"Quero fazer deste ateliê um museu aberto ao público, criar maior ligação à cidade e às pessoas"

Artista plástica já está a trabalhar no projeto do museu e avança que "poderá ser no concelho de Oeiras". Antes, prepara novas obras e duas exposições em Itália. Apela ao primeiro-ministro para "investir mais em cultura" e "não perder a coragem para as reformas". Sobre o Chega, diz ser "a sombra de um povo".

Artista plástica reconhecida em todo o mundo, Joana Vasconcelos, 50 anos, é hoje símbolo da escultura monumental. No dia 2 deste mês foi agraciada com a Ordem das Artes e das Letras de França. Já em 2009 tinha recebido a Ordem do Infante D. Henrique, em Portugal.

No fim de semana em que o Presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, se reuniu com o presidente Emmanuel Macron e em que decorre a Temporada Portugal-França 2022, de intercâmbio cultural entre os dois países, viajámos com Joana Vasconcelos pelo universo das artes, do género feminino e da política.

Viajemos até ao Palácio de Versalhes, em Paris. Começo pela exposição que foi um dos pontos altos da sua carreira há 10 anos e que tive oportunidade de ver. Que linguagem se estabelece entre um espaço grandioso como aquele e a obra de arte de grandes dimensões?

Efetivamente, os locais onde expomos criam diálogo com a obra. E a obra é, em si, uma identidade que, em relação com o espaço expositivo, gera uma nova dimensão. Esse diálogo entre obras e espaços tem de ser bem-feito e é aí que reside o toque de magia. Quando é muito bem-feito, com a ajuda dos comissários e diretores dos museus, gera-se um ambiente mágico, onde as pessoas são convidadas a entrar e a mudar de dimensão, muito diferente do quotidiano. Há um lado transformador para a obra e para o local em si.

E as obras de grandes dimensões são uma tendência que está para ficar ou a pandemia fê-la pensar em peças mais minimalistas?

A dimensão da minha obra não é um aspeto da raiz da obra, ou seja, que esteja pensado no princípio. Faço parte do mundo da escultura monumental, para espaços públicos ou para grandes espaços interiores ou para locais inusitados, mas também faço peças à escala doméstica.

A escala só aparece no meu processo criativo, ela não é o princípio nem o fim, é uma parte do desenvolvimento de uma ideia. Por exemplo, quando pensei no sapato feito com panelas e pensei que o tamanho da panela seria 1/16, que é o tamanho de um tacho de arroz mais comum em todas as casas do mundo, passei a ter uma base:16 centímetros. A partir daí, toda a peça cresceu. A bitola ou escala inicial foi o tacho do arroz e o conceito é o papel da mulher na sociedade. Ou seja, a mulher em casa, no seu papel de família, no ambiente doméstico, e a mulher contemporânea, que tem uma vida pública, um emprego e que tem uma figura na sociedade. Portanto, são dois papéis totalmente distintos. Como é que eu ia relacionar essas duas dimensões? Pensei que, para simbolizar a mulher no papel mais tradicional e no ambiente da casa, as panelas poderiam ser um material que me ajudasse a criar essa relação. E depois pensei como iria simbolizar a mulher no espaço público, como figura pública, uma mulher profissional que sai de casa e vai trabalhar, e pensei nos saltos altos, que representam a mulher.

Na ligação destes dois conceitos, do privado e do público, da tradição e da contemporaneidade, encontrei então a panela e o sapato. Quando fiz uma junção das duas, nasceu aquela peça. Mas não a pensei grande, pensei no conceito, portanto é uma génese diferente, uma origem diferente. As pessoas pensam que só gosto de peças grandes, mas não.

Vi aqui no seu ateliê A Árvore da Vida. De algum modo, também representa a mulher?

Neste caso, a ideia d"A Árvore da Vida já existia, porque estava relacionada com a Dafne, uma escultura de Bernini que está em Roma, na Villa Borghese, e é uma das esculturas mais bonitas do mundo, quanto a mim. Nesta escultura, Dafne está a transformar-se em loureiro, e Apolo quer casar com ela, mas ela não quer casar com Apolo. Portanto, decide que é melhor transformar-se numa árvore do que casar com ele.

Há uma espécie de independência nesta sua decisão quanto ao seu futuro, que é uma atitude muito contemporânea. E penso que aquela escultura representa a liberdade de expressão, a liberdade de sentimentos, a liberdade da mulher, seja no passado ou no futuro.

