Horas Azuis, romance que Bruna Dantas Lobato dedica à mãe, à irmã “e para nós estrangeiros”, parte da sua experiência como estudante brasileira nos Estados Unidos, país para onde foi estudar Literatura com uma bolsa aos 18 anos. Originária de Natal, capital do estado de Rio Grande do Norte, além do bacharelato, fez dois mestrados em terras norte-americanas, em tradução e escrita criativa. Foi nessa altura que Bruna Dantas Lobato começou a escrever Horas Azuis, o seu primeiro romance, que será apresentado esta sexta-feira, dia 27, no Corrente d’Escritas - Encontro de Escritores de Expressão Ibérica, que arranca oficialmente esta quarta-feira, dia 25, na Póvoa de Varzim.No centro desta história está a sua vida como emigrante, que considera diferente daquela que é muitas vezes retratada na literatura. “Uma emigração que é, primeiramente, mediada por chamadas de vídeo, emigração num contexto contemporâneo, em que agora dá para assistir com a sua família a um mesmo filme ou série na Netflix, em que pode ler as mesmas notícias, acompanhar as mesmas coisas ao vivo... Não conhecia nenhum romance que tratava de emigração desta forma”, diz Bruna Dantas Lobato ao DN. Mas houve ainda outra razão que a levou a escrever sobre a relação à distância entre uma filha a estudar em Vermont e uma mãe a viver em Natal. “Surgiu também um pouco da frustração com o facto de que todos os livros de emigrantes serem sobre construir uma vida nova e deixar uma vida para trás. Eu queria escrever um romance sobre uma pessoa que queria estar em dois lugares ao mesmo tempo. Que eu acho que é muito mais próximo da minha experiência. Eu tenho vidas paralelas o tempo todo. Eu vivo num fuso horário e noutro fuso horário. E agora que estou aqui, estou em três fusos horários. Tenho o meu marido que está nos Estados Unidos, a minha mãe que está em Natal, no Brasil, e estou constantemente pensando o que estão eles fazendo agora.Parece que tenho sempre essa sombra, essa outra vida em paralelo”. .Este livro surgiu também um pouco da frustração com o facto de que todos os livros de emigrantes serem sobre construir uma vida nova e deixar uma vida para trás. Eu queria escrever um romance sobre uma pessoa que queria estar em dois lugares ao mesmo tempo.Bruna Dantas Lobato.Em Horas Azuis a autora transporta-nos para a solidão da sua vida de aluna estrangeira com poucos meios num campus universitário e envolve-nos nas conversas que tem com a mãe pelo Skype. Escrever, diz Bruna Dantas Lobato, "foi uma forma de eu ressignificar a minha solidão. É um lugar onde a solidão é sempre positiva. Onde eu sempre estou muito feliz de estar sozinha, só eu e a página. E me deu muito conforto no meu dia a dia, na minha vida de imigrante sozinha no mundo". O desafio maior deste romance, diz a autora, foi encontrar uma estrutura que sustentasse a narrativa. “Essa história que eu queria contar, que é a história da pessoa muito solitária que vive uma vida de privações, não se encaixava no modelo do romance, com um enredo, que tem um evento que leva a outro evento e tem uma explosão. A vida do imigrante não é assim”, explica Bruna Dantas Lobato. “Exigiu inovação da minha parte. Exigiu eu ter que responder para mim mesma: é possível escrever um romance em que se retrata a ausência, em que se retrata muito silêncio? Sustenta-se uma narrativa, um drama, só com silêncios? Então essa foi a parte mais difícil. Encontrar uma estrutura que acomodasse, como se fosse uma forma, a narrativa líquida”, acrescenta. .É possível escrever um romance em que se retrata a ausência, em que se retrata muito silêncio? Sustenta-se uma narrativa, um drama, só com silêncios? Então essa foi a parte mais difícil.Bruna Dantas Lobato.Ao longo do processo de escrita, Bruna Dantes Lobato diz que também entendeu "que a história não é apenas sobre a pessoa que vai, mas é também sobre a pessoa que fica. E que não só a filha queria viver em dois lugares ao mesmo tempo, a mãe também queria viver em dois lugares ao mesmo tempo. E isso era uma experiência compartilhada por elas, de estarem sempre nesse esforço de se encontrarem no meio do caminho, através dos monitores". Bruna Dantas Lobato decidiu permanecer nos Estados Unidos depois de concluir os estudos, e é professora associada de Inglês e Escrita Criativa no Grinnell College, em Iowa. Por falta de