Misericórdia, o novo livro de Lídia Jorge sobre a imortalidade da esperança

Misericórdia, o mais recente romance de Lídia Jorge, nasceu como uma "encomenda" de sua mãe nos últimos meses de vida. Mas, como a autora conta nesta entrevista, do jogo entre o testemunho e a ficção nasce uma reflexão sobre a condição humana em tempos incertos.

Esqueçam a ideia de que um romance sobre a velhice é um deserto narrativo, em que apenas se conjuga o verbo esperar. Ou de que aos seus protagonistas só resta despertar a compaixão do leitor. Em Misericórdia, de Lídia Jorge, Maria Alberta é uma das residentes no lar Hotel Paraíso, mas se a noite a assusta e o corpo lhe fraqueja, nem por isso a abandonam o prazer, o sonho, a curiosidade e até um certo tom despótico que usa na relação com a filha. Sobre si mesma, ela dirá: "Mas eu tenho este feitio, quero demais, mando demais, amo demais alguma coisa que não alcanço, e quando não a atinjo, procuro desesperadamente transformar o que existe de modo o objeto defeituoso da realidade inalcançável." Acompanham-na um leque de personagens, entre pessoas cuidadas e seus cuidadores, que desfazem qualquer ideia maniqueísta que se possa ter sobre estes espaços. São pessoas reais, contraditórias nas suas pulsões, vivências, medos e anseios. Como Lídia Jorge há muito nos habituou nos seus livros, também Misericórdia suscita a reflexão sobre o momento que vivemos e o modo como a condição humana a ele reage. E como acontece às personagens deste romance, também desta conversa em torno dum livro se partiu para a vida toda.

Como é que surgiu este Misericórdia, que, antes de mais, se distingue dos seus livros anteriores por ser protagonizada por uma mulher idosa, de caráter muito forte, residente num lar?

Tem uma raiz muito próxima. A Maria Alberta, que é a personagem que atravessa este livro, é inspirada numa figura real, concreta e que foi a minha mãe. Foi ela que me pediu que escrevesse um livro chamado Misericórdia, foi falando disso ao longo do tempo em que esteve no lar, mas fê-lo, em particular, no último dia em que eu a vi e que nós não sabíamos que ia ser a última vez. Creio que não tomei a sério esse pedido até ela ter desaparecido e eu sentir que esta era uma encomenda irrecusável. A partir daí, interiorizei que tinha de encontrar o caminho para o cumprir. Claro que esta é uma outra realidade, como acontece na construção de qualquer obra de ficção. É-me muito difícil deslindar a realidade que a minha mãe viveu do mundo ficcional que criei. Há uma zona de transfusão entre a experiência vivida e a experiência sonhada que é difícil de dissociar.

Nem é preciso...

Aliás, é o que eu peço. Gostaria que os leitores entendessem que o livro funciona como um todo. Sempre que se ficciona seja o que for, mesmo que seja um tempo ou lugar longínquo, há uma parte da obra que corresponde ao nosso ponto de vista. Noutros casos, como acontece neste livro, a experiência pessoal é mais vincada.

Sendo uma personagem muito forte esta Maria Alberta, está acompanhada por um leque de figuras igualmente densas, de várias faixas etárias. Teve essa preocupação de retratar realidades diversas?

Este espaço concentracionário que é o lar funciona como um palco em que a batalha humana está presente, com os seus lados de contradição e sonho. O facto de se tratar de um espaço fechado, com pessoas de idade que têm um tempo limitado de vida, cria uma intensidade de sentimentos e relações que muitas vezes as pessoas não imaginam que possa existir. É uma viagem por dentro das almas, quer dos cuidadores, quer das pessoas cuidadas, mostrando que os sentimentos podem ser comuns.

Há uma personagem muito interessante, que é o voluntário jovem que lê para os residentes. Procurou sublinhar o caráter encantatório da leitura?

Sim, é uma personagem que corresponde ao fascínio que pode ter (e que nós às vezes não imaginamos) uma pessoa que lê em voz alta para quem leu toda a vida e já não o pode fazer. Ouvir ler para si é uma experiência de enorme intensidade, tal os diálogos que isso permite, já que da conversa sobre os livros parte-se muitas vezes para diálogos sobre a vida. É uma experiência única para uma personagem forte e cheia de fulgor como esta é Maria Alberta.

Faltam-nos na literatura ocidental personagens velhas com esta densidade?

