer a seguir? Vamos sobreviver com aquilo que o público estrangeiro quiser de nós. Em Portugal quem está, está, quem não está, estivesse. Vai ser assim durante algum tempo. Mas tenho esperança que depois iremos recuperar. Sou uma mulher cheia de esperança.

filipe.gil@dn.pt

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