Decidi fazer a árvore em que a Dafne se transforma. A escultura de Bernini sugere a transformação, e eu decidi fazer essa transformação, a Dafne transformada, mas muito luxuosa, muito requintada, é uma árvore muito barroca. É em tons de dourado, vermelho e preto.

Na altura, pensei expô-la na Villa Borghese, mas essa exposição não aconteceu. Mais tarde, durante a pandemia, pensei-a como símbolo de transformação que a pandemia gerou em todos nós e também de esperança para o futuro.

"A Árvore da Vida [em que está a trabalhar] representa a liberdade de expressão, de sentimentos, a liberdade da mulher, no passado ou no futuro. E é símbolo da transformação que a pandemia gerou em nós"

Ainda começou a ser produzida a partir de casa?

A minha equipa foi para casa bordar as folhas - é preciso explicar que esta peça tem à volta de 70 mil folhas de loureiro que são bordadas à mão, ou seja, são feitas de tecido e depois bordadas à mão com a técnica de Viana do Castelo do Canotilho.

E foi uma ótima âncora para as pessoas que foram para casa trabalhar e que estiveram muito isoladas durante alguns meses da pandemia. Começámos então a fazer as folhas e, entretanto, aparece o convite do governo francês para fazer uma instalação para a Sainte-Chapelle de Vincennes.

O comissário Jean François viu a árvore e disse que era um superprojeto. Disse-lhe que estávamos a fazê-lo por causa da pandemia e disse-me que a árvore representava realmente a esperança, o futuro, a renovação, e que devíamos fazê-la para a Sainte-Chapelle.

Ainda está em execução. Vai ser uma obra de grandes dimensões?

Exatamente, transformou-se porque o espaço assim o requer. O espaço tem 20 metros de altura, tem uns vitrais maravilhosos, é uma capela grande, sem qualquer mobiliário ou altar, portanto, de repente, a árvore ao crescer, relaciona-se com o espaço e com os vitrais de uma maneira magnífica e torna-se a identidade da capela.

Como encara esse desafio de liberdade da mulher? E que mensagem pode deixar a outras mulheres?

Vejo como a Dafne. Acho que a autodeterminação, a liberdade e a capacidade de cada um seguir o seu caminho deve ser igual para homens e mulheres. Os direitos humanos devem ser iguais para todos e, portanto, não acho que a discriminação faça qualquer sentido.

Todas as mulheres podem ter autonomia sobre o seu corpo, sobre a sua mente e sobre a sua identidade, assim como a liberdade de se expressarem e serem como quiserem.

E não seguir os padrões estabelecidos pelos maridos, pelas famílias, pelos casamentos, pela sociedade, pelas expectativas criadas num certo nível social ou ambiente cultural. Portanto, há muitos condicionamentos e a Dafne, que é uma personagem mitológica que sai desse enquadramento, sai da história e decide transformar-se em árvore. É uma decisão dela, é esse aspeto da Dafne que acho muito encorajador, para mim e para todos aqueles e aquelas que achem que o seu futuro está a ser destinado não por si, mas por outras razões à sua volta.

Qual foi, para si, a peça mais difícil de concretizar?

Não há situações dessas, porque as peças mais difíceis são sempre aquelas que estamos a fazer. Mas a instalação provisória na Torre de Belém foi muito difícil, porque cruzava vários universos que nunca tinha tocado: história de arte, património, universo religioso, militar. A Torre de Belém é um monumento essencial na nossa história - talvez um dos mais importantes.

Normalmente, o artista plástico está no espaço contemporâneo. Quando entramos na história de um país, começa a mexer em outros aspetos.

Portanto, a Torre de Belém foi uma coisa que puxou muito por esta equipa, na altura foi muito difícil lidar com os detalhes, as preocupações, o não tocar, a dificuldade e responsabilidade do passado a que não estávamos habituados.

Lembro-me de que o pároco de Belém disse coisas, o diretor dos Jerónimos, o diretor-geral do Património, toda a gente disse qualquer coisa sobre a Torre de Belém.

Depois, Versalhes foi outra vez a mesma coisa, uma vez que não é só um monumento nacional, é também um monumento à escala mundial, porque é um local onde o paradigma entre a monarquia e a república se estabelece, a mudança de paradigma para o mundo é em Versalhes que acontece. E onde o papel da mulher também é fundamental, porque Marie Antoinette, ao perder a cabeça, também muda o paradigma de uma monarquia para uma república, e isso é feito por uma mulher.

