Roménia, meu amor

Com o filme Collective, Alexander Nanau desmonta um escândalo que abalou
as estruturas sociais e políticas da Roménia, conseguindo também a proeza
de chegar a uma dupla nomeação para os Óscares.

Pergunta de algibeira: qual foi o primeiro filme romeno a ser nomeado para um prémio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood? Em boa verdade, a resposta apenas surgiu há pouco mais de uma semana, quando foram anunciadas as nomeações para a 93ª edição dos Óscares (agendada para o dia 25 de abril). A honra pertence a Collective. Com duplo significado, se assim se pode dizer - a realização de Alexander Nanau concorre não em uma, mas duas categorias: melhor documentário e melhor filme internacional.

O título inglês Collective provém do nome de um clube noturno de Bucareste (Colectiv) que, a 30 de outubro de 2015, durante um concerto da banda de "heavy metal" Goodbye to Gravity, foi assolado por um fogo brutal, de rápida propagação. Morreram de imediato 27 pessoas, ficando feridas 180. A ocorrência, agravada pelo facto de o clube não possuir as devidas saídas de segurança, suscitou de imediato uma vaga de protestos nas ruas, levando à queda do governo. Nos quatro meses seguintes, das vítimas queimadas, 37 morreram em vários hospitais, sem que o público e, em particular, os familiares pudessem compreender porque é que pessoas com queimaduras não muito graves não conseguiam sobreviver.


Era o princípio de um escândalo sanitário e político cuja investigação viria a ser a matéria central do filme Collective. As mortes posteriores ao incidente foram causadas por deficientes condições de higiene nos hospitais, por sua vez resultantes de um gigantesco esquema de corrupção envolvendo a venda de desinfectantes cuja composição estava viciada (veio a descobrir-se que o seu grau de diluição era apenas 10% dos valores recomendados pelos protocolos clínicos). Da indústria química aos médicos, passando pela classe política, o fogo do Colectiv revelou a existência de uma "mafia da saúde".

Alexander Nanau começou a trabalhar no projecto do filme logo em novembro de 2015. Numa conversa gravada em novembro de 2020 (disponível no YouTube) com Eugene Hernandez, director do New York Film Festival, ele resume assim o contexto em que se viveram esses dias: "De repente, as pessoas começaram a perceber que a corrupção não tem apenas que ver com o facto de alguém andar a roubar dinheiros públicos - a corrupção produz efeitos, quer dizer, mata pessoas." Mais ainda, essa é uma pesada herança da ditadura: "Todos compreenderam que a corrupção endémica da sociedade romena começa na classe política que, na sua maneira de pensar e agir, é uma herdeira directa do sistema comunista - a corrupção está no seu ADN."

Uma "nova vaga"


Alexander Nanau nasceu em Bucareste, em 1979, numa família de ascendência germânica que, em 1990, passou a viver na Alemanha. Estudou cinema em Berlim, tendo realizado o seu primeiro documentário em 2006, sobre uma encenação do Peer Gynt, de Henrik Ibsen, por Peter Zadek. Montada a partir da Roménia, a produção de Collective envolveu entidades de vários países, incluindo a HBO Europa e o Festival de Sundance - o filme foi adquirido para o mercado português pela distribuidora Films4You, com data de estreia ainda por definir.


Estamos, afinal, perante um acontecimento cinematográfico que está longe de ser um caso isolado. Podemos mesmo considerar que a cinematografia romena é um dos fenómenos culturalmente mais genuínos, tematicamente mais ricos, da produção europeia deste século.

E não apenas porque o polémico Bad Luck Banging or Loony Porn, de Radu Jude, visando o conservadorismo sexual da sociedade romena, venceu o recente Festival de Berlim (este ano realizado apenas online). Na verdade, o "renascimento" do cinema romeno, primeiro que tudo apostado em lidar com a herança traumática da ditadura de Nicolae Ceausescu (líder do Partido Comunista Romeno de 1965 a 1989), teve um decisivo impulso simbólico em 2005 quando A Morte do Sr. Lazarescu, de Cristi Puiu, venceu a secção "Un Certain Regard" do Festival de Cannes. Ironicamente, ainda que num registo de comédia do absurdo, era, tal como Collective, um filme sobre os erros dantescos do sistema de saúde da Roménia.