Mesmo a Mãe Coragem do Brecht é uma mulher cheia de força, mas é ainda uma mulher de meia idade. A velhice não atrai. O velho torna-se uma figura literária quando ocupa um papel importante na História, é o caso de Adriano no livro de Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano. Mas estamos a falar dum Imperador, não de um velho comum, de uma pessoa comum. E, no entanto, eu penso que é importante conhecer essas figuras. Há uma série de mitos errados em torno da pessoa idosa (há um livro de Milan Kundera intitulado Eternidade, que de certo modo fala disso) que negam o facto da pessoa envelhecer fisicamente, mas poder manter uma juventude e uma pujança interiores muito grandes. Eu não sei até que ponto é que a maioria das pessoas é assim, porque também sei que hás que se esquecem de tudo, que se desencantam, que ficam muito amargas. Mas a minha experiência mostra-me que a maior parte continua envolvida com o futuro, o que é muito tocante.

A caracterização da Maria Alberta não é maniqueísta - ela continua a ser uma mulher que preza o encantamento, o saber e mantém até o poder parental sobre a filha, a quem faz recomendações, às vezes ríspidas...

Ela agarra os instantes de felicidade como tábuas de salvação. Há uma espécie de visão franciscana de felicidade, que a leva a transformar as pequenas sementes que lhe são dadas em atos de esperança e beleza.

"A Maria Alberta, que é a personagem que atravessa este livro, é inspirada numa figura real, concreta e que foi a minha mãe. Foi ela que me pediu que escrevesse um livro chamado Misericórdia."

Essa capacidade falta-nos quando somos mais novos?

Creio que sim, foi por isso que senti que esta intensidade era literariamente importante. Dramatiza as situações porque as pessoas sentem que é agora ou nunca que vivem aquela experiência. Talvez não o pensem com esta clareza mas instintivamente sentem essa necessidade de alimentar os sentidos e a inteligência de toda a forma. No caso da Maria Alberta, é a questão da curiosidade e da ânsia do conhecimento. Mesmo quando a pandemia chega há uma curiosidade em saber como é que isto vai acontecer. Ela não vive a situação com tristeza, vive-a com medo e com a consciência de que o mundo, de forma global, está a atravessar um momento dramático mas sente curiosidade em perceber o que está a acontecer. Quer saber o que estão a fazer aquelas pessoas vestidas de astronauta.

A sua relação mais difícil é com a noite...

A noite também noutro sentido. O último combate dela é com a noite e ela vence.

Porque conclui que "a esperança é simplesmente imortal"?

Este livro é sobre o fulgor da vida. Os livros que se escrevem sobre a velhice (estou-me a lembrar, por exemplo, do último livro do Günther Grass) são muitas vezes como um traço que se coloca para uma conta de somar, frequentemente com um resultado negativo.

Não tem de ser assim?

Não tem de ser e sobretudo há uma grande diversidade de perspetivas. A minha não é essa porque também não tenho esse olhar sobre o futuro nem sobre as relações humanas.

Embora estejamos numa época muito complexa. Como é que a encara?

Para ser franca, desde há uns meses que estou em estado de choque. Encarei a pandemia como um momento importante para uma reinterpretação da Humanidade (escrevi vários textos sobre o assunto) no sentido em os apercebemos da nossa fragilidade numa situação em que não tínhamos um inimigo humano - o inimigo era a natureza. O facto de tão proximamente haver uma guerra desta natureza, na Europa, no continente que criou Kant, tem-me perturbado muito. É como se todas as fichas em que eu tenho apostado estivessem erradas. No entanto, sinto-me esperançada, acredito que a Europa se encontrou.

O facto de tão proximamente haver uma guerra desta natureza, na Europa, no continente que criou Kant, tem-me perturbado muito. É como se todas as fichas em que eu tenho apostado estivessem erradas. No entanto, sinto-me esperançada, acredito que a Europa se encontrou.

De que modo?

O Eduardo Lourenço, na sua visão sobre o continente, usava a expressão "L"Europe introuvable" para designar uma situação em existiam várias Europas que não se entendiam entre si. Eu acredito que, se ele estivesse vivo hoje, estaria contente. Nós estamos a fazer uma coisa de cuja grandeza ainda não nos apercebemos: É certo que nos tempos mais próximos vamos passar fome e frio (uns mais do que os outros) mas por um ideal. E isto não se passa apenas ao nível das cúpulas, passa-se também ao nível da população. Os europeus sentem-se solidários com o povo da Ucrânia e sentem o significado do que está em causa. Este fim de semana, quando ergueram em Kherson as bandeiras da Ucrânia e da União Europeia (que é algo a que eles só poderão pertencer daqui a uns 15 anos) foi muito tocante.