Versalhes encerrava outro tipo de problemáticas e foi muito difícil executar aquela exposição, mais do que a obra em si. Depois, mais à frente, o projeto mais desafiante foi o cacilheiro. Embarcação de grande escala, cruzámos as artes plásticas no universo marítimo, que desconhecíamos totalmente. Portanto, tudo o que teve a ver com regras do mar, leis do mar, a peça esteve no estaleiro naval no Seixal e foi muito interessante o trabalho com ele, porque um estaleiro naval é um universo totalmente diferente do das artes plásticas.

Quando essa peça saiu de águas nacionais e partiu para Veneza, passou a navegar por águas internacionais e, portanto, leis da diplomacia marítima, leis da navegação. Foi incrível o que aprendemos. E ser o pavilhão de Portugal era outro desafio. O projeto que estamos agora a fazer, O Bolo da Noiva, é um novo desafio e, sem dúvida, o mais complicado até agora.

"O Bolo da Noiva é o projeto que temos para o verão e já estamos a trabalhar nele há quatro anos, com pandemia pelo meio. Tem quatro andares, 12 metros de altura e 15 de largura. É uma peça que fala do encontro, casual ou propositado, de duas pessoas"

Complexo também pela dimensão?

O Bolo da Noiva é o projeto que temos para este verão e já estamos a trabalhar nele há quatro anos, tendo em conta que houve uma pandemia pelo meio. É um bolo de noiva com quatro andares, tem cerca de 12 metros de altura e 15 de largura. Uma pessoa entra no bolo, sobe e coloca-se no topo do mesmo, portanto nós conseguimos transformar-nos nas duas figuras do topo do bolo, ou seja, no noivo e na noiva. É uma peça que fala do encontro de duas pessoas numa escultura e esse encontro pode ser casual ou pode ser propositado. Casual porque podemos aceder ao topo e encontrarmo-nos com uma pessoa que não conhecemos, ou pode ser propositado no sentido de serem noivos.

Como surgiu a ideia do "bolo"?

Surgiu da ideia de interação entre a tradição e a contemporaneidade, o desuso do casamento é relativo, porque continuam muitas pessoas a casar-se, mas, se calhar, não da forma tão tradicional como estávamos habituados.

Ou seja, nós casávamos de uma forma muito controlada, muito ditada pela sociedade, e hoje em dia as pessoas já se casam de uma forma muito mais sincera e realista. Casam-se com quem querem e da forma que querem, e não consoante o que está predestinado pela tradição, pela sociedade ou pelas famílias.

Daí que esta peça seja uma passagem, uma espécie de portal entre o passado e o futuro. O que vai acontecer é que podem subir ao topo do bolo duas mulheres, dois homens, duas pessoas que não se conhecem de lado nenhum, e estão na situação de se casarem, ou seja, é o que acontece na contemporaneidade.

A peça também tem no seu interior um espaço, no primeiro andar, que é um templo, portanto encerra em si um espaço vazio onde as pessoas se podem encontrar, onde poderá haver concertos, cerimónias, mas na verdade tem um espaço interior que é um templo.

E onde e quando vamos poder visitá-la?

Vamos poder visitá-la em Waddesdon Manor, em Buckinghamshire, talvez em setembro deste ano.

Alguma peça que fez teve um sucesso tão inesperado que a surpreendesse a si própria?

Nunca pensei nisso, porque só faço as peças quando mais ou menos tenho a certeza de que vão ser um sucesso, senão, não faço. [Risos] Pensando em alguma coisa que não tivesse tido assim tanto sucesso, talvez O Galo de Barcelos tenha sido a única peça onde os meus cálculos não bateram certo. Quando mexi no galo de Barcelos, sabia que estava a mexer num ícone português que é amado e odiado. E isso interessa-me - essas peças que geram uma tensão e uma opinião. O galo de Barcelos é, por um lado, um símbolo ligado aos portugueses, aos emigrantes, e é super-reproduzido a nível turístico, mas há pessoas de Portugal que não gostam do galo de Barcelos porque veem a figura muito relacionada com a ditadura.

Quando fiz a peça, investi três anos do meu trabalho, sozinha, não havia nenhuma encomenda e não tinha sítio para o mostrar. A Viúva Lamego fez os azulejos, foi toda uma epopeia enorme e talvez a maior epopeia sem encomenda que alguma vez empreendi.