Nos dois anos seguintes, Cannes seria, aliás, o cenário privilegiado de consolidação do prestígio da "nova vaga" romena. Primeiro, em 2006, com 12:08 A Este de Bucareste, memória burlesca do tempo de Ceausescu, que valeu a Corneliu Porumboiu a Câmara de Ouro, prémio para o melhor primeiro filme apresentado em qualquer secção do festival (recorde-se que a obra de Porumboiu, com a presença do próprio, foi um dos temas marcantes da edição de 2011 do Curtas Vila do Conde); depois, em 2007, com a distinção máxima, a Palma de Ouro, a ser atribuída a 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, de Cristian Mungiu, retrato da condição feminina na Roménia da década de 1980, tendo como ponto de partida as convulsões vividas em torno de um aborto ilegal.

A estes títulos podemos acrescentar aquele que é, por certo, um dos mais espantosos documentários das últimas décadas: Autobiografia de Nicolae Ceausescu (2010), de Andrei Ujica, consegue a proeza de desmontar o sistema de poder da ditadura, não exactamente através de uma "descrição" da sua mecânica, antes tendo como base os filmes de propaganda encomendados pelo próprio Ceausecu. Outro cineasta a ter em consideração, sobretudo pela capacidade de explorar registos de inusitada intimidade melodramática, é Calin Peter Netzer, realizador de títulos como Mãe e Filho (2013) e Ana, Meu Amor (2017), o primeiro distinguido com um Urso de Ouro em Berlim. Sem esquecer, claro, a cada vez maior depuração da obra do já citado Cristi Puiu de quem pudemos descobrir, há poucos meses, o prodigioso Malmkrog (2020), ensaio crítico e irónico sobre o final do século XIX como uma espécie de utopia virada do avesso.

Jornalismo & cinema


O que liga estes filmes é, antes do mais, um sentimento de desencanto face à identidade romena: um "ser ou não ser" romeno que adquire especial contundência dramática face à desagregação dos laços sociais e, em particular, à fragilização do conceito de família. Ao mesmo tempo, o realismo austero de quase todos eles não é estranho a uma forma amarga de amor - como se, mesmo face aos mais angustiantes problemas, os cineastas romenos nunca desistissem de se pensar (e trabalhar) como elementos de um colectivo que pode recuperar os valores da sua unidade perdida.

Compreende-se, por isso, que Collective seja também, à sua maneira, um objecto duplamente jornalístico. Desde logo, porque se trata de seguir o labor dos profissionais de um jornal desportivo (Gazeta Sporturilor) que, pergunta a pergunta, facto sobre facto, vão expondo a monstruosa rede de corrupção que mina o sistema de saúde do país; aliás, o realizador não deixou de sublinhar que o facto de tal investigação provir de um órgão de informação dedicado ao desporto é também sintomático das muitas cumplicidades da imprensa "generalista" com a corrupção do sistema político. Depois, porque Collective está, de facto, organizado como uma investigação de cariz jornalístico.

O trabalho de Alexander Nanau vem inscrever-se numa muito especial zona de expressão, dir-se-ia a meio caminho entre a urgência televisiva e o tempo narrativo do cinema. Trata-se de responder e corresponder à urgência dos dramas sociais, procurando inventariar factos e identificar protagonistas que nos possam ajudar a compreender os fenómenos do nosso tempo para lá da aceleração mediática. Ao mesmo tempo, prevalece o cinema como prática e conceito narrativo que recusa reduzir as dinâmicas sociais e políticas a "símbolos" mais ou menos generalistas e intermutáveis.

Collective tem suscitado algumas curiosas comparações com Os Homens do Presidente (1976), o filme de Alan J. Pakula sobre o caso Watergate e a queda de Richard Nixon, seguindo o lendário trabalho de investigação de Bob Woodward e Carl Bernstein (interpretados por Robert Redford e Dustin Hoffman, respectivamente) para o jornal The Washington Post. Claro que o confronto dos dois títulos não pode ignorar as diferenças entre "documentário" e "ficção". Seja como for, há neles uma cumplicidade enraizada na formulação de um mesmo princípio, de uma só vez profissional e ético: a visão jornalística do mundo não se confunde com a mera produção de manchetes mais ou menos "escandalosas", enraizando-se antes na paixão pela complexidade dos factos e, claro, no desejo de os dar a conhecer de forma cristalina e racional. Ou como o cinema foi, e continua a ser, uma arte multifacetada sobre o mundo à nossa volta.

dnot@dn.pt

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