É a tal esperança eterna de que fala no livro.

É mesmo. É como se estivéssemos diante dum sismógrafo que vai registando diariamente mudanças de perspetiva e hoje é um dia com esperança. Nós julgávamos que aquelas pessoas estavam todas mortas e, no entanto, os sobreviventes vieram para a rua cantar. Neste momento, o meu maior receio é que os governos não tenham atenção às pessoas mais frágeis e que estas sejam manipuladas pelos extremistas dum lado e de outro, sobretudo os de extrema-direita, que, em meu entender, têm menos baias morais porque defendem a divisão dos seres humanos entre os que prestam e os que não prestam, os que fazem fortuna e os que não conseguem e que cada um fique onde está. Vimos isso muito bem na cartilha do Trump, que chegou a troçar publicamente das pessoas com deficiência. Disse coisas abomináveis sobre as mulheres e os pobres. A extrema-direita defende o darwinismo social. É, por isso, que a confusão entre extrema-direita e extrema-esquerda é perniciosa no sentido em que não é esclarecedora.

Também há esperança para as relações humanas. Não estamos demasiado centrados sobre os nossos telemóveis, sem ver o Outro?

Eu diria que ainda está tudo em estado de histeria, a que se junta uma grande incerteza quanto ao futuro. É incerta a economia, são incertas as relações humanas, mas a verdade é que estamos a construir uma outra realidade. As famílias sempre foram um espaço de tensão e não me parece justo que se diga que agora, sim, a família está em crise. No princípio do século XX, uma viúva ficava reduzida à miséria, voltava para casa dos pais ou dos irmãos. O mesmo acontecia com as mães solteiras. Eu ainda tive uma colega professora que teve um filho e teve de o esconder se queria dar aulas e ter trabalho.

E isso já foi no século XX muito adiantado...

Sim, as coisas eram assim, pura e simplesmente. Há aqui uma falsidade sobre a memória que não nos deixa ver claro. Neste momento, vivemos uma fase de transição acentuada com os movimentos trans em busca dum lugar que ainda não encontraram. Há uma gramática da identificação sexual que está em marcha. Para além disso, a Biologia mostra-nos cada vez que somos apenas um animal entre os outros e sabemos que a vida na Terra está ameaçada pelos problemas climáticos de que ouvimos falar todos os dias. Na minha geração havia uma metafísica e, parecendo que não, a ideia de que haveria um sítio e um momento em que a injustiça seria reparada era muito tranquilizador. Hoje temos a ideia clara de que ou há justiça na Terra, ou ela não acontecerá, mas, se isso é, por um lado, um bem, por outro, na parte ontológica, deixa o indivíduo sem a defesa última. Esse conforto que leva as pessoas crentes a dizer "O Senhor é meu pastor, nada me faltará" deixamos de o ter.

Esse sentido metafísico deixou de existir?

Há, apesar de tudo, uma ideia de que não estamos sozinhos. Acreditam no valor da companhia de uns com os outros, sentem que há uma totalidade qualquer em que se inscrevem. Mas as ideias de impotência, de transitoriedade e de fragilidade estão mais presentes do que nunca.

Embora perturbadora, essa consciência também pode ser libertadora?

Penso que essa consciência atinge de forma menos grave os jovens porque eles são, pela sua natureza, um projeto de esperança. Eles não têm um passado que transponham para o futuro, estão de peito aberto para iniciarem uma nova época.

Como se tem visto nestas manifestações de jovens pelo clima, eles sentem que são capazes de mudar as coisas. Quando sentem que não conseguem, refugiam-se no cinismo e na violência.

E essa é a eternidade da esperança?

Sim, é. Foi o que senti há uns dias quando vi um vídeo com os meninos da turma da minha neta mais nova a cantar: O mundo está à espera destas crianças.

O destino do ser humano não é o cinismo?

Não pode ser. O cinismo só conduz a uma luta que é darwiniana. Só esperamos que os seus defensores saiam sempre derrotados.

dnot@dn.pt

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