Entretanto, apareceu a hipótese de o galo de Barcelos ir até ao Brasil, mas, de repente, estava feito e não tinha para onde ir. Ia acontecer a primeira Web Summit e, de repente, era preciso qualquer coisa para pôr na Ribeira das Naus e que marcasse Portugal. Vieram cá as pessoas da Web Summit e acharam o objeto fantástico. Assim foi, o Galo de Barcelos foi para a Ribeira das Naus. Ficou toda a gente muito chocada com O Galo de Barcelos , várias pessoas a dizer bem e outras mal, até que apareceu a necessidade de ir à China e fazer uma representação portuguesa, uma coisa do Estado.

E então perguntaram-me se eu não queria levar O Galo de Barcelos, porque ia ser o Ano do Galo na China. Eu que tinha pensado que era em Portugal que o galo iria provocar toda a polémica que provocou, e até estava muito contente com isso, de repente já estou a levar o galo para a China.

O galo de Barcelos tem sentido e representatividade em todas as culturas, em todas as culturas há um galo.

Portanto, na China pensa-se no galo de uma maneira, os franceses pensam no galo de outra maneira, há toda uma simbologia à volta do galo a nível internacional. Eu é que não contei com ela, só contei com a portuguesa. Foi um sucesso inesperado, e esse, de facto, eu não previ, é verdade.

É a capacidade de a linguagem artística ser universal?

Sem fronteiras, sem culturas, sem restrições, sem censura, no fundo, apesar de muitos artistas serem censurados e eu também.

Quando diz "fui censurada", está a referir-se a que momento?

Em Versalhes, quando fui censurada com A Noiva. Ainda hoje muitos artistas são censurados pela sua obra e são censurados para não mostrarem aquela peça em determinado local. Pensa-se que existe uma grande liberdade, mas não existe, volta e meia há sempre quem diga que determinada peça não é adequada, porque toca em determinado tema ou assunto que não é conveniente.

A Noiva é a que tem os tampões e foi censurada em Versalhes. É a peça-âncora da minha obra, era a peça-âncora da exposição, estava num local de destaque. Veio uma nova diretora, e a primeira coisa que fez foi censurar a peça.

Como é que lidou com essa censura?

Lidei muito mal a princípio, porque pensei que já não iria fazer a exposição, porque seria estar a retirar a peça-chave. Fiz a exposição, mas sempre a pensar que seria muito melhor se tivesse A Noiva, mas aquela exposição permitiu-me mostrar a peça muito mais vezes, e é o que tenho feito.

Vivemos uma crise de matérias-primas, alta de preços da energia e dos fretes e logística - áreas importantes quando se faz escultura monumental. Tem sentido esse impacto?

Temos vindo a gerir essa dificuldade, uma grande parte do ateliê que não é visível é a logística.

No caso d"O Bolo, por exemplo, temos uma estrutura em ferro que depois é revestida de painéis de azulejos, e o ferro já foi mudando de preço ao longo do tempo. Mesmo a questão que referiu dos prazos de entrega e do transporte, o facto de termos de levar as peças para Inglaterra, o "Brexit" já nos afetou imenso. Portanto, já está a acontecer, não é só em teoria. E quando dizemos que vamos inaugurar O Bolo em setembro é com toda a convicção, se todo esse universo dos materiais e das entregas nos permitir. Há muito pouco controlo sobre vários aspetos e essa insegurança e instabilidade é extremamente difícil de gerir quando há prazos a cumprir.

No ateliê trabalham 50 pessoas. Como enfrentaram o confinamento e toda a pandemia?

Houve momentos muito maus e outros muito bons. Nunca tinha fechado o ateliê, tenho ateliês há 27 anos, portanto desde os meus 17 anos de idade.

Houve um momento em que tive de levar os passarinhos para casa, porque temos dois canários que vivem aqui, fazem parte da família. As pessoas foram todas para casa e lá foram os canários para minha casa. Comecei a pensar no que é que ia conseguir fazer a partir de casa. Então, fizemos croché em Zoom, meditações em Zoom, reuniões em Zoom, organização de exposições em Zoom, criei um perfume em Zoom, desenhei um colar, um bule, sofás... as coisas que fiz em Zoom foram verdadeiramente extraordinárias. De repente, aquele condicionamento fez-nos expandir para o mundo a partir de outra plataforma, neste caso a digital. E não impediu, de maneira nenhuma, que se fizesse uma série de outras coisas.

