O Interminável: terror indie com gosto de ficção científica

Uma viagem obscura entre a realidade e o jogo mental. O Interminável é a nova estreia da marca Bold, cujos filmes fora da caixa são um exclusivo dos cinemas UCI. Chega esta quinta-feira às salas.

Justin Benson e Aaron Moorhead não são propriamente conhecidos do público português, mas o bom eco internacional dos filmes anteriores desta dupla americana independente - Resolution (2012) e Spring (2015) - abre o apetite a qualquer um. O Interminável, terceira longa-metragem coassinada por ambos, aterra assim na distribuição portuguesa como uma raridade que vale muito a pena descobrir entre a abundância dos títulos comerciais em sala (estes que não poucas vezes bloqueiam a visibilidade de pequenas surpresas). Ficção científica? Terror? Drama? É com pozinhos de tudo isto que se faz um filme discreto, na sua aparência de baixo orçamento, mas afoito na larga imaginação do conteúdo.

Para além da assinatura na realização, Benson (que escreve o argumento) e Moorhead também protagonizam a história. Diante da câmara interpretam dois irmãos que, segundo a teoria do mais velho (Benson), escaparam de um "culto OVNI suicida" quando eram crianças. Mas essa fuga do passado parece não ter um reflexo necessariamente positivo no presente: se na tal comunidade religiosa onde viveram pareciam ter, na versão das memórias vagas do irmão mais novo (Moorhead), uma vida saudável e tranquila, agora, no mundo dito normal têm um quotidiano cinzento - levado à letra na própria tonalidade fotográfica do filme -, entre trabalhos precários e refeições instantâneas. A este desencanto, incorporado sobretudo pelo mais jovem dos irmãos, soma-se o desejo de regressar a esse local de origem, depois de receberem no correio uma enigmática gravação enviada por alguém de lá.

É pois na direção do desconhecido, apesar do sentimento familiar desse regresso, que os dois órfãos se aventuram, com a bússola interior demasiado frágil para se orientarem. Chegados à acolhedora comunidade, que aparenta uma existência pacata entre copos de cerveja biológica e reuniões à volta da fogueira, os sinais de que aquelas pessoas e aquele lugar são dominados por uma qualquer energia superior começam a ganhar expressão em diferentes momentos... E parou tudo: por respeito ao suspense cinematográfico, não se deve dizer mais do que isto, para não enfraquecer a descoberta da extravagante construção narrativa. De facto, este é um filme que cresce sob o signo dos contos de H.P. Lovecraft (citado na abertura), entre um realismo desempoeirado e as forças ocultas e cósmicas, que se manifestam como uma entidade física camuflada na natureza.

Por outro lado, pode dizer-se que Benson e Moorhead sabem bem o que estão a fazer. O Interminável dá-nos muitas vezes a sensação de uma escrita doidivanas, com as peças de um puzzle cerebral a tentarem encaixar nas formas que não lhes correspondem, mas é essa fratura progressiva, essa injeção de loucura subterrânea que garante ao filme a sua qualidade artesanal do jogo da mente. De resto, enquanto matéria visual e sonora, a estranheza que se experimenta tem menos que ver com uma atmosfera de terror do que com o trabalho sobre a nossa perceção espácio-temporal, em que se quebram as coordenadas da realidade. E não há cá vaidosas sofisticações técnicas. Quem procura uma trip modesta e desengonçadamente inteligente, faça o favor de bater a esta porta.

*** (Bom)

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