meios esteve vários anos sem ir ao Brasil visitar a família. “O que eu não sabia é que eu não ia mais ser a mesma depois de quatro anos. Eu não esperava isso, que iria me mudar tanto como pessoa. Eu tinha colegas que tinham condições financeiras para voltar para o Brasil todas as férias. Mas eu não tinha. Fiquei nos EUA de forma não interrompida e houve essa conversão completa.”Essa “conversão” incluiu a própria língua – como é habilmente retratado no romance – fazendo com que Horas Azuis tenha sido escrito em inglês e traduzido por ela para português. “Tenho muito orgulho de ter sido eu mesma a escrever e a traduzir, mas acho que é meio estranho isso, de se auto traduzir, eu resisti no começo”.A autora conta que o trabalho que tem feito como tradutora de literatura brasileira foi também uma forma de não perder o contacto com a língua portuguesa. “Sentia-me muito distante da língua portuguesa e sofria um pouco com isso, sentia-me muito solitária, e a tradução era uma forma de eu estar em contacto com a minha vida em casa." Os resultados foram inesperados, já que em 2023 Bruna Dantas Lobato ganhou o National Book Award, um dos prémios literários mais prestigiados dos EUA, na categoria de Literatura Traduzida, pela tradução de A Palavra que Resta, do escritor Stênio Gardel. Foi a primeira tradutora de língua portuguesa a ganhar esse prémio. “Não esperava, nunca tinha acontecido um livro da literatura portuguesa ganhar. Estou muito acostumada com a gente não ganhar nada. Foi muito especial, especialmente para reconhecimento da nossa literatura e quem sabe agora prestem um bocadinho mais de atenção.”Perguntamos-lhe porque decidiu permanecer nos Estados Unidos, e ela responde que normalmente as pessoas perguntam-lhe porque não se vai embora. As oportunidades profissionais foram-se sucedendo, e quem se vai embora quando tem a oportunidade de aprender com escritores como Zadie Smith ou Sigrid Nunez? Mas os receios em torno da política de imigração têm estado sempre presentes. Ela tinha acabado de se graduar quando Trump foi eleito pela primeira vez."É claro que essas políticas do Trump agora estão mais tensas. Mas elas sempre estiveram lá. E eu sentia isso. No livro eu falo um pouco de algumas das preocupações que eu tinha. Tem uma cena em que a minha personagem, por exemplo, se esconde num armário, junto dos casacos, numa festa. Porque todo o mundo nessa festa está bebendo e ela tem muito medo de ser presa, ou de ter alguma dificuldade. Esse medo sempre estava lá comigo. Mesmo antes de tudo." .É claro que essas políticas do Trump agora estão mais tensas. Mas elas sempre estiveram lá. E eu sentia isso. No livro eu falo um pouco de algumas das preocupações que eu tinha.Bruna Dantas Lobato. Bruna Dantas Lobato já está a escrever outro romance, que mais uma vez partirá da sua vida como estrangeira nos Estados Unidos. "Também é sobre imigração, mas de outra forma. Eu tenho dois sonhos: um é escrever sobre o imigrante que retorna para casa. Talvez porque eu desconfie que nunca vou voltar. Mas eu penso que seria interessante escrever sobre essa experiência de voltar para casa e se descobrir estrangeira de novo. E a estranheza disso é um pouco surreal. Então eu tenho essa fantasia de escrever sobre isso, mas não sei se é o livro que eu estou escrevendo agora", ressalva. "Eu acho que o que eu estou escrevendo agora é sobre a experiência de estar nos Estados Unidos, a vida da pessoa que mora nos Estados Unidos e tenta construir uma casa. A minha personagem de Horas Azuis tem muito esse sonho. Será que um dia eu posso ter um canto onde eu vou ficar? E eu acho que quando se fica, outros desafios surgem e outros desesperos surgem também". No Corrente d’Escritas a autora vai participar numa mesa redonda sobre o tema Agora que és grande, queres ainda ser o quê?, juntamente com Afonso Cruz, José Luís Peixoto, Raquel Patriarca, Rita Homem de Mello e Sergio Ramírez. A resposta dela é rápida: “O que eu ainda quero ser é escritora”, porque “tudo no mundo tenta fazer com que você não produza arte”. .HORAS AZUISBruna Dantas LobatoCompanhia das Letras144 páginas.Lídia Jorge: “O prémio não é só para mim, é para as mulheres da literatura e para as que têm uma voz cívica”.Patrícia Reis: “Todos têm razão e não há espaço para a dúvida. É como se a incerteza fosse uma fragilidade”