Em algum momento sentiu receio pela atividade?

Só houve um momento em que pensei se depois de tudo isto seria que ainda faria sentido continuar a trabalhar da forma que trabalhamos aqui. Será que o mundo ainda estará disposto a continuar nesta dimensão? A minha grande questão era se o mundo se ia transformar de tal forma que deixasse de fazer sentido fazer o nosso trabalho. Portanto, o que fiz foi aproveitar estar em casa para fazer uma dimensão de trabalho que normalmente não tenho tempo de fazer. Começámos a fazer A Árvore e eu fiz uma série de desenhos no meu quarto, fiz a minha primeira exposição de desenhos, algo que nunca tinha feito antes, porque tive esse tempo que não tinha tido antes.

"Em Versalhes fui censurada com A Noiva [feita com tampões]. Ainda hoje muitos artistas são censurados pela sua obra. Pensa-se que há uma grande liberdade, não há. Há quem diga que determinada peça não é conveniente"

Agora as encomendas, o mercado e o financiamento já voltou?

Rápido de mais. Não há um único dia neste ateliê desde há dois meses que não apareça uma nova ideia qualquer. As pessoas ficaram com imenso tempo para pensar. Agora é extraordinário, são ideias incríveis.

E o financiamento acompanha?

Umas vezes sim, outras vezes não. Financeiramente, continuo a achar a situação bastante difícil. Não se está onde se estava antes da pandemia, de maneira nenhuma.

Quanto tempo vai demorar a voltar a esse ponto pré-pandemia?

Não sei, sinceramente. Pela dinâmica que sinto hoje, espero que seja mais rápido e que a retoma seja com maior equilíbrio.

Em termos de faturação, como é que a crise vos está a afetar?

Houve uma quebra muito grande. Faturamos cerca de menos 70% do que o habitual. Temos de equilibrar esse défice com o futuro, mas estou confiante, porque estão a aparecer muitos projetos.

Esses novos projetos já estão a levar a arte para o mundo digital ou mantêm-se no universo físico?

As duas coisas estão a acontecer. O digital está a ganhar grande força, não há semana em que não se fale de NFT (certificados digitais para obras de arte). Acho que é natural que os artistas façam parte do mundo digital, já existiam sites de venda de obras de arte, já existiam leilões digitais, portanto há uma comunidade artística que já está nas plataformas digitais e os NFT são uma forma de certificação das obras.

A relação física e essa interação com o corpo escultórico é impossível digitalmente. O digital pode criar um grau de certificação inviolável, porque um dos grandes problemas do mundo da arte é a falta de certificação dos próprios certificados das obras de arte, e os NFT vêm ajudar a que a certificação seja segura, e isso é muito bom para o meio artístico.

E já está a trabalhar nisso?

Sim, já estou a trabalhar nisso.

Há pouco adiantou que está a preparar duas exposições em Itália. Onde e o que vai expor?

Sim, em Nápoles e Siracusa. Em Nápoles é uma exposição coletiva, num claustro antigo, onde há artistas do mundo inteiro, grandes nomes, e o comissário vai fazer uma grande exposição da qual eu faço parte com uma peça que é um coração todo feito em têxtil e que está suspenso de uma abóbada. Em Siracusa é totalmente diferente, porque é um museu de arqueologia, e eu nunca tinha exposto num museu de arqueologia, sendo que este é um dos maiores do mundo. Vou levar uma peça que fiz para Inglaterra, que se chama The Crown, que é uma valquíria, uma peça aberta ao centro, onde vai ser colocada no centro de uma figura grega.

Nessa relação passado-futuro, como está a incorporar novas preocupações nos materiais, como, por exemplo, as alterações climáticas?

Acho que todos percebemos que planeta só há um. Tentei sempre - apesar de ser vista como um personagem exagerado e monumental - acumular o menos possível e aquilo que vou usar será usado de uma forma concreta e específica. Não compro muito nem guardo muitas coisas. Reciclo imensas coisas, reciclo o conceito de ambiente doméstico. As valquírias, quase todas, ao princípio, eram feitas de roupa reciclada, aliás vou fazer uma agora para o Festival de Lille com os bailarinos, e todos os bailarinos me deram roupas suas, e vou fazer a peça a partir dessas roupas.

Na sua carreira, recebeu a Ordem do Infante D. Henrique em 2009 e agora a Ordem das Artes e das Letras francesa. Qual teve maior sabor?

