O que é contar uma história através dos meios do cinema? O cinema é uma arte de contar histórias, ou um exercício de decomposição dessas mesmas histórias? São perguntas antigas. Afinal, acompanham toda a história moderna do cinema, pelo menos a partir da explosão das “novas vagas” na década de 1960. Por gosto de homenagem ou celebração nostálgica, a nova realização de Sandro Aguilar, Primeira Pessoa do Plural, parece nascer da vontade de relançar tais perguntas, perguntando também o que pode acontecer quando se transformam em exercício experimental.Por um lado, deparamos com uma sinopse de tom melodramático, já que começa na observação clínica das situações algo bizarras vividas por Mateus e Irene (o casal interpretado por Albano Jerónimo e Isabel Abreu). A saber: o seu casamento está a completar 20 anos, o que justifica uma celebração num resort de uma ilha tropical; estão à beira de partir, deixando sozinho o filho adolescente, mas começam a revelar estranhos efeitos colaterais provocados pelas vacinas que receberam...Por outro lado, o filme resiste aos efeitos melodramáticos que a sua história parece atrair - entendendo-se o melodrama não como um banal registo sentimental (nada a ver com a vulgaridade das telenovelas), antes como uma prospeção das razões, ou da falta delas, que aproximam e afastam os seres humanos. Talvez que o aparecimento de Mateus, na cena inicial, deva ser entendido como um símbolo da viagem formal que Primeira Pessoa do Plural procura concretizar. Na verdade, ele surge com a cara totalmente escondida por uma espécie de máscara de pano, como se fosse uma “cópia” irónica da figura do Homem Invisível tal como foi retratado por Hollywood na década de 1930, colhendo inspiração no romance de H. G. Wells publicado em finais do século XIX.A partir da ambiguidade destes elementos, o filme vai-se transfigurando num labirinto apostado em baralhar os espaços da narrativa e os seus tempos dramáticos, recusando qualquer chave psicológica, ou até mesmo um possível simbolismo existencial. Dir-se-ia que este é um cinema em que o fator humano vai agonizando perante o olhar do espetador, nada mais restando do que uma parada de fantasmas.Primeira Pessoa do Plural desemboca, assim, numa reavaliação das dúvidas que o lançaram, agora transfiguradas numa interrogação igualmente antiga, inevitavelmente perturbante: quando se filma, o que esperamos do espetador? Talvez que o paraíso tropical, qual ponto de fuga, seja uma utopia em que já não há espetadores, apenas uma solidão invisível, sem rostos. .'Se eu tivesse pernas, dava-te um pontapé'. A vida em grande plano.'Olhar o Sol'. Memórias cruzadas de quatro mulheres