Morreu Franco Zeffirelli, o realizador de Romeu e Julieta e Fera Amansada

O realizador italiano, famoso por filmes como Fera Amansada ou Romeu e Julieta, morreu na sua casa, em Roma, aos 96 anos.

"O desaparecimento ocorreu no final de uma longa doença. O mestre vai descansar no cemitério de Porte Sante, em Florença", anunciou a fundação em seu nome num comunicado citado pelo jornal La Stampa.

Além de realizador, também encenou mais de 120 óperas e outras peças de teatro​​​​​​, algumas das quais levou para o cinema. Foi o que aconteceu com Romeu e Julieta, de Shakesperare, que encenou no anos 60, no Old Vic, com uma então muito jovem Judi Dench e que se tornou, com outros atores, um dos mais aclamados filmes de Zeffirelli - com o qual esteve nomeado em 1968 para o Óscar de melhor realizador. Voltaria a estar nomeado para um Óscar em 1983 com a direção de arte de La Traviata. Em 1967 realizou A Fera Amansada, também a partir de Shakespeare, com Elizabeth Taylor e Richard Burton.

Gianfranco Zeffirelli nasceu a 12 de fevereiro de 1923 nos arredores de Florença e o seu nome pode muito bem ser visto como um prenúncio da sua carreira artística: a mãe queria chamar-lhe "Zeffiretti", uma palavra que significa "brisas", retirada de uma ópera de Mozart, mas o nome acabou por aparecer mal escrito na certidão de nascimento e ele ficou Zeffirelli.

Zeffirelli terá herdado a paixão pela música do avô e ainda durante a infância contactou com o mundo do espetáculo através de atores itinerantes. Aos 8 anos assistiu pela primeira vez a uma ópera: O Anel de Nibelungo, de Wagner. Estudou arquitetura mas, após a guerra, durante a qual se juntou aos Aliados como tradutor, foi ao cinema para ver Henrique V, de Laurence Olivier, e decidiu tornar-se ator, tendo começado a trabalhar em produções teatrais na rádio. Mas foi o encontro com o realizador Luchino Visconti, com quem teve uma relação amorosa, que mudou a sua vida. Visconti dirigiu-o num pequeno papel numa produção teatral de Crime e Castigo e convidou-o para ser assistente de realização no filme de 1948 La Terra Trema. Foi também assistente de Visconti em Belissima (1961) e Senso (1952).

Ainda nos anos 50, dividia-se entre o cinema e o teatro. Dirigiu pela primeira vez Maria Callas na ópera It Turco, de Rossini. Em 1958 encenou, em Dallas, nos EUA, uma La Traviatta inovadora, que começava com a morte da personagem, contando depois a história em flashback. Em 1964, em Paris, encenou a Norma, de Bellini, criando também os cenários. E voltou a dirigir a Callas naquele que seria o seu último papel operático, na Tosca, em Covent Garden.

Estreou-se como realizador com A Fera Amansada, que inicialmente deveria ser estrelado pelos atores italianos Sophia Loren e Marcello Mastroianni mas acabou por ter Elizabeth Taylor e Richard Burton. O casal investiu mais de um milhão de dólares na produção. O sucesso dessa primeira obra abriu-lhe portas.

Seguiu-se Romeu e Julieta, com dois jovens atores, então desconhecidos, Leonard Whiting e Olivia Hussey. O filme tornou-se popular entre uma audiência mais jovem, mas esteve envolto em alguma polémica, uma vez que numa das cenas Olivia, que tinha apenas 15 anos aparece nua. Ao longo da sua carreira, Zeffirelli voltaria varias vezes a Shakespeare, incluindo um Hamlet com Mel Gibson (1990). Em 1986 o seu Otelo foi candidato à Palma de Ouro, em Cannes.

É impossível listar todas as obras de Franco Zeffirelli, mas não podemos deixar de recordar a minissérie de televisão Jesus de Nazaré, protagonizada por Robert Powel e com Anne Bancroft no papel de Maria Madalena, assim como o filme Um Chá com Mussolini (1999), no qual recuperou as suas memórias da Segunda Guerra Mundial, com as atrizes Maggie Smith (ganhou um BAFTA com o seu papel), Judi Denchi, Cher e Joan Plowright. E, finalmente, Jane Eyre, adaptação do livro de Charlote Brontë (1996), com Anna Paquin no papel principal, e Callas Forever (Callas, a Diva, 2002), protagonizada por Fanny Ardant, sobre a cantora que ele idolatrava.

Zeffirelli foi também uma destacada figura da direita italiana. Em 1994 foi mesmo eleito senador da Sicília pelo partido Força Itália, então dirigido pelo seu amigo Silvio Berlusconi, lugar que ocupou durante sete anos. Em 1996, revelou a sua homossexualidade mas nunca foi bem aceite pela comunidade gay, fosse pelas posições de extrema-direita (chegou a defender a pena de morte para as mulheres que fizessem abortos), fosse pelo seu apoio à Igreja Católica, que sempre condenou a homossexualidade. Foi feito cavaleiro honorário em 2004.

Com Lusa

Exclusivos