As duas. Quando recebi a condecoração portuguesa, foi para mim um grande espanto e uma grande honra. Não estava nada à espera, efetivamente, era muito jovem e pensei que era uma grande responsabilidade. Levei essa comenda, e ainda hoje levo, com um grande sentido de responsabilidade para com o meu país e para com o papel que desempenho na sociedade neste momento da história do mundo.

E foi muito interessante, porque o Presidente Cavaco Silva, que me deu a comenda, disse-me que esperava ver-me no futuro a receber mais comendas. Portanto, no fundo, uma comenda é um incentivo à pessoa para desenvolver o seu caminho de forma séria. Todos nós servimos uma nação.

Obviamente, também me incluo no panorama internacional e, como tal, França é uma plataforma e um palco fundamental para as artes no mundo. Ser-se reconhecido em França tem uma dimensão internacional, é reconhecido por todas as pessoas. Já houve no passado outros artistas portugueses a receberem esta comenda e acho que França a atribuiu a outros artistas internacionais. Mas é o facto de vir de França e do Ministério da Cultura francês e do governo francês que lhe atribui essa dimensão internacional. Porque é que recebo a comenda francesa? Porque tenho desenvolvido ao longo de muitos anos um trabalho muito intenso em França: já expus em vários museus, faço parte de várias coleções, tenho colaborado com várias marcas, não só a nível da moda, do design e da arte contemporânea, e também galerias. Portanto, são muitos anos a fazer coisas naquele país. Mas não é só porque nasci lá e sei falar a língua. Não me sinto portuguesa ou francesa, sinto-me europeia.

Está preocupada com a ameaça da desintegração europeia?

Preocupa-me porque acho que a Europa é uma identidade forte, com uma história poderosa e com um futuro maravilhoso, e acho que a União Europeia é a melhor ideia que aconteceu nos últimos séculos. Desde a Marie Antoinette, esta mudança de paradigma, a criação da Europa foi, sem dúvida, um plano político de integração e de futuro. A União Europeia, a moeda única, acho que tudo isso reforçou muito a cultura europeia. Nós fazemos parte, somos todos integrados uns com os outros. Na verdade, prova-se que desde os gregos até aqui essa integração é real.

Falando de política, em Portugal temos uma maioria absoluta. Como artista, como olha para a cultura e os desafios que se colocam ao novo governo? E qual a primeira medida que deveria ser tomada nas artes?

Quanto mais força se dá à cultura, quanto mais dinheiro se pode dar à cultura, mais a cultura se estrutura, mais ela é forte e é preservada para o futuro. No fundo, não entender que a cultura é a base da nossa identidade é não perceber o futuro que um povo tem de ter na sua representatividade na União Europeia e no mundo.

Os franceses, por exemplo, investem muito do seu orçamento na cultura, acho que reforçar o orçamento da cultura é sempre necessário, nunca é o suficiente. Todos os criadores vão ajudar a construir um mundo melhor e um futuro melhor sem as tais fronteiras. A liberdade que os artistas têm é o tecido que respira e que perspetiva novas dimensões. Sem essas novas dimensões não vai ser possível existir futuro. Quanto mais investirmos na cultura, mais liberdade damos aos nossos criadores e mais pensamento nós criamos. E sem esse novo pensamento é mais difícil ultrapassar as barreiras, os traumas e os problemas que temos.

Vê a maioria absoluta como desafio ou oportunidade?

Vejo como uma grande oportunidade para fazer mudanças que são essenciais para o país e mudanças que, obviamente, quando temos muitas fações são mais difíceis de operar. Com uma maioria absoluta bem-feita, com inteligência e com coragem, podem criar-se grandes mudanças, essenciais para que Portugal seja um país melhor, mais moderno, mais profissional, menos burocratizado e mais dinâmico para acompanhar o desenvolvimento da Europa.

Acho que com este governo é possível fazê-lo e espero que o primeiro-ministro, que é um homem cheio de coragem, não a perca, que vá e que faça as grandes transformações essenciais que são precisas fazer ao nível da saúde, da educação e ao nível das artes, com certeza.

Em Portugal, o partido de André Ventura cresceu e é a terceira força política; em França temos Le Pen, ambos na extrema-direita. Isso preocupa-a?

