Lisboa e Estocolmo: o poder das mulheres e do castelhano

As atrizes Itziar Ituño e Esther Acebo fizeram esta tarde a primeira incursão na Comic Con, em Algés. Foram recebidas por um auditório entusiasta, que aplaudiu as palavras em português, mas fez perguntas em castelhano.

Uma é loira, outra é morena. Há um par de anos, as atrizes passavam despercebidas na rua, agora são identificadas pelos fãs de A Casa de Papel - "olham para mim, sacam do telemóvel, confirmam, olham para mim, sussurram à vizinha do lado", diz a simpática Esther Acebo, a Estocolmo que já foi Mónica Gaztambide da série da Netflix que contagia milhões em todo o mundo. Ao seu lado, a Lisboa que já foi a inspetora Raquel Murillo agita a cabeça veementemente, confirmando. Tal e qual. Itziar Ituño tem a mesma voz sexy do ecrã, e foi a primeira a conquistar o aplauso da plateia com um "muito obrigada" depois de comentar o muito calor: vinha de calças de ganga e botas numa tarde em que os termómetros voltaram ao verão.

Mais fresca, com um vestido justo de cavas e sandálias, Estocolmo contou à plateia como fez parte do primeiro grupo de atores que leu o guião e percebeu o poder do texto que tinha em mãos. Quando lhe começou a dar voz e imagem, tinha medo que as pernas lhe tremessem demais. Corriam os primeiros tempos da rodagem da série que chegou de mansinho ao canal de televisão espanhol Antena 3 em 2017, depois à Netflix, explodindo no mundo.

"Mónica é uma mulher muito valente e essa é uma mensagem que quero passar às mulheres do mundo, que têm de acreditar em si mesmas"

No painel aberto ao público, revelaram alguns segredinhos dos bastidores - Itziar fez o casting com uma cena muito pequena do guião e não queria ser escolhida porque tinha de se mudar para Madrid e tinha outros projetos em mãos. Mas foi tão descontraída, tão descontraída que foi logo escolhida. Moral da história: "quando mais relaxados estiverem, melhor correm as coisas". Esther fez três castings. Foi ao primeiro com o cabelo esticado, voltou com os fabulosos caracóis, e depois com os caracóis a fazer um teste a ver se havia química com outro ator - e o resto da história já sabemos.

As duas atrizes foram partilhando experiências e destacaram a força da mulher. "Mónica é uma mulher muito valente e essa é uma mensagem que quero passar às mulheres do mundo, que têm de acreditar em si mesmas". Itziar confessou que o que mais tem a ver com Raquel Murillo, a inspetora, é que também ela prendia o cabelo com um lápis quando estudava. E que o que mais a marcou na personagem é perceber que "a força não está no autoritarismo, pode-se ter um espaço de poder sendo vulnerável".

No final, os fãs da série puderam fazer perguntas às duas atrizes. E das oito jovens que o fizeram, apenas duas falaram em português. Todas as outras falaram (ou tentaram) falar castelhano com as atrizes. Já na conferência de imprensa, o DN questionou-as sobre a forma como a série A Casa de Papel pode mudar a força da ficção espanhola e da língua castelhana no mundo, num mercado dominado pelo inglês. Esther respondeu assim: "Creio que algo muito bonito está a acontecer com A Casa de Papel, que foi abrir uma janela, ou uma porta ao mundo, no que diz respeito à ficção em Espanha. E agora muita gente está a ver um produto de televisão em espanhol, dando-se conta de que existimos, que podemos fazer ficção de qualidade e isso é bonito, levar isso a todas as partes do mundo".

Itziar considera que as plataformas de streaming "estão a abrir portas não só para o castelhano, mas também para o alemão, para o francês, e estão a ver-se séries rodadas na Europa no mundo inteiro. Por isso, colocou-nos no mapa do mundo inteiro! Antes o mercado estava dominado pelo anglossaxónico e agora estão a descobrir que se fazem séries muito boas, que se contam histórias muito interessantes em outros idiomas, e isso é maravilhoso".

As atrizes que dão vida a Lisboa e Estocolmo - antes conhecidas como inspetora Raquel Murillo e Mónica Gaztambide - não temem ficar coladas a estas personagens nas suas futuras carreiras, apesar da força que estas mulheres têm. "É um receio que podem ter todos os atores, sobretudo quando cais num projeto que se prolonga no tempo. Mas eu creio, pelo menos nesta profissão que escolhemos, que há que viver o momento. No teatro dizemos muito viver aqui e agora", diz Esther. "Claro que há o perigo de te converteres num cliché daquilo que fizeste, mas podes escolher os projetos e tentar-lhes dar uma volta para que não se pareçam."

Já Itziar reconhece que há a tentação de oferecer aos atores oferecer papéis com o mesmo perfil, está nas suas mãos escolher. "Mas a verdade é que o luxo de ter participado n' A Casa de Papel é que agora podemos escolher. Eu antes da Casa de Papel não podia escolher. Tudo o que me chegava tinha de fazer, porque não tinha muitas opções e tentava fazê-las o mais dignamente possível. Agora o luxo é poder escolher papéis e aí podes distanciar-te", diz Lisboa.

E no fim, brincam: "No set estamos sempre entre pó, explosões, e de vez em quando quando tenho de carregar todas as armas que pesam imenso, digo a brincar: por favor, quero fazer uma comédia romântica", diz Esther. "Eu quero fazer um musical", diz Itziar. Riem-se as duas.

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