Anya Taylor-Joy e um Chris Hemsworth sem o nariz falso do seu vilão de Furiosa- Uma Saga Mad Max.
Anya Taylor-Joy e um Chris Hemsworth sem o nariz falso do seu vilão de Furiosa- Uma Saga Mad Max.EPA/SEBASTIEN NOGIER

O som e a fúria de George Miller

Por estes dias, o Festival de Cannes ainda tenta recuperar fôlego do trovão que foi 'Furiosa: Uma Saga Mad Max', de George Miller, digno sucessor do tão celebrado 'Mad Max - Estrada da Fúria'. Passou fora-de-competição e colocou no tapete vermelho Anya-Taylor-Joy e um renovado Chris Hemsworth.
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Foi com estrondo e ruído que a Warner apresentou em Cannes Furiosa - Uma Saga Mad Max, o quinto filme da franquia criada pelo visionário George Miller. Oito anos após Mad Max: Estrada da Fúria, o festival volta a ajoelhar-se perante a potência de um objeto único em Hollywood. Neste caso, uma prequela sem Mad Max mas sim com Furiosa, a personagem que no filme anterior era uma espantosa criação de Charlize Theron. Muito mais do que um blockbuster, Miller ensaia um arremesso experimental para os sentidos. Para todos os sentidos...

Nesta história acompanhamos a saga da renegada Furiosa, desde a sua infância à rebelião nos centros industriais da Wasteland deste mundo poeirento e pós-apocalíptico. Há tempo para um romance com um motorista que faz lembrar Mad Max, alguma sabotagem e, sobretudo, uma noção de vertigem permanente através de perseguições no deserto, desmembramentos físicos e conspirações para conseguir o poder através do racionamento de comida e combustível.

Trata-se de uma aspiração de grandiosidade e de direito ao excesso. Uma carga épica tão cartoonesca como ambiciosa, capaz de colocar em cima da mesa questões filosofais sobre a guerra e a criação de impérios.

Para não ser comparado a Estrada da Fúria...

Se o anterior Fury Road foi considerado por muitas publicações especializadas como melhor filme da primeira década deste século, Furiosa é bem capaz de não ter a mesma aclamação. A sua vocação de alucinação de ação em êxtase pode ser demasiado radical para muitos olhares, mas fica a certeza de uma singularidade feérica genial, só ao nível de um criador de universos visuais como Miller. A par disso, sobra ainda uma grandeza excêntrica inigualável no prazer de criar emoções fortes na coreografia do impacto das cenas de ação, em especial na maneira como todo aquele frenesim lembra uma ideia de constante movimento. Como se nada parasse... Epifania perfeita, perfeitíssima, sobre aquilo que entendemos como “grande espetáculo”, sensação de estarmos a ver uma experiência corporal, daquelas que mexe com as nossas entranhas.

Outro tempo, outros tempos de cinema

E tecnicamente fica também uma nova “sensação”, uma ligeira impressão de aceleração dos corpos. Ou o cinema a ficar proveta de uma nova velocidade, de um desígnio de tempo diferente. Um tempo de cinema que acelera no tal contínuo gutural, mas que também sabe parar para ficarmos na teatralidade da representação flamboyant de Chris Hemsworth, melhor vilão dos últimos anos (onde estava este ator, tão perdido na rotina do universo Marvel...?) ou na pose exata da corporalidade dessa atriz filha do cinema que é Anya-Taylor-Joy.

A rampa de Cannes para este filme significa o tal capital de prestígio que a Warner, um dos estúdios dominantes da América, tem sabido construir de maneira exímia ao longo deste reinado de Thierry Frémaux, diretor artístico de Cannes, ao longo dos anos. Talismã que é um “case study” para perceber que um festival pode e deve ser esta aliança entre arte e o mais puro espetáculo, ficando-se com a garantia que este novo Mad Max é essencialmente arte pura.

Em Cannes

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