Acho que o Chega é a sombra de um povo. Nós somos um povo com muita luz, com muito boas qualidades e ótimas características, mas também temos os nossos defeitos e os nossos traumas. E o Chega representa, no fundo, o dark side of the force. E, sim, também temos defeitos, também temos traumas, também alguns de nós são racistas, outros conservadores, e isso é refletido pelo Chega. É preciso analisar o Chega nessa perspetiva, olhar e ouvir o partido e dizer que isto está presente. Ainda não estava claro, mas agora está extremamente claro, o que é muito bom, e, portanto, é preciso atuar para que aquele tipo de opiniões e aquele tipo de perspetiva desapareçam da sociedade.

Nunca vai acontecer, é uma utopia, porém pode atuar-se de forma a minimizar e tentar que aquele tipo de traumas e pensamentos deixem de fazer sentido. Porque fazem sentido porque eles têm voz, e essa voz revelou-se agora. E se têm voz, então é porque existe qualquer coisa a fazer. E com uma maioria absoluta e uma boa equipa, acho possível ouvir o Chega e pensar como é que vamos transformar esta opinião e como é que vamos atuar sobre estes assuntos. Não é dizer "ai que horror, não vamos pensar nisso", não. Não acho que se deva excluir, acho que se deve ouvir e atuar, o que é diferente.

"O primeiro-ministro que é um homem cheio de coragem, que não a perca, que vá e que faça as grandes transformações essenciais, ao nível da saúde, da educação e ao nível das artes"

França fez isso, em seu entender?

França tem um grande problema, digamos que essa "sombra" em França é muito maior que a nossa e a voz é mais forte, porém é uma parte da sociedade, são pessoas, não são aliens que vêm de outro planeta. Há que ouvir as preocupações e respeitar as pessoas, e atuar para que essas preocupações e problemas desapareçam.

Vamos a um exercício criativo: se França fosse uma das suas obras, qual seria e porquê? E Portugal?

Diria que França seria A Noiva e o Coração de Viana ou o Galo de Barcelos seria Portugal. No caso nacional, tanto uma como a outra falam muito da identidade, da nossa história e do nosso património. Em relação a França, poderia dizer que A Noiva ou O Sapato também podia integrar esta dimensão, mas França é muito mais do que só a mulher ou a moda, é um país com muitas qualidades e muitas características. Mas acho que A Noiva, exatamente por essa polémica que gerou, integra bem o espírito francês.

Fez 50 anos. O que quer fazer nos próximos 50?

O meu primeiro plano dos meus 50 anos foi fazer um projeto com o Valter Hugo Mãe, em que trocamos cartas e desenhos. Ele escreve-me todas as semanas uma carta e eu todas as semanas lhe envio um desenho. Uma coisa do género do que havia nos anos 70, um pen friend.

Depois, tenho um projeto que ando a desenvolver há algum tempo, que é fazer deste ateliê um museu aberto. É um projeto que se chama AMA e a ideia é expandir a dimensão que vocês hoje conheceram aqui e transformá-la aberta ao público, potenciá-la e criar uma maior ligação à cidade e às pessoas.

Hoje em dia, as pessoas vêm visitar-nos só com visita marcada e a nossa ideia é abrir ao público e poder ter uma maior relação com a sociedade civil. No fundo, pode visitar-se o ateliê e ver o que é a produção de um artista e como é que as obras são feitas. Transportarmos esse conhecimento para todos, para que deixe de haver aquele estigma de que ir para as artes não é boa ideia.

E quer inspirar novos artistas?

Quero acabar com essa ideia e quero dizer a todos que é bom ir para as artes e que é uma profissão na qual muitas pessoas podem trabalhar e que é um futuro, é o futuro de o país ter mais criadores, mais pensamento artístico. Quero servir de exemplo para esse futuro, onde haverá mais artistas e onde a expressão e a identidade de um país será mais forte. Daí querermos abrir o ateliê para que toda a gente nos possa visitar e para que possamos ter uma interação com bailarinos, com músicos, para podermos criar uma programação.

Quando gostaria que o museu fosse uma realidade?

O mais depressa possível.

Está em conversações com a Câmara de Lisboa?

Com a Câmara Municipal de Oeiras. Seria neste espaço junto ao rio, mas mais para o lado do concelho de Oeiras. Portanto, já temos conversações com a APL, o Ministério da Cultura, a Câmara de Oeiras e estamos nessa fase de negociação, mas a ideia era poder fazer do ateliê um local que todos pudessem visitar.

rosalia.amorim@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG